Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Catequese "MISSÃO JOVEM"

Bíblia - Evangelho de Lucas

Modelo de Comunidade para um mundo Novo
O missionário Lucas conversando a respeito do livro dos Atos dos Apóstolos (4.º parte)

Irmãos e irmãs de caminhada!
Continuemos nossa reflexão sobre os Atos dos Apóstolos. Em nosso segundo encontro já entramos na primeira parte que fala do testemunho de Jesus Cristo vivido pelas nossas Comunidades em Jerusalém. Começa aí toda uma caminhada de anúncio de vida nova para todos os povos. Esta primeira parte abrange os capítulos de 2 a 5 e é constituída de três momentos:

1) Pentecostes e início da missão;
2) milagres, palavras e perseguições;
3) a vida em Comunidade.

As duas primeiras foram aprofundadas em nosso encontro anterior.
Hoje conheceremos a terceira parte.

A VIDA EM COMUNIDADE (2,42-47; 4,32 e 5,42)

O jeito cristão de viver é participar na Comunidade. No livro de Atos dos Apóstolos nós colocamos, por três vezes, o retrato ideal da verdadeira Comunidade (2,42-47; 4,32-36 e 5,12-16). Queremos mostrar que é possível uma Comunidade justa e fraterna, como fazem muitos de vocês que apostam e lutam na organização das CEBs.

Princípios Orientativos:

Para organizar e manter esta Comunidade ideal, nós levantamos alguns princípios:

1.º) PERSEVERAR NO ENSINAMENTO DOS APOSTOLOS

Isto é, não desviar-se da verdadeira proposta de Jesus revelada por suas palavras e ações, conforme nos transmitiram aquelas pessoas que foram testemunhas oculares de Jesus de Nazaré. Esta era a preocupação central da catequese que nós chamávamos de “didaquê”, que significa “instrução”. Em nosso tempo já havia muita gente querendo interpretar as palavras e gestos de Jesus com interesses egoístas e não para a defesa da vida justa e fraterna das Comunidades. Um ensinamento que não leva à prática da justiça e do amor, não pode ser interpretação correta da Palavra de Deus.

2.º) PERSEVERAR NA COMUNHÃO FRATERNA

Não basta aprender a “instrução” dos apóstolos e apóstolas, é preciso entrar numa prática nova de vida. Esta prática nós a chamamos de “Koinonia”, palavra grega que significa “comunhão de vida”: é a união dos cristãos e cristãs ao redor da mesma fé e da mesma prática de vida, onde cada mulher, homem, criança, jovem ou pessoa idosa se sente acolhida e amada. As relações não devem excluir ninguém.

Vemos que a “comunhão de vida”, com base na proposta de Jesus, tem:

  • um aspecto social que se fundamenta na igualdade fundamental que nos une: somos seres necessitados das condições básicas para uma vida digna.
  • um aspecto político: todas as pessoas têm o direito de participar com alegria e liberdade, das decisões e dos serviços em favor da comunidade.
  • um aspecto econômico: como Jesus nos ensinou, adotamos a prática da partilha dos bens, conforme a necessidade de cada pessoa. Muitos de nós chegam a colocar tudo o que possuem para o bem da comunidade.

Isto tudo está fundamentado no aspecto teológico: somos todos filhos e filhas de Deus que nos criou à sua imagem e semelhança e tudo criou para que possamos administrá-las em favor da vida para todos.

Para melhor entender tudo isso, colocamos o exemplo positivo de José, também chamado de Barnabé. Ele representa todas as pessoas que fazem uma profunda opção em sua vida: seguir o caminho de Jesus, com sinceridade e sem reservas. E Barnabé se tornará uma liderança especial para a animação das primeiras Comunidades cristãs espalhadas pelo mundo.

Colocamos também um exemplo negativo do casal Ananias e Safira que, em comum acordo, resolvem reter uma parte dos bens e mentir para a Comunidade. Esta mentira atrai a morte. Não é a “morte física” que estamos nos referindo, mas estamos salientamos que a entrada numa Comunidade de seguidores de Jesus deve ser feita em total liberdade, na consciência de que existem exigências radicais. Uma delas é a partilha dos bens. Se não fizermos isto com transparência, vai estragar o ideal de “comunhão de vida” entre nós. Melhor, então, é que pessoas como Ananias e Safira sejam retiradas (daí o sentido da morte) da Comunidade.

Quando escrevemos esta estória, estamos lembrando de um episódio contado no livro de Josué, capítulo 7. Lá, um sujeito chamado Acã, reteve alguns bens para proveito próprio, mentindo para Josué e a Comunidade de Israel. Esta atitude prejudicou o povo e atraiu a morte sobre Acã. Assim, ninguém iria esquecer que, para ter uma sociedade justa e igualitária, é preciso evitar o egoísmo e a ganância.

