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DEUS E NÓS: UMA ALIANÇA
DE AMOR
Evangelista João escrevendo para os cristãos
e cristãos e cristãs de hoje
Caríssimos!
Estou escrevendo para vocês em pleno tempo de Campanha da Fraternidade
2000. Campanha ecumênica que busca superar toda exclusão.
Eis aí um objetivo que se aproxima muito ao do Evangelho de João.
A sua redação é resultado da Campanha da fraternidade
desenvolvida pelas comunidades joaninas. A encarnação de
Deus, na pessoa de Jesus, abre caminho de vida para todos através
da vivência do amor. Queremos continuar mostrando para vocês
como Jesus revelou este caminho do amor fraterno. Estamos na primeira
parte do Evangelho que chamamos de Livro dos sinais. Por favor,
antes de continuar, podem dar uma olhadinha no nosso encontro anterior.
Veja aí qual o esquema que escolhemos e em que ponto nós
paramos. Estamos desenvolvendo a ação de Jesus acompanhando
cada dia de uma semana simbólica.
Ela representa a caminhada de Jesus, desde a missão de João
Batista e o Batismo de Jesus, passando pela escolha dos primeiros discípulos
até o último dos sete sinais. Hoje vamos tomar
conhecimento do primeiro e as consequências que daí surgem
para a nossa vida comunitária.
Primeiro sinal: surge a nova humanidade (João 2, 1-12).
Nós concentramos os sete sinais, sendo realizados
por Jesus no sexto dia da semana. Ao iniciar o relato dizemos: no
terceiro dia, isto é, no terceiro dia após o episódio
anterior: o encontro de Jesus com Filipe e depois Natanael. Vai dar no
sexto dia. Com isto, estamos introduzindo a um sentido muito
especial. No Gênesis, o sexto dia, foi o momento em que Deus criou
o homem e a mulher. Também Jesus, através dos seus sinais,
indica o caminho da criação de uma nova humanidade.
Está acontecendo uma festa de casamento em Caná da Galiléia.
A própria palavra Caná significa adquirir.
A missão de Jesus é readquirir um novo povo que estava disperso,
abandonado e sem rumo. Jesus vai ser o pastor que reúne ao redor
de si todas as ovelhas, proporcionando-lhes abrigo, pão e carinho.
A festa de casamento representa a nova Aliança que
Deus vem estabelecer com o seu povo. Muitas vezes, na Primeira Aliança
(ou Antigo Testamento), Deus se dirigiu ao seu povo chamando-o de esposa.
Com Jesus - Deus feito gente - a humanidade torna-se esposa
definitiva de Deus. O amor entre Deus e nós não é
abstrato nem distante. O amor entre Deus e nós torna-se íntimo,
afetivo, concreto, vital, dinâmico, alegre...
Nesta festa está presente a mãe de Jesus. Ele a chama de
mulher. Na Bíblia não é costume um filho
chamar assim à sua mãe. Acontece que ela representa aí
todas a pessoas que aderem à Nova Aliança trazida por Jesus.
Ao dizer que faltou vinho, estamos nos referindo à Antiga Aliança.
O vinho, na Bíblia, é um dos principais elementos da vida
alegre. O vinho representa o amor festivo. É só ler o Cântico
dos Cânticos para perceber isto. O que está acontecendo então?
Na primeira Aliança faltou amor? Não é bem isso.

Deus, em todos os lugares e em todos os tempos, ama seu povo apaixonadamente.
Acontece, porém, que o sistema religioso mantém o amor de
Deus prisioneiro da Lei. Pela imposição do sistema de pureza,
impedia-se ao povo o acesso à vida em abundância.
A mãe de Jesus reconhece esta realidade quando se dirige a Jesus
em favor dos convidados: Eles não têm mais vinho.
