Irmãos e irmãs, peregrinos da esperança militante!

Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Cartas Apostólicas

Durante este ano de 2003 estamos buscando luzes e inspirações nas cartas de Pedro, a fim de podermos responder, com disposição, à vocação de cuidar da vida. Este dom divino precisa ser cultivado com reverência, a partir da originalidade de cada pessoa. Por isso não nos conformamos diante de atitudes que ultrajam a vida, que destroem a natureza, que violam os direitos e que excluem tanta gente.

No encontro anterior, iniciamos a terceira série de exortações (3,13-4,11), aprofundando as razões de nossa esperança.

É uma esperança militante que se baseia na própria vida de Jesus Cristo. É uma esperança que se concretiza aqui e agora, através de gestos de amor, de perdão, de acolhida e de serviço mútuo.

É uma esperança que não decepciona, porque é capaz de realizar, na história humana, o que se concebe na fé. O caminho é viver segundo a vontade de Deus que nos torna plenamente humanos.

É a proposta que queremos aprofundar no encontro de hoje, conforme sugere o texto de 1pd 4,1-11 que vocês podem ler, antes de continuar a reflexão que vem abaixo.

VIVER SEGUNDO A VONTADE DE DEUS
(4,1-6)

O “sofrimento” é uma das palavras-chave que nós usamos para expressar a realidade em que nos encontramos. Para nós, esta palavra carrega um significado social e teológico muito importante.

Em primeiro lugar, ela mostra que a carta é dirigida para fortalecer e encorajar as comunidades que estão em situação de sofrimento, por causa de incompreensões e até de perseguições de pessoas e grupos que não aceitam o modo de viver dos seguidores de Jesus.

Em segundo lugar, o sofrimento faz parte intrínseca da caminhada rumo a “uma terra sem males”. A própria vida de cada um de nós, como pessoa humana, é marcada por sofrimentos de todo tipo e todos os dias. Sem o sofrimento não há crescimento, não se chega à maturidade. Portanto, torna-se um meio pedagógico, através do qual chegamos a uma compreensão profunda da vida, das coisas, das relações...

Através do sofrimento podemos chegar à sabedoria, dom de Deus, capaz de edificar um mundo de paz e de fraternidade. Portanto, o sofrimento não deve ser buscado como se ele tivesse sentido em si mesmo. O que deve ser buscado, com todas as nossas forças, é a vida em plenitude.

Jesus de Nazaré, ao optar radicalmente pelo caminho de realização da vontade do Pai, assumiu todos os sofrimentos que acompanham esta opção. Um destes sofrimentos é proveniente das rupturas que devem ser feitas para viver segundo a vontade divina. Isto quer dizer que existem modos de pensar e de agir que devem ser “cortados”.

O modo de ser e de viver de Jesus Cristo foi de conformidade ao Plano de Deus e, por isso, não cedeu às pressões de uma sociedade organizada segundo os interesses de grupos dominantes.

Ele não cedeu às tentações egoístas do poder, tanto na dimensão política, como na religiosa e na econômica (cf. Lc 4,1-13). Ele se tornou servo e passou a vida fazendo o bem, a partir das pessoas excluídas.
No tempo em que escrevemos a Primeira Carta de Pedro, nós sentíamos na carne pressões muito parecidas das que Jesus enfrentou. Vivíamos no meio da cultura greco-romana que imbuía a mente e o coração das pessoas de um desejo muito forte de sucesso econômico, político e social, como se este fosse o caminho da felicidade humana.

Livrar-se do sofrimento e viver uma vida no bem-estar egoísta era o ideal que a maioria desejava atingir. Mas este tipo de ideal, aparentemente bom e belo, era acessível a um grupo minoritário de gente que, para atingi-lo, usava e explorava grande parte da população. Dentro desta cultura, a preocupação com uma vida digna dos estrangeiros, dos escravos e das pessoas excluídas em geral, significava um rebaixamento inadmissível.

