Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Bíblia
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Vivemos num tempo de esperança! Os desafios são enormes, mas os sinais de vida nova estão por aí, espalhados em nosso meio. Muitíssimas são as pessoas participantes de organizações e movimentos construindo hoje a história de libertação. São mulheres e homens arregaçando as mangas e apostando num mundo de justiça e fraternidade. São pessoas indignadas contra a corrupção, o acúmulo, a mentira, a dominação. São gente simples e pobre, portadora de liberdade e paz. Gente grávida de futuro promissor de vida digna para todos. A Palavra de Deus contida na Bíblia é o testemunho dessa gente que se organiza e se movimenta desvencilhando-se do poder e constituindo um povo de irmãos e irmãs. Esta história é a própria história do amor de Deus salvando os seus filhos e filhas. É Deus intervindo em favor das pessoas pobres e oprimidas. Arranca-as das garras de quem as oprime. Faz Aliança com elas. Toma-as como seu povo e lhes é fiel até o fim, a ponto de se encarnar em Jesus de Nazaré e dar sua vida em resgate da vida em abundância para todos.
Vamos fazer juntos uma viagem pela história do Povo de Israel, contada na Bíblia. Vamos recordar (colocar no coração de novo) a ação de Deus nesta história. São estas mulheres e homens, à margem da sociedade, que carregam o Projeto de Deus. Na Bíblia da Primeira Aliança (Antigo Testamento) essa gente é chamada, na língua hebraica, de ani e de anaw. A raiz verbal dessas palavras significa vergar ou ser vergado. Portanto, referem-se à pessoa vergada ou rebaixada pelo peso da opressão política ou da exploração econômica. É aquela que ocupa um lugar inferior na sociedade, que não tem defesa e está entregue nas mãos de quem tem poder.
Uma outra palavra para falar da gente pobre e oprimida é ebyon, cuja raiz verbal significa desejar. Portanto, é aquela pessoa que está insatisfeita por causa de suas privações. É aquela que deseja alimentar-se, vestir-se, ter uma terra para morar. Ebyon é a pessoa que grita por socorro porque é injustiçada e não tem ninguém por ela.Tem ainda um outro termo muito usado que é dal. Sua raiz verbal significa ser magro, ser fraco, andar cambaleando por causa de sua constituição física muito fraca ... Essa gente toda atrai sobre si todo tipo de vexames e humilhações. Por não ter recursos e nem fama, torna-se presa fácil dos poderosos. E ninguém assume a sua causa em favor da justiça. Ninguém? Não é verdade: Deus mesmo vai ser o defensor dessa gente e vai tomar partido em favor de sua vida.
Estamos ao redor de 1500 antes da era cristã. Aí estão as famílias de Sara, Agar e Abraão; de Rebeca e Isaac; de Lia, Raquel e Jacó... É só ler o livro de Gênesis a partir do capítulo 12. Com seus pequenos rebanhos, tinham de se deslocar continuamente para regiões que garantissem pastagens. Como semi-nômades, andavam pelas terras da Caldéia, Mesopotâmia, Canaã ...
O Egito dominava toda a região. Pouco a pouco, as famílias dos pequenos agricultores e pastores foram sendo absorvidos no sistema das Cidades-Estado, cada uma delas governada por um rei que, por sua vez, estava sob o domínio do faraó. Os trabalhadores deviam disponibilizar sua mão-de-obra e os produtos da terra aos interesses dos reis e suas Cidades-Estado. Em troca, o rei garantia a presença do exército para a proteção e a segurança dos trabalhadores... Sempre mais, estes foram se empobrecendo e dependendo da política dos palácios. E aconteceu que o faraó, Ramsés II, no afã de ampliar seu domínio, decidiu mandar construir grandes obras no delta do Nilo. Para isso obrigou esta gente pobre e dependente a trabalhos forçados. Foram vergados debaixo da carga de violenta opressão. Pelo menos é assim que conta o livro do Êxodo logo no seu início.
