Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Evangelho de João

Ele habita entre nós

O Evangelista João escrevendo para os cristãos e cristãs de hoje (2ª parte)

Caríssimos!
No número anterior do “Missão Jovem” apresentei para vocês o objetivo principal do Evangelho de João: construir comunidades de amor. Acreditamos firmemente que é possível vencer as barreiras que impedem a prática da fraternidade. Em nossas comunidades joaninas faziam parte pessoas provenientes de diversas raças e culturas: judeus, gregos, romanos... Tivemos muitas dificuldades para nos entender, pois cada cultura traz sua história, seus costumes e tradições. Como fazer para vivermos como irmãos e irmãs? Nossa experiência mostra que isto é possível, se levarmos a sério a pessoa e o projeto de Jesus Cristo.

O Plano do Evangelho de João

Nós já vimos que a redação final deste Evangelho se deu por volta do ano 100. É o resultado de mais de 50 anos de caminhada.

Foi praticado, celebrado, corrigido, aumentado... Decidimos elaborar um plano que viesse fortalecer nosso projeto de comunidades de amor e vida. São memórias e reflexões a partir de nossa vivência.

Fundamentalmente, o Evangelho de João está assim esquematizado: Prólogo (1, 1-18)

Primeira Parte: O “livro dos sinais” que revelam a prática de Jesus em defesa da Vida (1, 19-12,50)

Segunda Parte: o “livro do grande sinal” : o testamento de Jesus, paixão, morte e ressurreição (13, 1-20, 31).
Epílogo (21, 1-25).

Vamos entrar no Evangelho. É bom acompanhar com a Bíblia na mão.

Prólogo (1, 1-18): A Palavra se faz carne, o sonho se torna realidade!

Desde o prólogo nós procuramos fundamentar nosso modo de ser comunidade, buscando as raízes de nossa fé. São crenças e valores que vão iluminar e orientar toda a nossa vida. Aliás, toda comunidade que quer se manter unida ao redor de um Projeto de Vida digna, busca guardar na memória tudo o que foi conquistado pelos Pais e Mães na fé.

É o que expressa o próprio lema do 10º Encontro Intereclesial de Comunidades de Base a ser realizado em Ilhéus, no mês de julho deste ano: Memória, Caminhada, Sonho e Compromisso. É isso mesmo que nós queríamos: manter vivo o sonho de Jesus e nos comprometer a vivê-lo em nossas comunidades.

Iniciamos com um hino a Jesus, a Palavra que se fez carne.

“Palavra”, na Bíblia, não é algo teórico, é acontecimento que faz história, é a própria ação salvadora de Deus. Ao confessarmos que Jesus é o Verbo ou a Palavra que se fez carne, estávamos superando a idéia errada, que se infiltrava em nosso meio, nascida de filosofias gregas, sobretudo do gnosticismo. Esta filosofia dizia que a gente só chega a Deus através de um conhecimento especial.

É pelo “mundo das idéias” que se chega à verdade divina. Um grupo dizia que Jesus não podia ser Deus feito pessoa, pois Deus possui uma natureza que é impossível de se encarnar. Dizia que o corpo de Jesus, filho de Deus, era apenas “aparência” de gente... Isto levava, pouco a pouco, a negar a fé na encarnação de Jesus.

Uma nova criação

Nós sabíamos, porém, que a verdade era outra. A Palavra de Deus que existia desde o princípio do mundo, agora se faz realidade concreta na pessoa de Jesus de Nazaré. Em toda a história, desde o início, a Palavra de Deus está viva e atuante no universo. De fato, de acordo com Gênesis, à medida que Deus fala, as coisas vão acontecendo. Quando Deus diz:

“Faça-se a luz”, a luz começa a existir. “Haja um firmamento...” E assim se faz. Agora, em Jesus, esta Palavra-Ação de Deus se torna presente de maneira muito especial. Em Jesus - Deus feito carne - se dá uma nova criação.

A Palavra de Deus, portanto, é capaz de comunicar vida nova. Isto nos leva a tomar uma posição frente a este jeito de Deus agir no meio de nós. Sua Palavra criadora torna-se presente numa pessoa fraca e mortal, que pode ser ouvida, vista e tocada.

A Palavra de Deus se fez carne e fez sua tenda no meio de nós. Sim, Jesus é a Palavra criadora de novas relações. É o que nós experimentamos na vida comunitária.

No meio de luz e trevas

Isto, porém, se dá no meio de conflitos que nós chamamos de “luz e trevas”. As trevas são os que não acolhem a Palavra-Jesus e têm uma prática que impede a vida em abundância para todos. Estes pertencem ao mundo, são “de baixo”. A luz são as pessoas que acolhem a Palavra-Jesus e apostam sua vida em favor da justiça e da fraternidade. Estas pertencem a Deus, são “do alto”.

O tempo é de opção frente ao que é de Deus, do Alto, ou ao que é do mundo, de baixo. De um lado - no alto - estão a verdade, o bem, a luz, a vida: o Espírito. De outro lado - em baixo - ficam a mentira, o pecado, as trevas, a morte: o príncipe deste mundo.

Seguir a Palavra que se fez carne não significa fugir do mundo, mas rejeitar o egoísmo que atrai a morte. Significa aderir a um modo comunitário e fraterno de viver. Para preparar este modo de vida foi-nos enviado João Batista.

