Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Evangelho de Lucas

Irmãos e irmãs muito amados!
O livro de Atos dos Apóstolos mostra a caminhada de gente disposta a levar a sério um novo jeito de viver, conforme revelou Jesus de Nazaré. No encontro anterior, vimos as mulheres e os Doze numa atitude de vigilância e disposição para acolher o Espírito Santo e, assim, poder testemunhar pelo mundo afora, a fé em Jesus Cristo. Ela se revela num jeito novo de viver em comunidade.

Muitas outras pessoas vão entrando neste Caminho do Testemunho. Uma delas é José Barnabé. Ele aparece em Atos 4,36. Aí se diz que ele era levita nascido em Chipre.

Os levitas, na tradição de Israel, eram pessoas que desempenhavam funções ligadas aos santuários: administradores, zeladores, músicos/cantores, catequistas, juízes, animadores de culto... Eles andavam de casa em casa para manter viva a memória do Êxodo: intervenção de Deus em favor do povo excluído e, assim, manter as famílias na fidelidade ao Projeto de Justiça e Igualdade.

Sobretudo no livro de Deuteronômio, percebemos o grande trabalho realizado pelos levitas itinerantes no sentido de conservar o povo longe das armadilhas do poder monárquico. Eles ajudavam as pessoas a viver como “Povo de Irmãos”.

O grupo dos levitas foi o único que se manteve fiel ao lado de Moisés e não se deixou corromper pelo “bezerro de ouro” (Ex 32). Normalmente não possuíam propriedade e, assim, podiam, com maior liberdade, exercer a missão que lhes fora confiada junto ao povo. Eles viviam da partilha oferecida pelas outras famílias.

Barnabé é um levita que possui um terreno. Não sabemos se em Jerusalém ou em Chipre. Certamente não é o terreno onde está a sua casa. O fato é que ele entende perfeitamente o que significa seguir a Jesus Cristo: não pode haver acúmulo. Como levita, Barnabé sabe perfeitamente que todos os bens provêm de Deus e devem ser administrados para o bem de todas as pessoas.

João Paulo II diz que “sobre toda propriedade pesa uma hipoteca social”. Portanto, o que possuímos além do necessário para uma vida simples e digna, deve ser partilhado com muito amor.

Barnabé, cujo nome significa “filho da consolação”, ou também “filho da profecia”, ao perceber o novo jeito de viver da comunidade cristã, vende o seu terreno e coloca o valor aos pés dos Apóstolos.
“Pôr aos pés” significa entregar os bens para que sejam administrados segundo os princípios do Evangelho de Jesus. Assim torna-se possível o modelo de sociedade onde nenhuma pessoa fica excluída ou necessitada dos mínimos recursos para a vida.

Diferente foi a atitude de Ananias e Safira (At 5,1-11). Eles são um contra-exemplo. Desejam entrar no novo caminho de fraternidade, mas não conseguem desvencilhar-se das “seguranças” do dinheiro. Estão dominados pela lógica do poder econômico. Não conseguem realizar o êxodo para a liberdade do amor a Deus e aos irmãos e irmãs. Sabem o caminho, mas não entram nele por inteiro, mentindo como fazem todas as pessoas que exploram seus semelhantes.

A história de Ananias e Safira, conforme nos conta Atos dos Apóstolos, é uma narrativa popular a partir de algum acontecimento que prejudicou gravemente a comunidade. É contado de forma dramática para que todos prestem muita atenção a fim de que nunca mais voltem a acontecer coisas semelhantes, ligadas ao dinheiro e à mentira. Aliás, a corrupção quase sempre entra por motivos de dinheiro. Daí nascem as manobras ocultas, as desconfianças, as suspeitas, as divisões, ressentimentos, separações e guerras.

Satanás tomou conta do coração de Ananias e Safira, assim como agiu na traição de Judas. Por isso eles têm que morrer. Eles representam um caminho de corrupção do projeto de Jesus.

A narrativa diz que, logo após a morte de Ananias, são os jovens que levam o corpo. Não há velório. O enterro tem que ser imediato. Acontece a mesma coisa com Safira. Os jovens logo a enterram junto com seu marido. E tudo se faz em silêncio. É uma questão de prática concreta e não de palavras.