A falta de vinho, porém, não é responsabilidade de
Jesus, nem das pessoas que o seguem: Que temos nós a ver
com isso? Mas ele acrescenta: Minha hora ainda não
chegou. A hora de Jesus, em nosso Evangelho é
o momento de sua morte quando vai se manifestar o seu amor sem limites.
Se Jesus é a manifestação do amor sem limites de
Deus, importa fazer tudo o que ele mandar.
Havia aí seis potes de pedra que serviam para os ritos de
purificação dos judeus. Percebemos alguns elementos
que indicam o legalismo frio e duro (de pedra) em que se baseava a instituição
judaica. Os seis potes lembram as festas judaicas que nós
citamos em nosso Evangelho: três páscoas (2, 13; 6, 4; 11,
55); uma festa sem nome (5, 1), a festa das tendas (7, 2) e a festa da
dedicação do Templo (10, 22). São festas que perderam
o sentido profundo para o povo.
O sentido verdadeiro foi roubado pelo poder religioso. Elas
se tornaram vazias. Já não significavam a memória
libertadora de Deus na história do povo. Nem eram ocasiões
de encontros de partilha, fraternidade e alegria. Tinham se tornado espaço
de exploração econômica e fortalecimento da ideologia
do poder religioso.
Jesus manda encher os potes de água. Ao ser servida transforma-se
em vinho. Em torno de 600 litros! É a abundância de vida
trazida pela presença de Jesus. Isto nos dava uma certeza: pertencer
à comunidade de seguidores e seguidoras de Jesus significava transformar
o sistema antigo que excluía multidões de pessoas e as relegava
à própria sorte. Agora, seguir a Jesus significa pertencer
à comunidade cujo grande objetivo é promover vida digna
para todos.
A Aliança de Amor entre
Deus e nós: conseqüências
Entre o primeiro e o segundo sinal, nós registramos algumas coisas
muito importantes. Jesus é aquele que vem unir definitivamente
a humanidade com Deus. Aceitar isto significa assumir algumas conseqüências:
1ª Conseqüência: romper com
o sistema do templo (2, 13-25).
Jesus vai participar da festa judaica, na cidade de Jerusalém.
No nosso Evangelho mencionamos três festas da Páscoa. Esta
festa era a mais importante do povo judeu, pois recordava a ação
de libertação de Deus da escravidão do Egito. Celebrar
esta festa era comprometer-se no
processo de libertação do povo sofrido. Jesus foi lá
e percebeu que as lideranças religiosas escondiam o verdadeiro sentido.
O que ele encontra no Templo é uma religião transformada em
comércio. Beneficia os que se acham com o poder de direcionar e submeter
a vida e a consciência dos pobres. Aí estão os vendedores
de animais e os cambistas que se enriquecem à custa da multidão
que devia ir a Jerusalém oferecer animais e produtos da terra, frutos
do suor e sangue de muitas mulheres e homens. Era um imposto obrigatório.
Os pobres deviam comprar, pelo menos, um casal de pombas, para oferecê-lo
em sacrifício. Os preços aumentavam sem controle. E tudo manipulado
em nome da religião.
Jesus fica furioso. Expulsa aqueles negociantes e explica o
motivo: transformaram a casa do meu Pai num mercado. Diante
da reação dos dirigentes que querem saber de onde vem a autoridade
de Jesus, ele responde com energia: Destruam esse Templo, e em três
dias eu o levantarei.
O Templo a que Jesus se refere é o seu próprio corpo que será
perseguido e morto por aqueles mesmos chefes religiosos. Mas ressuscitará
no terceiro dia. O novo Templo que é Jesus e suas comunidades não
poderá mais ser destruído.
Nós que redigimos este Evangelho no final do primeiro século
e cujo Templo de pedra já havia sido destruído (pelo ano 70),
lembramos esta atitude de Jesus como compromisso de construir o verdadeiro
Templo. Isto é: nossas comunidades devem ser espaços sagrados
onde se respeita a Deus través da justiça e do amor.
2ª Conseqüência: nascer
de novo (3, 1-21).
