Irmãos e irmãs, peregrinos da esperança militante!

Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Cartas Apostólicas


As pessoas têm sede de paz. Nenhum ser humano sensato deseja a violência, a guerra, a fome, a morte...
Quantas manifestações estão acontecendo em favor de um outro mundo possível!
Nós também estamos neste grande mutirão em favor da vida. Por isso nos encontramos, trocamos experiências, passamos boas energias uns para os outros e, sobretudo, testemunhamos a fé vivendo a prática de Jesus.

Quando escrevemos a primeira carta de Pedro o nosso coração doía por causa do sofrimento dos nossos irmãos e irmãs sem casa, sem terra, sem emprego, sem pão...

O nosso sonho era a “globalização” da justiça, garantia de vida boa para todos. Podem acreditar: este mundo é possível e só depende de cada um de nós. É uma questão de escolha. Continuemos nossa reflexão seguindo o esquema, conforme vimos no segundo encontro. É a última parte da primeira série de exortações. Corresponde ao texto de 1Pd 2,4-10.

A PEDRA FUNDAMENTAL E O SACERDÓCIO DO POVO

Quem já leu toda a primeira carta de Pedro deve ter percebido a situação dos nossos irmãos e irmãs da Ásia Menor: vivem dispersos como forasteiros e estrangeiros; existem pessoas escravizadas; há mulheres cristãs casadas com homens não-cristãos; há pessoas que assumem lideranças nas comunidades; vemos a presença de jovens... Em geral, essa gente toda vive numa situação de pobreza.

Pessoas pobres, dentro da sociedade greco-romana do primeiro século, não possuem nenhum valor. São consideradas preguiçosas e inúteis. O testemunho delas não é válido: são pessoas sem honra, sem reconhecimento público. É muita humilhação!

Dentro da cultura greco-romana em que nós estamos inseridos, a questão da honra é muito importante. Uma pessoa sem honra é como se ela não existisse. Perder a honra é cair na desgraça, arruinar toda a família ou o grupo social ao qual ela pertence.

Há filosofias que defendem a necessidade de ter pobres para que haja ricos; de ter escravos para que haja pessoas livres; de ter pessoas sem honra para que haja aquelas honradas e dignas.

Há até religião que prega a necessidade da pobreza como sendo vontade de Deus. Dentro do judaísmo existe uma corrente que defende a situação de riqueza, dizendo que a fortuna é sinal de bênção e a pobreza é sinal de castigo.

Isto tudo transforma-se num grande peso nas costas de nossos irmãos e irmãs empobrecidos e desprezados.

A nossa carta quer dar-lhes muita força e esperança. Então, inspirados pelo Espírito de Deus, nós lembramos duas coisas importantes:

1.ª) Jesus Cristo é a pedra angular. Ele é o fundamento da casa que se chama Comunidade. Tiramos esta imagem do profeta Isaías, o qual, num tempo de exploração do povo por parte dos reis de Israel, escreveu: “Assim diz o Senhor Javé: vou colocar em Sião uma pedra de granito, pedra angular e preciosa, uma pedra de alicerce bem firmada: aquele que nela puser a sua confiança não será abalado. Porei o direito como norma e a justiça como medida...” (Is 28,16-17). E o salmo 118,22 acrescenta: “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra angular”.

Nós achamos que estas palavras caem muito bem dentro da situação de desprezo pela qual vivem as comunidades. Sendo Jesus Cristo a pedra fundamental, mesmo tendo sido rejeitado e morto pelo sistema da época, então quem é rejeitado neste mundo torna-se também pedra fundamental na construção da nova sociedade, quando se empenha pela causa da justiça.

2.ª) Todo o povo é sacerdotal. Isto quer dizer que todos os cristãos e cristãs são chamados a entregar sua vida pela mesma causa de Jesus: para que o mundo todo tenha vida em abundância. São chamados a formar a casa da comunidade onde não há mais discriminação, mas toda a gente tem honra, tem dignidade, tem valor... Uma comunidade assim tem uma identidade de “raça escolhida e de nação santa”.

BEBENDO DA ANTIGA FONTE

Esta concepção do sacerdócio de todos teve origem no XII século antes de Cristo. No livro do Êxodo 19,6, Deus falou a Moisés: “Estas são as palavras que dirás aos filhos de Israel: vós sereis para mim um reino de sacerdotes e uma nação santa”. Portanto, o sacerdócio de todos é dom de Deus e foi dado em vista de uma sociedade justa e fraterna.