Os jovens que levam os corpos para a sepultura podem lembrar os grupos de moços que existiam no mundo grego e eram encarregados de serviços públicos. Podemos também imaginar que eles representam o novo modo de ser e de agir dos seguidores e seguidoras de Jesus.

O novo caminho não pode ser enxertado dentro do velho sistema de poder econômico, político e religioso. Este deve ser enterrado, pois atrapalha a vida de fraternidade.

Barnabé e os jovens antecipam o futuro. Não ficam esperando o amanhã de forma passiva. A nova sociedade acontece agora, através de atitudes concretas e corajosas. Como?

1.ª) Rompendo com a mentalidade dos dominantes: não seguir a lógica de defesa dos interesses individualistas ou corporativistas;

2.ª) Inserindo-se numa comunidade concreta. Não adianta ter boas intenções e não participar ativamente. É preciso unir-se aos irmãos e irmãs, em vista de objetivos e metas que garantam a vida de todos;

3.ª) Partilhando a vida e os bens e “colocá-los aos pés” da causa da justiça e da fraternidade;

4.ª) Administrando tudo de forma transparente e honesta, para que todas as pessoas tenham vida e ninguém passe necessidades;

5.ª) Denunciando veementemente a corrupção e a violação dos direitos da pessoa humana. O velho sistema de mentira e exploração deve ser “enterrado” para dar lugar a novas relações sociais.

Poderíamos ir acrescentado diversos outros pontos que podem ser extraídos das atitudes exemplares de Barnabé e dos jovens. Eles foram co-responsáveis em manter viva a prática de Jesus. Foi muito forte esta experiência na vida desta gente.

Assim, vemos Barnabé não apenas partilhando o valor do seu terreno com a comunidade, mas entregando-se por inteiro à causa da Boa Notícia de Jesus.

É ele quem recebe Saulo em Jerusalém, quando todos tinham medo, e o apresenta aos demais apóstolos
(At 9,26ss).

Ele defende Saulo e se torna seu amigo e companheiro. Trabalharam juntos em Antioquia da Síria e animam, com muito fervor, o trabalho da comunidade; juntos também levam uma coleta para ajudar os irmãos que se encontram em carestia em Jerusalém (11, 19-30).

Barnabé, na Igreja de Antioquia, é acolhido e amado como profeta e pregador. É escolhido junto com Saulo para a primeira viagem missionária. João Marcos também faz parte desta equipe, mas desiste na metade do caminho (13,1ss).

Durante a viagem acontecem coisas maravilhosas e também vários conflitos. Passam por várias cidades. Numa delas, Listra, são aclamados deuses – Barnabé como Júpiter e Saulo como Hermes – e depois são expulsos da cidade a pedradas. Apesar de tudo o que sofrem, continuam pregando e fortalecendo o ânimo das comunidades, exortando a todos “a perseverarem na fé”. Em cada lugar deixam pessoas, chamadas de anciãos, encarregadas de animar a comunidade.

Ao voltar desta viagem, Barnabé e Paulo enfrentam problemas com um grupo de judeus. Participam da Assembléia de Jerusalém onde contam tudo a respeito dos sinais e prodígios acontecidos durante a viagem:
Deus oferece a salvação a todas as pessoas do mundo inteiro (Cf At 15,1ss).

Barnabé e Paulo voltam para Antioquia e exercem a missão de animadores e catequistas na comunidade, “anunciando a Boa Notícia da Palavra do Senhor”. Ao organizar-se para a segunda viagem missionária, Barnabé se desentende com Paulo que não quer levar João Marcos. Separam-se. Barnabé e João Marcos tomam outro caminho (15,35-41). Não sabemos o que aconteceu nesta viagem. Certamente continuaram os sinais e prodígios de Deus por onde passaram estes missionários.

Barnabé é lembrado ainda na primeira carta aos Coríntios (9,6), onde recebe um elogio de Paulo. Na carta aos Colossenses (4,10), ele é citado junto com seu primo João Marcos e outros. Certamente as desavenças com Paulo foram sendo dirimidas.

Entrar no caminho de Jesus é dispor-se a conviver com os conflitos. Eles abrem novas possibilidades. Eles nos lembram a nossa condição de pessoas limitadas, necessita-das umas das outras e, portanto, abertas para a novidade sempre dinâmica e criativa que o Evangelho de Jesus nos propõe.

Celso Loraschi

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