Entre nós, cristãos, seguindo o modelo de Jesus, procuramos cultivar uma nova mentalidade e um novo modo de viver, onde a comunidade se caracteriza como “a casa de todos”. Por isso, precisamos dar o passo de superação das paixões humanas, isto é, da cobiça, da ganância, das bebedeiras, das comilanças, das libertinagens, enfim, de tudo o que significa falta de cuidado com a vida da gente e de todas as pessoas. Assumir as conseqüências desta decisão significa, para nós, um sofrimento curativo e redentor. Ele nos leva a manter e a crescer num tipo de vida onde os direitos humanos sejam respeitados.
A felicidade, portanto, não é a busca desenfreada de prazer egoísta que nos “enche” de um enorme vazio, mas é a construção de relações de amor e de respeito entre nós e com todos os seres. Esta é a vontade de Deus, manifestada por Jesus Cristo, e que se torna Boa Notícia hoje e por toda a eternidade.

A HOSPITALIDADE RECRIA AS RELAÇÕES HUMANAS
(4,7-11)

A “hospitalidade” é outra palavra-chave para nós. Nós incentivamos muito a vivê-la cotidianamente. A palavra grega usada para expressar a hospitalidade é philoxenos. Ela é formada pela junção de dois termos: phileo que significa amar, ser amigo, mostrar afeição; e xenos que significa estrangeiro, estranho. Portanto, para as comunidades como as nossas, formadas especialmente de gente peregrina e estrangeira, ela tem um sentido muito especial: resume todos os gestos de amor e de acolhida para com as pessoas estrangeiras, sem casa, sem comida, sem emprego...

Na tradição de nossos Pais na fé, desde o AT, a hospitalidade era um dever sagrado, pois os israelitas, em muitos momentos de sua história, viveram como estrangeiros no meio de outros povos. Uma das leis que deveria ser levada muito a sério era a que garantia a hospitalidade.
Mesmo dentro de sua própria terra, os israelitas sentiam-se imigrantes e hóspedes de Deus. Tinham consciência de que a terra pertencia a Javé e devia ser cultivada de forma a fornecer alimento para todos os seus filhos.

Oferecer hospitalidade a alguém, significava garantir-lhe proteção, como Deus fazia com seus hóspedes acolhidos em sua terra. Fazem parte da hospitalidade alguns gestos de cortesia: o beijo de acolhida, água para lavar os pés, azeite para ungir a cabeça...

O grande empecilho para a hospitalidade foi a criação do sistema de pureza, por parte da elite dos judeus, ligados ao Templo de Jerusalém, que excluía toda pessoa estrangeira, considerada impura e impossibilitada da salvação.

Por isso nós assumimos o desafio da hospitalidade como forma de vencer a pobreza e garantir abrigo para quem estava sendo perseguido.

UMA NOVA ETAPA HISTÓRICA

Através do texto de 1Pd 4,7-11 procuramos orientar como deve ser o relacionamento entre os participantes da comunidade cristã. Para estimular a viver este novo relacionamento, baseado na hospitalidade, nós lembramos que “o fim de todas as coisas está próximo”, isto é, aproxima-se uma nova etapa histórica. É a etapa do Reino de Deus.

As pessoas portadoras da mensagem de Jesus já não vivem mais impulsionadas por idéias e atitudes que discriminam, mas, sim, orientam-se pela prática de Jesus que acolhe, valoriza, respeita, perdoa e liberta.

Este novo tempo é marcado por uma vida de autodomínio, de sobriedade e de oração. Mais do que tudo, é o tempo do amor mútuo.

Uma das revelações mais belas, feitas por Jesus, é que Deus ama gratuitamente e seu amor gratuito perdoa os nossos pecados. Ora, se o amor de Deus tem a força de perdoar os pecados, também o amor gratuito entre nós, produz o mesmo efeito. As pessoas sábias da Primeira Aliança já anunciavam: “O ódio provoca brigas, mas o amor encobre todas as faltas” (Pr 10,12).

O amor tem o poder de devolver a vida para as pessoas em situação de morte. O amor mútuo vence todo egoísmo, toda divisão, toda calúnia, toda violência... Só o amor tem o poder de nos tornar plenamente humanos, portadores da mesma energia de Deus.

Cada um de nós, segundo os dons recebidos de Deus, pode assumir a prática do amor em qualquer lugar e em qualquer circunstância, seja por palavras, seja por qualquer tipo de serviço. Tudo se torna digno e nobre quando há amor.

Prof. Celso Loraschi

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