O povo de Israel procurou viver isso na época do Tribalismo, um tempo em que os bens produzidos em comunidade eram partilhados conforme a necessidade de cada pessoa; a participação era ativa, as decisões eram tomadas coletivamente; as celebrações e festas eram realizadas em vários santuários e até nas casas; procurava-se evitar a centralização dos bens e do poder que corrompe o coração e exclui pessoas. O Tribalismo durou cerca de duzentos anos.

O regime da Monarquia foi estabelecido pelo ano mil antes de Cristo. Com isso tudo mudou. O rei escolheu alguns homens para exercer a função de sacerdotes e um deles se tornou o sumo-sacerdote. As celebrações e festas passaram a serem feitas somente no templo de Jerusalém e, pouco a pouco, vai crescendo a centralização do poder nas mãos de poucos. Só fazem parte do “povo escolhido e da raça santa” aqueles que cumprem a lei do Templo ao pé da letra. Dessa forma, o dom de Deus dado a todas as pessoas foi “roubado” por quem tinha interesse de dominar todo o povo...

JESUS MOSTRA UM OUTRO CAMINHO

Quando Jesus veio morar entre nós, encontrou esta triste situação lá na Palestina. Milhares de pessoas eram excluídas por causa do sistema de pureza do Templo de Jerusalém. Mas Ele mostrou um outro caminho, baseado nas verdadeiras tradições do povo de Israel. A partir de Jesus, começamos a perceber as coisas de forma diferente. Não é fácil, mas é possível.

É possível construir caminhos novos quando dialogamos, analisamos e discernimos em comunidade o que realmente nos faz viver. Ainda soa em nossos ouvidos o testemunho de Pedro que nos contava de sua dificuldade em mudar de idéias e de atitudes. Porém, quem está aberto à novidade de Deus que se revela continuamente no meio de nós, consegue dar o passo.

Nós fomos compreendendo que o culto e o sacerdócio não podem ser rituais externos, mas devem ser expressão de vida, cuja prática é o amor sem fingimento. Jesus, com sua vida e com sua morte, superou de uma vez por todas, a mediação do sacrifício e do sacerdócio do Templo. Agora é a comunidade o lugar privilegiado de Deus. Toda a comunidade é chamada a assumir e exercer o sacerdócio, colocando novamente em prática o projeto do Êxodo-Tribalismo, onde Deus se manifestou como Aquele que está presente e nos liberta de todo tipo de opressão e egoísmo.

NOVA CRIATURA

A pessoa que carrega esta certeza de que o acesso a Deus é garantido a todos, não se sente mais marginalizada; não sente mais vergonha de ser estrangeira, pobre, desempregada ou de viver numa condição socialmente rejeitada. Torna-se uma pessoa ativa e luta pela fraternidade no mundo. Torna-se participante das celebrações, não só para cumprir uma obrigação, mas para fazer da sua vida uma oração agradável a Deus. Torna-se capaz de acolher, de dialogar e de perdoar. Torna-se instrumento da paz, da alegria e portadora da bênção divina.

Ao aprofundar esta teologia do sacerdócio comum, nós temos a intenção também de proclamar que todos os seres humanos têm os mesmos direitos e deveres e devem ser respeitadas as características de cada pessoa, de cada povo e de cada cultura. Não há quem não tenha honra e, por isso, deve ter reconhecimento público e oportunidade de exercer sua cidadania, contribuindo para a construção da casa de Deus, que é a mesma casa do povo com vida digna. É um novo Êxodo em que se processa a passagem das trevas para a luz, da dispersão para a unidade, da opressão para a liberdade.

Prof. Celso Loraschi

PARA CONVERSAR

1. Ler e reler o texto de 1Pd 2,4-10 e anotar os pontos que consideramos importantes.

2. Cristo foi rejeitado e tornou-se pedra fundamental. Por quê? As pessoas rejeitadas hoje podem tornar-se pedra fundamental? Como?

3. Recebemos de Deus a missão sacerdotal. Como exercemos esta missão em nossa comunidade e em toda a nossa vida?

4. Que outros pontos queremos ressaltar?

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