Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Evangelho de Lucas

Irmãos e irmãs muito amados!

Neste ano de 2002 continuamos aprofundando o livro de Atos dos Apóstolos. Esta é a proposta da Igreja Católica no Brasil, conforme o Projeto: Ser Igreja no Novo Milênio.

No ano de 2001, nesta página de “Missão Jovem”, conhecemos a caminhada das primeiras comunidades cristãs, empenhadas na missão de difundir a Boa Notícia de Jesus, desde Jerusalém até os confins do mundo.

Vimos que uma “multidão de homens e mulheres” se colocaram a serviço da Palavra, empenhando sua vida por causa de sua fé em Jesus e pelo amor aos irmãos e irmãs. Vemos aí a mãe de Jesus com algumas mulheres, junto com os Onze.

Ao longo do livro dos Atos dos Apóstolos, veremos muita gente, de todas as raças e línguas, entrando no mutirão do Reino de Deus, transformando assim a Boa Notícia de Jesus em Boa Realidade. É gente como nós, empurrada pelo Espírito Santo, para fazer deste mundo a casa de todos.

Queremos conhecer melhor e dialogar com estas pessoas. Seu testemunho nos fortalecerá na missão que Deus nos confiou para o nosso tempo. Este vai ser o objetivo de nossos encontros, durante todo este ano de 2002.

No início do livro de Atos dos Apóstolos, nós vemos Jesus ressuscitado pedindo às pessoas que estão com ele para não se afastarem de Jerusalém e esperarem a promessa do Pai.

Ele diz:
“O Espírito Santo descerá sobre vocês, e dele receberão força para serem minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os extremos da terra”.

Os discípulos e as discípulas obedeceram ao pedido de Jesus. “Entraram na cidade e subiram para a sala de cima onde costumavam hospedar-se”. Provavelmente foi esta a sala onde Jesus celebrou a ceia pascal. É o espaço da recordação, da oração, do diálogo e da vivência da fraternidade, conforme o ensinamento e prática de Jesus. “Aí estavam Pedro e João, Tiago e André, Filipe e Tomé, Bartolomeu e Mateus, Tiago, Filho de Alfeu, Simão Zelota e Judas, filho de Tiago. Todos eles tinham os mesmos sentimentos e eram assíduos na oração, junto com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele”. Um grupo de 120 pessoas.

Nesta ocasião, escolhe-se Matias para ocupar o cargo de Judas Iscariotes que havia traído Jesus. Os números 12 e 120 revelam o “novo Povo de Deus” que surge pela fé em Jesus Cristo morto e ressuscitado. São todas as mulheres e homens que aderem ao seguimento de Jesus.

É o desdobramento da fé do povo de Israel que se organizou em 12 tribos quando se libertou da escravidão do Egito e conquistou a terra prometida. Aí constituiu-se uma sociedade de economia partilhada, de política participativa e de uma religião de fidelidade ao Deus da Aliança que garante vida digna para todas as pessoas.

Ao constituir os doze, Jesus conserva a verdadeira tradição do povo de Israel. Assim, fica deslegitimada toda organização que se baseia na centralização do poder e dos bens e na manipulação religiosa segundo os interesses de grupos.

Não pode ser, como queriam os discípulos preocupados com o “reino de Israel”, achando que Jesus ressuscitado iria agora restabelecer, para dominar sobre as outras nações (cf. At 1,6).

Como é difícil entender e acolher a proposta de Jesus!

Como é difícil superar nossos egoísmos, nossas visões distorcidas, nossos interesses pessoais e corporativistas!

Sem o Espírito Santo perpetua-se um jeito de ser que não corresponde ao plano de amor de Deus que quer abraçar a todos os seus filhos e filhas, oferecendo-lhe proteção e salvação, sem exclusão de ninguém.

Estas “algumas mulheres” que aí estão, provavelmente são as mesmas que acompanharam Jesus em suas caminhadas anunciando a “Boa Notícia do Reino de Deus”.