Nicodemos é fariseu. Ele faz parte do Sinédrio. Cumpre
a Lei ao pé da letra. Pensa que, com isso, tem a salvação
garantida. É um homem que busca em Jesus uma defesa para o seu
modo de pensar e viver. Jesus propõe algo totalmente novo! Tão
novo que Nicodemos tem muita dificuldade de estender e aceitar: Eu
garanto a você: se alguém não nasce do alto, não
poderá ver o Reino de Deus. Nicodemos pensa que Jesus esteja
pedindo um novo nascimento no sentido físico. Algo absurdo.
Na verdade, ele está cego pelo sistema da Lei. E está
velho como a própria instituição que
ele representa. É conveniente, para ele, não entender o
que Jesus quer dizer... Ele era mestre em Jerusalém
e não sabia (nem queria) nascer de novo.
Muitos membros de nossas comunidades cristãs preferem a cegueira
de normas externas do que adesão livre ao Projeto de Jesus. Como
dizia o irmão Paulo: preferem seguir a letra que mata ao invés
de aderir ao Espírito que vivifica.
3ª Conseqüência:
optar por Jesus (3, 22-26).
No meio de nós ainda paira dúvida a respeito de quem é
o verdadeiro Messias: João Batista ou Jesus? Desde o início
nós mostramos o grande profeta João Batista apontando para
Jesus. Ele diz claramente: Eu não sou o Messias....
Considera-se o amigo do esposo e se alegra imensamente com
isso. E tem consciência de sua missão: É preciso
que ele cresça e eu diminua. É
um recado para as lideranças também do nosso tempo.
4ª Conseqüência: adorar a Deus em espírito e verdade
(4, 1-45).
Muitas pessoas participantes de nossas comunidades cristãs eram
de origem samaritana. Os samaritanos, por causa de sua raça mista,
eram considerados impuros. Jesus atravessa a Samaria com seus discípulos
e senta junto a um poço. O poço, na Bíblia, é
garantia de vida. Dele jorra água. Desde o Antigo Testamento, o
poço é um

lugar de encontros, de conversas e partilha da vida. Isaac se apaixonou
por Rebeca junto a um poço. O mesmo aconteceu com Jacó e
Raquel. Também com Moisés e Séfora... Junto ao poço
está Jesus com a Samaritana: encontro de amor e acolhida do outro
com sua história, suas tradições, seus costumes.
Deste diálogo nascem novas compreemssões e novas relações.
Os diferentes se completam. Quebram-se os preconceitos e as discriminações
de raça (judeus julgavam-se superiores aos samaritanos) e de sexo
(um homem não podia conversar publicamente com uma mulher desconhecida).
A água do poço não consegue saciar plena mente a
sede das pessoas. Tem-se que voltar sempre a ele. Jesus, porém,
é água que sacia totalmente. Onde se vive sua proposta,
vive-se à saciedade.
A história da samaritana é a história do povo. Os
seus cinco maridos lembram os deuses estrangeiros pelos quais
deixaram-se arrastar outrora (cf. 2 Reis, 17,24-32). Mesmo o marido
atual não é dela, isto é, a concepção
que o povo tem de Deus não é a verdadeira. É fruto
da ideologia religiosa dominante.
Imaginava-se que para adorar a Deus devia-se ir aos Templos: ou o de Jerusalém
(para os judeus) ou o de Garizim (para os samaritanos). A novidade de
Jesus, porém ultrapassa as fronteiras geográficas. A questão
agora não é mais onde adorar a Deus e sim como adorar a
Deus: em espírito e em verdade.
Um grande abraço e até o próximo encontro.
Pe. Celso Loraschi
Para conversar
- Vamos reler como aconteceu o primeiro sinal e o que ele
significa para nós, hoje?
- Deus e nós formamos uma Aliança de Amor: que consequência
isso tem para a nossa vida?
- Vamos conversar sobre outros pontos que nos chamaram a atenção...
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