Irmãos e irmãs, peregrinos da esperança!

Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Cartas Apostólicas

Hoje queremos concluir nosso estudo sobre a Primeira Carta de Pedro. Vamos rever alguns pontos já referidos ao longo dos nossos encontros anteriores. Estes pontos funcionam como chave-de-leitura para entender os motivos pelos quais nos orientamos ao escrever esta Carta, no final do primeiro século de nossa era. Eles nos ajudarão também a conhecer melhor nossa missão e a animar nossa caminhada na construção de um Novo Mundo.

1. UM NOVO ÊXODO

A Primeira Carta de Pedro é dirigida aos cristãos e cristãs da Ásia Menor, espalhados por cinco regiões da Ásia Menor: Ponto, Galácia, Capadócia, Ásia e Bitínia. São pessoas migrantes em busca de uma vida melhor, abandonadas pela política oficial do Império Romano por serem consideradas inúteis e sem importância. Além da opressão do Império, esta gente era mal-vista pela cultura grega e, muitas vezes, maltratada. As palavras, em grego, que definem estas pessoas e se encontram em nossa Carta, são: paroikoi (estrangeiros que têm onde morar), parepidemoi (estrangeiros sem-teto) e oiketai (escravos domésticos).

Nós, cristãos e cristãs, conhecemos a tradição bem antiga dos nossos Pais e Mães na fé, os quais também viveram em situação de migração e de diáspora (dispersão) pelo mundo. Eles souberam descobrir a presença de Deus vivo nestas situações de insegurança e caminhadas contínuas em busca da terra sem males. Nós também, mesmo perseguidos e incompreendidos e numa situação econômica de penúria, podemos abrir caminhos novos em vista de um mundo de igualdade e de fraternidade, como aconteceu no tempo do êxodo.

2. UM POVO ELEITO

Diante de situações difíceis podemos escolher o caminho da acomodação e aceitar o jeito de ser do sistema oficial; podemos nos revoltar e seguir o caminho da violência; podemos também nos desesperar e perder o sentido da vida; ou, enfim, podemos reagir de forma positiva e buscar saídas novas que garantam vida digna para quem foi excluído dela. Nós optamos por esta última alternativa. Fomos buscar na Sagrada Escritura o fundamento para esta opção. Aprofundando o sentido do Êxodo e meditando as palavras dos profetas e sábios, descobrimos que nós somos um Povo eleito, amado por Deus e conduzido por sua mão. Nós nos reconhecemos como pedra viva e preciosa, apesar de rejeitada por muita gente.

Constituímos o edifício de Deus e formamos um sacerdócio régio, isto é: somos sacerdotes e sacerdotisas, não mais submetidos aos senhores deste mundo, mas nos entregamos voluntariamente pela causa da vida, onde Deus é o nosso único Rei e Senhor; somos uma nação santa, agimos de acordo com a vontade de Deus que nos quer irmãos e irmãs, independente do espaço físico. Por isso, nos consideramos um Povo de propriedade divina: somos pequenas comunidades, espalhadas por muitos lugares, pobres e indefesas, mas temos a consciência de que a ação libertadora de Deus, como antigamente, se realiza através dos fracos e oprimidos. Jesus Cristo, nosso Mestre e Senhor, fazendo-se servo de todos, rejeitado e morto, tornou-se a nossa pedra angular.

3. PESSOAS REGENERADAS
PELA PALAVRA E PELO BATISMO

A fé em Deus misericordioso nos faz criaturas novas. Mediante a ressurreição de Cristo nós “nascemos de novo” para uma esperança viva. A ação gratuita de Deus nos liberta de toda opressão e de todo egoísmo. Como novas criaturas, somos chamadas a andar numa vida nova, com um novo entendimento e com um novo modo de agir: andar no caminho da santidade, não mais envolvidos nas trevas, mas em plena luz. Afastando-nos das obras e desejos do tempo da ignorância em que não conhecíamos Jesus Cristo, nos aproximamos do amor que nos torna acolhedores, solidários, justos e fraternos.

Obedecer a esta proposta de vida é seguir a Deus; é colocar-se no caminho de libertação, que iniciou no Êxodo, foi defendido pelos profetas e profetisas e foi vivido radicalmente por Jesus de Nazaré. Esta obediência é uma forma especial de agradecimento a Deus que nos oferece gratuitamente a salvação. Nós fomos resgatados, não através de “ouro e prata”, nem pelo poder do Império, nem por nossos méritos pessoais, mas pelo próprio sangue de Jesus.

