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Atualidades - Ásia

Assombrado pela necessidade e pela fome, Akhtar Muhammad vendeu primeiro alguns de seus animais, em seguida os tapetes da família, os utensílios de metal e até as toras de madeira que sustentavam o teto da cabana que o abrigava com seus numerosos filhos.

Mas o dinheiro não dava. A fome sempre reaparecia. Finalmente, Muhammad fez algo que provocou sensação no país. Ele levou 2 de seus 10 filhos para o bazar da cidade mais próxima e os trocou por sacos de trigo.

Agora, os garotos Sher, 10, e Bar, 5, moram longe de casa. "O que mais eu poderia fazer", pergunta o pai, em Kangori, uma vila no norte do Afeganistão. Muhammad não é por nada indiferente a esta trágica situação: "Sinto falta de meus filhos, mas, em casa, não havia nada para comer!".

Nas colinas próximas vêem-se pessoas debilitadas voltando de uma colheita de vegetais da região e, até mesmo, de grama. Uma colheita que só fica minimamente comestível se fervida por muito tempo. "Para alguns, não há nada mais", balbucia Muhammad.

O Afeganistão, berço de tragédias, está agora em seu quarto ano de seca e, com ela, a fome.
Para evitar a fome, as pessoas vendem tudo, comem a ração dos animais e acabam virando pedintes.

"Numa situação como essa, há sempre gente morrendo, mas fazemos o máximo para minimizar a perda de vidas", diz Alejandro Chicheri, porta-voz do PAM (Programa de Alimentação Mundial) da ONU, que realiza grandes mobilizações para recolher trigo, óleo e feijão para serem distribuídos aos 6,5 milhões de afegãos famintos.

A situação é complexa, já que a fome é geralmente uma causa indireta. Ela acaba deixando que as doenças dêem a estocada final.

No Afeganistão, duas décadas de guerra fizeram difícil distinguir entre os tempos ruins e os piores. Mesmo sem a fome, mais de uma em cada 5 crianças morre antes de completar 5 anos. A expectativa de vida é de meros 44 anos.

Muitos vão embora para não voltar, entulhando campos em volta das cidades maiores onde há distribuição de grãos. O Afeganistão é um país de gente que vive da térra. "Se apenas damos comida, acabamos ameaçando a economia", afirma Mireille Borne, da organização de ajuda Acted.

O maior desafio será como fazer essas pessoas voltarem para casa.

Barry Bearak
Falho de São Paulo

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