Eis que Deus intervém nesta história e mostra o seu rosto: Eu vi... ouvi... conheço... desci... (Ex 3,7-8). Face à pobreza e à opressão, fruto da política do faraó, Deus vai falar de libertação. E sua força se faz sentir pela movimentação popular, desde as parteiras Sefra e Fua, até a organização mais ampla dos explorados, sob a liderança de Moisés, Aarão, Miriam, Josué ... Sensível à miséria do seu povo, Deus se torna o padrinho dos indefesos, o resgatador da sua dignidade, da sua autonomia e da sua liberdade. Apresenta-se como Javé, o Deus libertador dos pobres. Não é, porém, uma libertação mágica. É feita de indignação e lutas, de caminhos abertos pela determinação dos grupos inconformados com o destino imposto pelos que detém o poder.
Esta experiência do Êxodo se torna o acontecimento fundante da história do povo de Israel (Israel significa Deus luta). No meio de erros e acertos, de revoltas e desânimos, de dúvidas e incertezas, de conquistas e derrotas, Israel vai aprendendo a construir um Projeto diferente daquele apresentado no Egito. Vai aprendendo a acolher o jeito de Deus atuar na história. A maturidade é filha da dor. Depois de ter sido vergado pela opressão no Egito, o povo precisa aprender a se deixar vergar pela vontade amorosa de Deus. A caminhada pelo deserto, durante os 40 anos, é a oportunidade desta aprendizagem. Novos grupos de marginalizados vão se juntando ao movimento de libertação. Conflitos, conversas, avaliações, memória, sonhos, compromissos... O Projeto de Deus vai clareando e se definindo pouco a pouco.
É o que o povo de Israel vai viver na Terra Prometida. Estamos pelo ano 1.200 antes de Cristo. Organizado em tribos, durante duzentos anos, se esforça para colocar em prática o que aprendera no deserto. Esforça-se para ser um povo de irmãos. E irmão nenhum pode ficar excluído dos bens necessários à vida digna: Quando no seu meio houver um pobre, mesmo que seja um só de seus irmãos, numa só de suas cidades, na terra que Javé seu Deus dará a você, não endureça o coração, nem feche a mão para esse seu irmão pobre (Dt 15,7). As leis e os costumes que as tribos foram adotando visavam proteger os bens necessários para a subsistência das famílias e clãs. A terra, cujo único dono é Deus, devia assegurar uma certa igualdade entre todos e garantir a liberdade e o sossego de cada pessoa. Os estudos arqueológicos em cidades israelitas confirmam isso. Por exemplo, na cidade de Tirça, as casas do século X antes de Cristo tem todas as mesmas dimensões. Leis especiais são criadas para garantir os direitos de certas categorias de pessoas sujeitas à ganância alheia. Assim recebiam especial atenção os estrangeiros, viúvas, órfãos, escravos e pobres. Certamente são conquistas provenientes da reivindicação destas pessoas normalmente marginalizadas.
As tribos de Israel viviam continuamente ameaçadas pela invasão de povos vizinhos. Internamente, a disputa de poder vai corroendo a unidade nacional. Israel decide constituir um estado forte. Escolhe um rei, imitando outras instituições de realezas existentes no Oriente Próximo. A partir do ano 1000 antes da nossa era vai se impondo o sistema da Monarquia. Salomão manda construir o palácio real em Jerusalém e o Templo, que vai ser a sustentação ideológica da Monarquia.
Nasce agora toda uma classe de funcionários, administradores, o harém do rei, conselheiros políticos e militares, a guarda real, os sacerdotes do templo... Foi organizado o exército profissional reforçado com carros de guerra... São construídas fortificações e cidades militares... Tudo isso realizado através de trabalhos forçados, imposição de altas taxas e exploração, a tal ponto que levou o povo a uma nova escravatura. Basta ler 1 Samuel 8,11-18 para perceber um retrato da Monarquia.