4. UM LAR PARA QUEM
NÃO TEM CASA

O principal lugar de nossos encontros comunitários é a casa de família. No livro de Atos dos Apóstolos, também nas Cartas Paulinas, encontramos muitas passagens que falam destes encontros. A casa é o espaço sagrado onde exercitamos o amor fraterno, fazemos a memória de Jesus, celebramos o Batismo e partilhamos a Ceia. Muitas pessoas, entre nós, não possuem casa própria onde morar. Na condição de estrangeiros, peregrinos ou escravos levam uma vida de extrema necessidade. Como seguidores e seguidoras de Jesus nos propomos a acolher estas pessoas e nos organizar de tal modo que possamos garantir as mínimas condições de sobrevivência.

Dentro da cultura greco-romana, a casa é organizada de forma patriarcal e hierárquica. O relacionamento é baseado na subordinação dos membros considerados inferiores. Isso não poderia acontecer em nossas comunidades cristãs. O movimento de Jesus mostrou uma outra forma de relacionamento nas casas, a qual deve se estender para a sociedade: todas as pessoas devem ser bem-vindas! Todos os homens e mulheres devem fazer parte de uma sociedade igualitária. Portanto, entre nós, a acolhida e a hospitalidade fazem parte integrante de uma casa/comunidade cristã. E devem ser vividas sem murmurações, como uma forma de serviço mútuo que proporciona vida digna sem exclusões.

5. UM CAMINHO QUE
SE FAZ CAMINHANDO

Nós temos consciência de que não somos comunidades perfeitas. Sentimos dificuldades de viver a proposta de Jesus no meio desta sociedade baseada em valores antievangélicos.

Na carta, vocês encontram expressões difíceis de serem aceitas, como aquelas que orientam a submeter-se ao rei, aos patrões, aos maridos... Aqui é importante lembrar que vivemos num tempo em que o domínio do Império Romano é exercido de forma muito forte. Além disso, estamos num contexto cultural em que se admite naturalmente as discriminações e diferenças sociais entre escravos e livres, entre homens e mulheres, entre ricos e pobres...

A submissão dos mais fracos aos mais fortes era garantia de harmonia e paz sociais. O próprio Império se considerava eleito dos deuses, recebendo deles a missão de estabelecer a paz sobre toda a terra. Naquele momento histórico, nós agimos da forma mais adequada para não acirrar conflitos que impedissem a sobrevivência de nossas comunidades cristãs. Nós assumimos isto “por causa do Senhor”, isto é, de maneira consciente e responsável.

Vocês podem imaginar a dificuldade de uma mulher cristã, cujo marido não aceitava o modo de ver e de agir de acordo com o Evangelho de Jesus. Isto criava enormes dificuldades e afetava profundamente o relacionamento familiar... Imaginem também as pessoas escravas, participantes de nossas comunidades, possuidoras de uma nova consciência e cujos patrões não admitem outro modo de vida a não ser o adotado pela sociedade estabelecida...

É importante lembrar, porém, que ao seguirmos as leis e costumes impostos pelo império greco-romano não significa deixar-nos cooptar pelos seus interesses.

6. UM MOVIMENTO
APOCALÍPTICO

Nós nos deixamos conduzir pela certeza de que Deus é o Senhor da história. As dificuldades em que nos encontramos não vão impedir a realização do Plano de Deus, manifestado em Jesus de Nazaré. Por isso, agüentamos firmes todo tipo de contrariedades. Participamos de um movimento de resistência e de esperança militante.

As perseguições e sofrimentos das pessoas justas são sinais de que a manifestação de Jesus Cristo está acontecendo; são sinais da iminência do julgamento de Deus; representam o cadinho para testar a qualidade de nossa fé; nos vinculam à própria pessoa de Jesus Cristo, o Servo sofredor, que assumiu a missão de nos libertar de todo mal; através do sofrimento nos unimos a todas as pessoas que lutam pela causa da justiça e sofrem as conseqüências de sua opção... Assim, nos tornamos solidários e co-responsáveis pela construção de um mundo novo.

Irmãos e Irmãs! Levantamos aqui alguns pontos que podem orientar a releitura da Primeira Carta de Pedro. Cada grupo e também cada pessoa poderá levantar muitos outros. Poderá tomar os números anteriores ao jornal “Missão Jovem” e rever toda a trajetória que fizemos juntos.

O nosso objetivo é animar o trabalho de evangelização que vocês realizam com paciência e dedicação perseverante. Durante este ano saíram vários livrinhos referentes às Cartas de Pedro. São auxílios valiosos para o nosso cultivo pessoal e para a missão a que fomos chamados. Nos próximos dois encontros, vamos estudar a Segunda Carta de Pedro.

Celso Loraschi

PARA CONVERSAR

1.º O grupo poderá rever alguns pontos que chamaram a atenção no encontro de hoje.

2.º Quais as diferenças e semelhanças entre as comunidades de Pedro e as nossas?

3.º O que sustenta a nossa caminhada de catequistas e animadores de comunidades?

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