Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Bíblia

Na Igreja Católica do Brasil estamos vivendo o Projeto de Evangelização “Ser igreja no Novo Milênio” (SINM). Com este projeto, a CNBB quer provocar uma profunda reflexão sobre o nosso jeito de ser igreja, favorecendo a renovação e a dinamização das comunidades eclesiais. Esta reflexão está sendo fundamentada no livro dos “Atos dos Apóstolos”.

Na verdade, é um convite a reencontrarmos o primeiro amor.

As primeiras comunidades cristãs, cuja vida é descrita nos Atos, nos animam na busca da identidade e da missão da nossa Igreja hoje.

 

O LIVRO DOS ATOS

Lucas: autor dos Atos dos Apóstolos

Lendo o livro dos Atos dos Apóstolos, não é difícil se empolgar pela narrativa de Lucas, que descreve com riqueza de estilo os atos de Pedro e Paulo e de seus colaboradores e colaboradoras no anúncio do Evangelho. A seqüência lógica e o dinamismo do enredo fazem com que um turbilhão de imagens se forme em nossa mente. É um livro que a gente lê e vê.

Os capítulos 1-7 falam da vida da Igreja-mãe, a comunidade dos doze, em Jerusalém. Nela nasce a Igreja ministerial, cuja atuação é descrita nos capítulos 6-12. Os capítulos 12-15 apresentam Paulo que, enviado pela Igreja missionária de Antioquia, se dirige aos não judeus.

A abertura aos pagãos é preparada no episódio da conversão de Cornélio, por intermédio de Pedro (cf. cap. 10). Esta nova realidade é discutida e assumida no Concílio de Jerusalém (cap. 15), a primeira grande assembléia da Igreja que decide pela pregação ilimitada no mundo gentio da Grécia (cap. 16). Tudo isso é descrito no livro dos Atos até a prisão de Paulo em Jerusalém (cap. 23), e seu encaminhamento para Roma (cap. 21 a 28).

Os três pontos centrais da narração (6-7, 13-15, e 21-23) sempre se dão em Jerusalém, até que a missão dada por Jesus (1,8) se realize em Roma. É este o caminho que a palavra percorre, chegando “até os confins da terra”.

SER CRISTÃO

Ser cristão é viver em comunidade. Esta foi a grande novidade trazida por Jesus:
a possibilidade da convivência fraterna, do alegre conviver, do amar além dos laços de sangue, da solicitude além dos muros, raças e etnias. Para o ser humano, não basta viver, mas sim conviver. Viver com-os-outros, viver em comunidade.

Meditando sobre a vida de Jesus, os primeiros cristãos compreenderam a mensagem daquele que, por onde passou, congregou, reuniu, aproximou, incluiu, juntou.

EXIGÊNCIA DE COMUNIDADE

Em muitos ambientes e corações, neste início de milênio, vale a religião do indivíduo, sem compromisso com uma instituição ou vida de comunidade. Religião de necessidades e direitos, mas sem responsabilidade e deveres.

A religião do indivíduo busca soluções imediatas, vive de práticas sem convicções, arrebanha, mas não une, satisfaz, mas não sustenta.

Na religião do indivíduo cada um encontra motivações e legitimação para a sua fé dentro de si mesmo, desconsiderando o outro como caminho para Deus.

Na religião do indivíduo não há vida para o cristianismo e nem futuro para a comunidade cristã.

Quando lemos o livro dos Atos dos Apóstolos compreendemos logo o valor da vida de comunidade para a vivência dos valores cristãos. Não existe cristianismo sem comunidade, nem cristão isolado, solitário, só. As primeiras comunidades cristãs são os frutos concretos da Palavra de Jesus.

A PALAVRA

O livro dos Atos dos Apóstolos narra a caminhada e o crescimento da palavra de Deus, confiada por Jesus à

comunidade apostólica. Por onde passa, a palavra converte, reúne, congrega, faz surgir comunidades, constrói a Igreja.

A comunidade cristã dos Atos é comunidade da palavra. Não tem nenhum outro recurso para a evangelização. Vive da palavra e pela palavra. É a palavra que tem a força de realizar a promessa de Deus na comunidade, fazendo com que a ressurreição aconteça a cada dia: conversões, crescimento, vitória.

O livro dá testemunho do crescimento da Igreja, através do surgimento de novas comunidades: Jerusalém (1 a 7); Samaria, Judéia, África (8); Síria (9-12); Chipre e Ásia (13-14); Grécia (16-21); Roma (24-28). E tudo isso é fruto da pregação da palavra.

A COMUNIDADE DE JERUSALÉM

A comunidade de Jerusalém, no livro dos Atos, é a Igreja-mãe. Convido você a percorrer os capítulos de 1 a 7 e redescobrir, na Igreja que nasce no seio do judaísmo, a nossa identidade e missão.

Jesus tinha pedido aos discípulospara que se reunissem em Jerusalém e o aguardassem (Lc 24,49). Jerusalém, lugar de paixão e de morte, se torna lugar de ressurreição e recomeço.