Ainda hoje há pessoas que se sentem atraídas pelo novo modelo de vida, mas ficam presas a interesses próprios. Há “cristãos” que se fingem de “gente muito boa”, estão nas Comunidades, exercem funções religiosas, mas, na verdade, estão buscando “tirar partido” para conseguir objetivos puramente egoístas. Tenhamos cuidado, porque estas coisas podem se processar dentro de nós mesmos. Porém, se Jesus venceu as tentações do poder econômico, político e religioso (ver Lc 4,1-13), também nós podemos vencê-lo. É o Espírito Santo que nos ajuda a dar este passo.

Podemos perceber como este modelo da comunhão fraterna se contrapõe ao sistema sócio-político e econômico do Império e do Templo. É um projeto que questiona profundamente a divisão de classes. Por isso, vai atrair oposições e perseguições.

3.º) PARTIR O PÃO

Esta expressão se refere à Ceia da Eucaristia. Nós nos reuníamos nas casas para realizar a memória do que Jesus fez e nos ensinou.

Na tradição dos judeus, no início da refeição em comum, o pai de família toma o pão nas mãos, dá graças a Deus e parte para distribuí-lo entre todos. Jesus, dentro desta tradição, liga este bonito costume com o gesto de dar a vida por amor à humanidade. Daí, nós cristãos celebramos o mesmo gesto de Jesus, nos comprometendo a entregar a vida como ele deu o exemplo.

Celebrar nas casas, para nós, significa resgatar a importância da vida de cada pessoa, desde o local onde mora. Deus não precisa de um espaço fechado, mesmo que seja muito bonito, como o Templo, para manifestar o seu amor e sua misericórdia. Onde há amor, Deus aí está e realiza maravilhas. Além disso, no espaço da casa, é mais fácil a participação de todos. A gente se conhece pelo nome, conhece a história de sonhos e lutas de cada pessoa e de cada família... Aí se sentem bem as mulheres e homens de todas as categorias sociais: operários, agricultores, desempregados, diaristas, pescadores... Aí a gente se corrige mutuamente e se perdoa em nome de Jesus. É uma vida diariamente renovada com muita coragem e alegria.

4.º) ORAÇÕES

É uma prática diária que aprendemos de Jesus. A oração comunitária nos coloca em atitude de vigilância e de prontidão frente à vontade de Deus. O Espírito Santo vai se revelando nas pessoas que rezam e no sincero desejo de que se realize o Plano de Deus no mundo. O efeito da oração nós o percebemos, concretamente, pela conversão em nossas pessoas: do egoísmo aprendemos a viver no amor; da timidez e do medo aprendemos a viver na coragem e ousadia... Enfim, pouco a pouco, o mesmo Espírito de Jesus vai tomando conta de nós e nos leva a realizar ações que surpreendem a nós mesmos. São “sinais e prodígios” que fazem as pessoas recuperarem a liberdade e a vida, terem saúde, alegria, paz, fortaleza de ânimo... São os mesmos sinais e prodígios que Jesus realizou!

5.º) A ESTIMA DO POVO

Este modelo de vida comunitário atrai a atenção de muita gente. A palavra e o testemunho têm a força de atrair pessoas, de todos os povos, para o caminho de Jesus. E quando levamos a sério as exigências desta vida nova, a Comunidade se torna fermento de transformação no mundo. Por isso, a fé e o amor em Jesus não permitem que nos fechemos dentro de nosso próprio grupo. Também não nos permitem que nos consideremos melhores do que ninguém.

A atitude de quem decide seguir o Projeto de Jesus deve ser de muita abertura, diálogo e respeito às diferenças. Não podemos, porém, abdicar dos valores da fraternidade, igualdade e justiça. São estes valores que Jesus viveu e, por eles, enfrentou todo tipo de oposição. Por estes valores estamos também nós dispostos a empenhar nossa vida inteira.

Pe. Celso Loraschi
Prof. de Sagrada Escritura no ITESC

PARA CONVERSAR:

Vamos ler os textos indicados acima e conversar:

1.º Quais são os princípios que orientam uma Comunidade Cristã?

2.º Hoje, nós falamos muito em CEBs (Comunidades Eclesiais de Base): como elas acontecem?
Quais as dificuldades que enfrentamos hoje para construir e viver em Igreja-CEBs?

3.º Que outros pontos nos chamaram a atenção no encontro de hoje?

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