O desenvolvimento econômico, com o poder centralizado, vai permitir o aparecimento de uma classe rica e influente, fazendo carreira na administração real. Os grandes proprietários e comerciantes relacionados com o estrangeiro vão impondo seu domínio sobre o destino da população sempre mais empobrecida e enfraquecida, empurrada para a margem da sociedade. No meio desta gente de baixo surgem agora os movimentos proféticos, denunciando que a Aliança de Deus com seu povo foi quebrada com a Monarquia. Mas ai daqueles que juntam casas e mais casas, que acrescentam campos e mais campos, a ponto de tomarem conta de todo o terreno como se fossem os únicos habitantes do país! (Is 5,8). Os trabalhadores eram enganados e privados dos seus bens mais elementares, devorados pela ganância dos grandes. Nesta injustiça institucionalizada vemos até juízes e sacerdotes deixando-se subornar e se vender por propinas, como denuncia Miquéias (3,9-11). São muitos os textos proféticos que revelam o tipo de política que vai privilegiando um grupo de poderosos que se impõem arrancando a pele dos pobres. Dissemos acima que as escavações na cidade de Tirça revelam que no século X a.C. as casas tinham as mesmas dimensões e acabamentos, o que denota a igualdade social das famílias. Pois neste mesmo local, no século VIII a.C. as pesquisas apontam bairros de casas ricas maiores e bem construídas, separadas dos bairros onde se amontoam as casas das famílias pobres. Os movimentos proféticos, porém, durante todo o tempo da Monarquia até o Exílio da Babilônia, revelam que estes pobres não cruzam os braços. Inconformados e indignados com o sistema que os explora, se levantam e buscam saídas iluminados pela proposta da Aliança vivida na época do Tribalismo.
O Exílio da Babilônia, em 587 a.C., veio acabar bruscamente as manobras políticas e econômicas da classe dirigente de Israel. Jerusalém e o Templo foram destruídos por Nabucodonosor. Grande parte do pessoal do palácio e do templo foram levados para a Babilônia. Os pequenos agricultores ficaram na terra da Palestina. O Exílio durou 50 anos. Tempo de revisão e aprofundamento da fé. O movimento profético do Segundo Isaías (Is 40-55) chama os exilados de pobres não tanto por causa de sua situação econômica, mas porque estão vergados sob o domínio estrangeiro. Devem reaprender agora a ser servos de Javé e construir uma Nova Aliança na humildade e na justiça. É lá no exílio da Babilônia que a utopia do paraíso terrestre é reconstituída, conforme está escrito nos primeiros capítulos de Gênesis. O pecado foi a Monarquia que abandonou o Projeto de Javé e quebrou a santa Aliança que Ele fez com o seu povo. Segundo Ezequiel 34, foram os maus pastores que conduziram as ovelhas de Israel ao exílio. Agora, Deus mesmo torna-se o pastor destas ovelhas dispersas. Voltando-se a Javé e conduzidas pelo ruído do Espírito, devem aprender a se articular como povo e sair da situação de ossos secos e separados (Ez 37).
O Exílio da Babilônia passou. Ciro, o rei persa, vencendo o império babilônico promove a volta dos hebreus à sua terra. Estamos no ano 538 a.C. Muitos preferiram ficar por lá, pois estavam muito bem estabelecidos. Quem volta tem o objetivo de reconstruir o templo em Jerusalém. Os repatriados trazem capitais da Babilônia. Os que estão na terra levam uma vida modesta e tranqüila em suas pequenas propriedades. As diferenças sociais reaparecem. Ressurge a opressão dos trabalhadores obrigados a venderem a sua força de trabalho. Aparece a injustiça nos tribunais. A violência e o desejo de poder reinam de novo, mesmo diante da aparência de humildade manifestada nos cultos, jejuns e sacrifícios. Os pobres vão perdendo a esperança de um futuro melhor. Estavam abatidos e prisioneiros de sua miséria. De novo!
Neste contexto surge o movimento profético do Terceiro Isaías (Is 55-66). É a convocação dos pobres para ouvirem uma boa notícia que deve reanimá-los e consolar os aflitos. É a boa notícia de um ano jubilar. É assim que lemos em Is 61,1-2: O Espírito do Senhor Javé está sobre mim, porque Javé me ungiu. Ele me enviou para dar a boa notícia aos pobres, para curar os corações feridos, para proclamar a libertação dos escravos e pôr em liberdade os prisioneiros, para promulgar o ano da graça de Javé, o dia da vingança do nosso Deus, e para consolar todos os aflitos... A lei do Ano Jubilar, escrita no livro de Levítico 25, obriga a libertar os escravos e a devolver a cada um os seus bens. É um movimento que vem de baixo, do mundo dos empobrecidos, que resgata a utopia da igualdade social vivida no tempo de êxodo-tribalismo.