Ali a comunidade dos primeiros discípulos se reúne. Maria está no meio deles (1,13-14). Diante de seus olhos, Jesus lhes dá um mandato: “Sereis minhas testemunhas de Jerusalém até os confins da terra” (1,8). E sobe aos céus (1,9). Agora é com vocês. O tempo da Igreja é o tempo da missão.

IGREJA MISSIONÁRIA

Nossa Igreja nasce missionária e com vocação para a universalidade. Da comunidade dos primeiros discípulos nasce uma igreja que conjuga o verbo “IR”. Igreja que vai ao encontro.

Para manter a vontade de Jesus, a comunidade recompõe o grupo dos doze escolhendo Matias. Também a Igreja do Novo Milênio deve seguir este critério para escolher aqueles e aquelas que irão assumir serviços e ministérios.

Pedro: Lider da Igreja primitiva

O que nos conforta é o fato de que não estamos sós. Quem dá a missão dá também a graça (2,4). O livro dos Atos dos Apóstolos é o Evangelho do Espírito Santo. Ele é quem conduz, ilumina, sustenta, reveste, fortalece: “A multidão ouve em sua própria língua as maravilhas de Deus” (2,4).

Língua, cultura ou nacionalidade não são mais impedimentos para conhecer a verdade. Em vez de confusão, entendimento; em vez de dispersão, congregação (1,8-11). A palavra parte de Jerusalém para todos os cantos do mundo, tal como previa o profeta: “de Sião sairá a Lei, de Jerusalém, a Palavra do Senhor” (Is 2,3).

Não tenha medo! “Ele colocou a mão direita sobre mim e me encorajou”. Pedro fala à multidão (2,14 ss). Fala da vida, fala da paixão, fala da morte e da ressurreição de Jesus. E diz aos judeus: “Jesus é maior que Davi... Jesus é o Senhor e Cristo” (2,36).

Pedro, cheio do Espírito Santo, é um novo homem. Aquele que havia negado conhecer Jesus, agora grita seu nome em praça pública. A conversão nos faz perder o medo. A comunidade dos primeiros cristãos é comunidade de convertidos.

SER IGREJA NO NOVO MILÊNIO

Ser Igreja no Novo Milênio é anunciar Jesus sem medo e em todo lugar: nas casas, nas praças, nos telhados, nos meios de comunicação, nas universidades, nas periferias das grandes cidades, nos conglomerados urbanos etc.

O testemunho faz a comunidade crescer (2,37). Já são mais de três mil! Eles radicalizam em suas vidas a proposta de Jesus. O livro dos Atos nos mostra o retrato da 1ª comunidade (cf. At 2,37ss). Há quem desconfie que o relato do livro retrate uma experiência concreta. Assim como o fazemos nas meditações sobre o “paraíso” (Gn 1). Mas como desconfiar? É palavra de Deus!

Paulo: o apóstolo dos gentios

O educador Paulo Freire clamava em seus últimos escritos: “Será que não somos nem capazes de sonhar com uma sociedade em que exista lugar para todos?”. Sem coragem de sonhar não existe cristianismo.

A descrição do testemunho de vida das primeiras comunidades nos mostra a carteira de identidade da comunidade cristã: ouvir o ensinamento dos apóstolos, a comunhão fraterna, a fração do pão e a oração, atitudes que devem nos levar a possuir tudo em comum e a repartir tudo, segundo a necessidade de cada um (cf. 2,45).

A utopia cristã caminha para a comunhão dos bens. Na comunidade cristã o critério da divisão dos bens é muito diferente dos critérios usados na sociedade capitalista e consumista em que vivemos: nem o poder, nem a riqueza e nem a força devem ser privilegiadas, mas a necessidade de cada ser humano. Ser cristão no novo milênio é dizer não ao que é supérfluo para que todos possam ter o mínimo para viver. A própria economia, o trabalho, a ciência, devem estar a serviço da pessoa humana.

JESUS CONTINUA A SALVAR

No início do livro, um sinal: Pedro cura um aleijado no templo (3,1). É objetivo do livro dos Atos mostrar que Jesus continua salvando por intermédio dos seus discípulos e da comunidade cristã. O ressuscitado continua presente nela.

Pedro anuncia o nome de Jesus no templo, centro do poder religioso, lugar de peregrinação religiosa e exploração econômica (Lc 19,45-48). Suas palavras são de extrema coragem: “Vós matastes o Senhor da vida!” (3,15).

O testemunho converte e a comunidade cresce em mais de cinco mil. Pedro prega corajosamente diante do Sinédrio (4,5). Ele diz: “Em nenhum outro há salvação... Jesus” (4,12). Na religião cristã seguimos uma pessoa: Jesus.

A comunidade em oração vence a perseguição (4,23). Os apóstolos, em liberdade, narram as maravilhas de terem sofrido pela causa do Evangelho. O relato emociona a todos que, cheios de coragem, anunciam a palavra (4,31).