No meio de nós havia várias pessoas que haviam seguido João Batista. Algumas delas achavam que era ele o Messias-Salvador e não Jesus. Esta confusão não podia continuar.

João Batista foi muito importante e cumpriu uma missão muito especial que Deus lhe dera. Mas, nós deixamos bem claro que ele não era a Luz e sim, veio para testemunhar a Luz verdadeira que é Jesus Cristo, o Salvador.

Acolher o jeito de ser de Deus

A Salvação não mais se dá pelo cumprimento legalista da Lei de Moisés, mas pela graça trazida por Jesus Cristo, filho de Deus, que nos dá a conhecer o próprio rosto de Deus-Pai.

Deste modo, procuramos expressar no prólogo do Evangelho o verdadeiro caminho da vida. Ele não está nas filosofias dominantes provindas do mundo grego; não está no seguir ao pé da letra a Lei de Moisés, como pregavam os mestres dos judaísmo; não está no fato de ser discípulo de João Batista...

O Caminho da Vida se revela pela Fé na encarnação de Deus em Jesus de Nazaré. Esta fé nos leva a agir de modo coerente com a prática de amor, como o próprio Jesus nos mostrou. É o que iremos aprofundar na 1ª parte do evangelho que é o “livro dos sinais”.

Primeira Parte: O livro dos Sinais (1, 19-12,50)

Nós elaboramos esta parte chamada de “Livro dos Sinais”, descrevendo a ação de Jesus dentro de uma semana simbólica que tem seu ponto alto no sexto dia quanto começa a acontecer uma série de sete sinais. O primeiro será por ocasião de um casamento em Caná da Galiléia.

No primeiro dia da semana (1, 19-28) temos o testemunho de João Batista. Quando o pessoal do Sinédrio, que é o centro de comando da elite do Templo de Jerusalém, envia investigadores para saber quem é João, ele logo vai explicando que não é o Messias, nem Elias, nem um dos antigos profetas. Em outras palavras, ele não é reformista. Não veio para agradar ou satisfazer as expectativas dos sacerdotes, levitas e fariseus. Ele se define como anunciou o profeta Isaías: “uma voz gritando no deserto...”.

O deserto faz lembrar a caminhada do povo de Deus rumo à terra da liberdade e da vida. Portanto, João é alguém que prepara o povo para a libertação que irá acontecer com Jesus. Para isso, batiza com água. Os caminhos estão tortos por causa do egoísmo, da ganância e da justiça dos que detém o poder religioso e político. É preciso endireitar os caminhos. É preciso conversão!

No segundo dia de semana (1, 29-34), vemos o próprio Jesus que se deixa batizar porJoão Batista. Ele se faz um com todos. Como simples mortal procura o batismo como sinal de adesão à missão que o Pai lhe dá. Esta missão é expressa nas próprias palavra de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.

Estes termos revelam o nosso entendimento a respeito da pessoa e da missão de Jesus. Quando falamos em “Cordeiro de Deus”, recordamos a Páscoa da libertação. Foi o momento significativo que indicou a passagem da escravidão do Egito para a liberdade da Terra Prometida.

Quando falamos em “pecado do mundo” é a adesão ao sistema social que gera exclusão e morte; é a opção pelo projeto dos dominantes tentando acabar com o projeto criador e libertador de Deus; é a estrutura social injusta que o Templo e o Império querem manter à custa do suor e sangue de uma multidão de gente; é a situação dos que pertencem ao que é daqui “de baixo” e se fecham ao amor gratuito de Deus.

Jesus é aquele que vem libertar as pessoas deste sistema de “pecado do mundo”. Sobre ele pousa o Espírito Santo para demonstrar que ele é o escolhido, o Messias, o ungido. Tudo o que Jesus vai fazer será sob a ação do Espírito. Depois de cumprir sua obra é condenado na cruz, Jesus inclina sua cabeça e “entrega o espírito”.

No dia da ressurreição ele irá comunicar este mesmo Espírito a toda gente. Agora somos nós estas pessoas portadoras do mesmo Espírito que conduziu Jesus. Com este mesmo Espírito temos a consciência de continuar a mesma obra de Jesus.

No terceiro dia (1, 35-42) relatamos a escolha dos primeiros discípulos. São dois discípulos de João Batista que, vendo a Jesus e ouvindo o que João diz dele, decidem seguí-lo. Um desses discípulos sou eu. Também me chamo João. Juntamente com a minha comunidade escrevemos este Evangelho que agora estamos recordando. O outro discípulo é André. Nós seguimos a Jesus e convidamos outros a fazer o mesmo. Assim vai crescendo o grupo.

No quarto dia (1, 43-51), mais gente resolve seguir a Jesus. Agora estão aí André, Simão Pedro, Filipe, Natanael e eu, que gosto de me identificar como o “discípulo amado”.

O início dos sete sinais que Jesus realizou vai acontecer três dias depois do encontro com Filipe, isto é, no sexto dia da semana. Isto é assunto para o próximo encontro. Até lá!

Pe. Celso Loraschi

Para conversar

1. O que significa para nós a frase: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós”?

2. No tempo das comunidades joaninas existiam filosofias que negavam a encarnação de Deus. Que “filosofias” existem hoje que distorcem a verdade a respeito da pessoa e da prática de Jesus?

3. O que podemos ressaltar a respeito da missão de João Batista? E da atitude dos primeiros discípulos?

4. Que outros pontos nos chamaram a atenção neste encontro de hoje?

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