É nesta linha que surgem também os movimentos sapienciais. Estamos no período do pós-exílio. A dominação é estrangeira. É dos persas e depois dos gregos. Internamente, no país da Palestina, com a construção do segundo templo, impõe-se o sistema de Pureza e legalismo. Mulheres e homens excluídos se levantam continuamente e de diversos modos. Contrapõem o sistema concentrador pela proposta da Aliança que restabelece o direito e a justiça. É só ler com atenção os livros de Eclesiastes, Eclesiástico, Cântico dos Cânticos, Rute, Ester ... A linha oficial do Templo, com sua teologia da retribuição, é questionada profundamente pelo livro de Jó. É a voz dos oprimidos que sofrem o peso da exclusão devido aos dogmas instituídos pelos sacerdotes. Deus não pode apoiar quem oprime. Porque ele humilha os arrogantes e salva os que se humilham. Ele liberta a pessoa inocente, e você será salvo pela pureza de suas próprias mãos (Jó 22,29-30). A organização social, a partir do segundo Templo, perpassa os séculos e está firmemente cristalizada na Palestina no tempo de Jesus.
O movimento de Jesus de Nazaré entra na tradição dos movimentos populares da Primeira Aliança. Na sociedade judaica dos anos 30 existiam os malvistos ou os impuros. São os que a língua grega traduz como ptokós: refere-se aos cuspidos da sociedade. Talvez a expressão aramaica usada por Jesus seja am haarets, que traduzido ao pé da letra significa o povo da terra, ou seja, em linguagem popular, o zé povinho. Este povo, totalmente dominado pelo Império Romano e pela ideologia do Templo, torna-se o destinatário do Reino de Deus que Jesus vem inaugurar. Fiel à Tradição da Aliança, Jesus se posiciona claramente contra o sistema de Pureza idealizado e controlado pela elite de diversos grupos político-religiosos: sacerdotes, escribas, saduceus, fariseus... A multidão de pessoas impuras, excluídas por este sistema do Templo, tem voz e vez no Movimento de Jesus. Sua missão, e a de seus seguidores, é fundamentalmente de curar os doentes e expulsar os demônios. Isto significa que a proposta de Jesus e das comunidades cristãs é de garantir vida digna para as pessoas. A profecia e o pastoreio são duas notas predominantes no Movimento de Jesus: abominação da injustiça e profundo carinho aos necessitados; denúncia da opressão dos poderosos e defesa intransigente da vida dos oprimidos; resgate do verdadeiro rosto de Deus libertador e condenação da idolatria do poder econômico, político e religioso.
A verdadeira relação com Deus não se dá pelos sacrifícios e cultos ancorados na exploração dos pequenos, mas se dá na partilha e no serviço mútuos. Nenhum lugar tem o monopólio de Deus. Ele está na história das mulheres e homens marginalizados: nas casas, nas ruas, nas roças, nos campos, nas grutas, na praia, no mar, no deserto... Identifica-se com o assaltado e semi-morto, jogado à beira do caminho; com as pessoas famintas, nuas, doentes, presas, pecadoras ... Deus, portanto, está mais em baixo do que a gente imagina. Está mais perto e íntimo do que podem explicar as teologias. Ele age libertando com os excluídos sem pedir licença para os doutores da doutrina oficial. Os grandes e sabidos não conseguem compreender a lógica de Deus. Ele as revela aos simples e pequeninos.
Vale a pena ler a Bíblia, como resultado de uma grande caminhada histórica em contínuos movimentos populares. Eles nascem do lugar social dos pobres suscitados pela fé em Deus que desce sempre de novo para libertá-los. Bebem da fonte da água sempre viva de dois grandes acontecimentos que revelam o agir libertador de Deus na história humana: o Êxodo e Jesus Cristo morto e Ressuscitado. São movimentos que não seguem a oficialidade. Eles vêm de baixo, emergem da periferia. São muitos estes movimentos, tanto na Bíblia como em nossos dias. São eles os portadores do Projeto de Deus. Eles nos atingem, nos questionam, nos desacomodam e nos impulsionam na busca de caminhos sempre novos. Caminhos do direito e da justiça, do amor e da paz. Pe. Celso Loraschi
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