Elas são citadas no evangelho de Lucas:
“Os Doze iam com Jesus e também algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos maus e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual haviam saído sete demônios; Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres...” (Lc 8,1-3).

Estas mesmas mulheres, “que acompanharam Jesus desde a Galiléia”, testemunham sua morte (Lc 23,49), vêem onde Jesus é enterrado, preparam perfumes e bálsamo (Lc 23,55) e, “no primeiro dia da semana, bem de madrugada, foram ao túmulo de Jesus... e são as primeiras a testemunhar a ressurreição do Senhor Jesus e a anunciar aos Onze a Boa Notícia” (Lc 24,1-11).

São mulheres que, no caminho do seguimento de Jesus, libertam-se das amarras impostas pelo sistema da religião judaica e tornam-se catequistas e animadoras de comunidades a serviço do Evangelho.

Maria, na obra de Lucas, capítulos 1 e 2, é a pessoa através da qual Deus revela seu rosto pela encarnação de Jesus. Deus não vem ao mundo pelos caminhos da oficialidade. Ele vem através de uma camponesa marginalizada que não se conforma com a prepotência dos grandes, pois tem a certeza de que Deus “age com a força de seu braço, dispersa os homens de coração orgulhoso, derruba do trono os poderosos e eleva os humildes...” (Lc 1, 51-52).

São as pessoas como Maria que se tornam portadoras da Boa Nova da Salvação. Por isso, em Atos dos Apóstolos, ela é citada junto com os demais homens e mulheres, dispostos a acolher o Espírito de Deus e gerar a Novidade de Jesus-Salvador para o mundo.

Em Lucas 8,19-21 encontramos a referência aos “irmãos de Jesus” que, juntamente com a sua mãe, o procuram e não conseguem chegar até onde ele está por causa da multidão. É neste momento que Jesus amplia as relações familiares para todas as pessoas “que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática”.

Após a morte e ressurreição de Jesus, certamente vários membros da família de Jesus passam a pertencer à comunidade cristã. Porém, muitas vezes o termo “irmãos”, no livro de Atos dos Apóstolos, refere-se às pessoas que vivem a mesma fé em Jesus.

O novo povo de Deus, constituído pelos seguidores de Jesus, deve continuar a missão dele, através do serviço mútuo, da partilha e do amor sem limites. Como foi o Mestre deverão ser os discípulos.

Se o Mestre e Senhor viveu no despojamento e na liberdade frente aos bens materiais e ensinou a administrar todas as coisas em vista da vida das pessoas, então os discípulos deverão seguir este mesmo caminho.

Se o Mestre e Senhor se colocou a serviço das pessoas marginalizadas, devolvendo-lhe o direito ao perdão, à saúde, à amizade, à casa..., então os discípulos deverão também colocar-se na mesma atitude de servos desta mesma causa.

Se o Mestre e Senhor se posicionou fortemente contra a instituição do poder religioso (o Templo), porque era excludente e oprimia os pobres, os discípulos devem se organizar comunitariamente, na igualdade, na justiça e na fraternidade.

Se o Mestre e Senhor exaltou o modelo de vida das crianças contrapondo-se à ambição dos apóstolos que discutiam a respeito de quem seria o maior, então os discípulos devem abraçar a causa de Jesus como as crianças...

A prática de Jesus, conforme nos relata o Evangelho, não pode ser esquecida. Precisa ser refletida, aprofundada, celebrada e atualizada constantemente. Este é o sentido dos encontros comunitários, como este dos apóstolos, das mulheres e dos irmãos de Jesus.

Pelo que vimos, este grupo de mulheres e homens, reunidos em Jerusalém, é o primeiro modelo da comunidade cristã. É a continuação da verdadeira tradição de nossos pais e mães na fé. O povo de Deus da Primeira Aliança, organizado em 12 tribos, agora é constituído por todas as pessoas que seguem o caminho de Jesus.

O Espírito Santo garante uma vida de fidelidade a este Caminho que deverá atingir os confins do mundo, com a participação vibrante de muita gente.

Pe. Celso Loraschi
Prof. de Sagrada Escritura - ITESC

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