O livro nos brinda com um segundo retrato da comunidade dos primeiros cristãos: “eram um só coração e uma só alma... tudo entre eles era posto em comum” (4,32). Esta proposta exige uma opção radical: a vida de comunidade. Mentir para a comunidade é morrer; partilhar não é perder, mas ganhar (5,1s).

A comunidade continua a crescer. A pregação da palavra atrai multidões. Mas atrai também a ira das autoridades religiosas dos judeus: “Não vos proibimos de ensinar nesse nome (Jesus)? Apesar disto enchestes a cidade e Jerusalém com a vossa doutrina” (5,28).

De que estão cheias, hoje, as nossas cidades?
Quem, ou quantos atingimos com nosso anúncio?

Diante das ameaças das autoridades os apóstolos não se deixam intimidar: “É preciso obedecer a Deus antes que aos homens” (5,29).

Um projeto que vem de Deus não pode ser barrado ou destruído (5,39). De que temos medo? Vale a canção da banda pop Legião Urbana: Se “até bem pouco tempo atrás poderíamos mudar o mundo, quem roubou nossa coragem?”.

MINISTÉRIOS

O surgimento de novas comunidades faz surgir a necessidade de novos ministérios que tenham o cuidado com a “mesa”. Os apóstolos sabem que precisam se dedicar à pregação da palavra (6,2). Decidem então escolher sete

Os cristãos viviam em comunidade

homens de boa reputação, cheios de Espírito e sabedoria (6,3) para cuidar da “mesa”, o serviço da caridade que faz com que cada pessoa tenha o que lhe é necessário para viver com dignidade.

Na Igreja do Novo Milênio é urgente acolher e promover o surgimento de novos e diversificados ministérios que, suscitados pelo Espírito, atendam às necessidades das pessoas e comunidades. Dessa forma, fiel às origens apostólicas, a Igreja reconhecerá a dedicação de tantos irmãos e irmãs leigas.

Com a pregação da palavra, o número de discípulos se multiplica, até sacerdotes judeus aderem à fé (6,7). Este sucesso na ação evangelizadora atrai a ira das autoridades judaicas.

MARTÍRIO

O diácono Estevão prega e debate com o judaísmo com graça e poder (6,8). Ele é acusado de pregar contra o templo e contra a lei judaica (6,13). A convivência entre as comunidades cristãs e os líderes do judaísmo se torna impraticável.

Martírio de Estevão

O cristianismo nascente, até então uma “seita” da religiosidade judaica, começa a trilhar os seus próprios caminhos.

Estevão, na hora em que é julgado, sentencia: “Vossos pais mataram os profetas. Vós recebestes a lei e não a observastes” (7,52s).

Estevão é o primeiro mártir do cristianismo. Ele nos mostra que a nossa religião começa lá onde a vida se doa:

“Senhor, acolhe o meu Espírito!” (7,44). Prova de amor maior não há. A Igreja dos primeiros cristãos é Igreja perseguida. A razão disso é evidente: no contexto do império romano, construído sob o jugo da escravidão e exploração humana, o cristianismo prega a igualdade, a partilha, a comunhão.

Ser Igreja no Novo Milênio é ser Igreja da doação, do voluntariado, da alegria em servir. Na comunidade cristã, quem quiser ser o maior que seja aquele que mais serve (cf. Lc 22,26).

Estevão é o jovem mártir do cristianismo que nasce. Rega com seu sangue a semente que a pouco germinou. “Prova de amor maior não há que doar a vida pelos irmãos”. Enquanto seu corpo desfalecia, Estevão escutava Jesus a lhe dizer aos ouvidos: “Não tenha medo daqueles que matam o corpo, e depois disso nada podem fazer” (Lc 12,4).

A comunidade cristã vive de nossa doação. Quanto tempo de nossa vida dedicamos às coisas de Deus e às necessidades da comunidade?

O NOSSO DESAFIO

O papa João Paulo II, falando aos jovens, em Gênova, em 08 de julho de 2001, os desafiou: “Vocês não podem se resignar a um mundo em que outros seres humanos morrem de fome, permanecem analfabetos e ficam sem trabalho. Vocês defenderão a vida em cada momento do seu desenvolvimento terreno e se esforçarão com toda energia para tornar esta terra sempre mais habitável para todos”.

Este é o novo desafio para todos nós: Ser Igreja no Novo Milênio. Viver e anunciar Jesus, esperança do mundo, com a mística e a coragem dos primeiros discípulos.

Pe. Marciel E. Catâneo
Regional Sul IV da CNBB(SC)

PARA REFLETIR

1.º No contexto da Bíblia, o que representa os Atos dos Apóstolos?

2.º O que mais distinguia Pedro e Paulo em sua maneira de agir?

3.º O que mais lhe impressiona da vida dos primeiros cristãos?

4.º Quais as características que a Igreja do terceiro milênio é chamada a recuperar da Igreja primitiva?

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