Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Celebração

Nesta edição temos a satisfação de publicarmos um teatro do amigo Francisco Cruz de Sousa, maranhense, conhecido por nós como Chicó. A peça “Tô com fome” retrata a realidade brasileira de muitas famílias que travam uma batalha diária para terem o que comer.

Neste contexto é que encontra sentido o programa “Fome Zero”. Alegra-nos saber que o número de iniciativas desenvolvidas pela sociedade civil e pelas comunidades religiosas tem aumentado.

Isso mostra que a população, quando motivada e organizada, não se omite em contribuir na solução deste enorme problema. Nesta peça teatral, juntemo-nos ao Chicó e gritemos

Os atores entram cantando e formam uma roda. Inicia-se uma música apropriada.

ARAUTO 1: Vejo no mundo a cara da fome. Sim, vejo-a na minha rua, no meu bairro, no meu estado... no meu país.

TODOS: (os que estão no palco) Fome?

ARAUTO 1: Sim, vejo fome. Inacreditável, não é?

ARAUTO 2: Atenção, atenção meninada e adultos desta linda baixada, vamos mostrar para essa gente, gente que não sabe de nada, que não quer ver nada, quanta gente está passando mal, porque o emprego sumiu, o salário diminuiu e, ninguém extranha, a fome explodiu! Entram um a um na roda, enquanto uma criança pede.

CRIANÇA: Ei, seu Manoel, me dá um pastel.

MANOEL: Cai fora menino!

CRIANÇA: Ei, seu Machado, me dá um trocado.

MACHADO: Cai fora menino!

CRIANÇA: Ei, dona Chica, me dá uma canjica.

CHICA: Cai fora menino!

CRIANÇA: Ei, pessoal, me dá um mingau.

TODOS: Cai fora menino!

CRIANÇA: Cai fora pra onde? Nem força mais tenho para andar!

Música. Entram Manoel e Machado dentro da roda e começam o diálogo.

MACHADO: É Manoel, o negócio está difícil: o lucro da empresa não dá mais para suprir as nossas necessidades. Acredite, estamos praticamente falidos e vou ser obrigado a reduzir o número de funcionários da empresa. Infelizmente você é um deles. É que você tem poucos anos de estudo!

MANOEL: Justamente eu Machado? Eu que tenho uma família para sustentar: filhos, esposa, sogra e até os cunhados sanguessugas?!

MACHADO: Lamento muito Manoel, mas não posso lhe ajudar. Infelizmente, muitos outros terão que perder o emprego! Mas não se preocupe (um tapinha nas costas), quando as coisas melhorarem, o chamarei de volta. Sai Machado e fica Manoel. Enquanto isso, as pessoas passam e ele fala.

MANOEL: Por favor, me ajude!

CHICA: Vai trabalhar vagabundo!

MANOEL: Ei, você, me dá uma ajuda?

MADONA: Vai trabalhar vagabundo!

MANOEL: Moço, estou precisando da sua ajuda!

MACHADO: Vai trabalhar vagabundo!

MANOEL: Pessoal, preciso de um...

TODOS: Vai trabalhar vagabundo!

MANOEL: Trabalhar aonde: em todo lugar que eu vou ninguém me acolhe! Infeliz de mim: Agora virei até vagabundo!

Todos começam a rodar em círculo cantando repetidas vezes:

“Criança que não come, passa mal, passa mal, passa mal” (melodia da canção: “Quem tem medo do lobo mal”). O menino começa a se sentir mal.

MENINO: Tô com fome; tô passando mal...! Me dá um trocado pra tomar um mingau?

Cantam novamente: “Família que não come, passa mal, passa mal, passa mal...”. Manoel começa a andar sem direção passando mal.

MANOEL: Tô sem dinheiro, desempregado, eu e minha família estamos com fome! Me dá um trocado pra eu comprar feijão?

ARAUTO: E você? (perguntado para a platéia) já passou fome, ou... alguém de vocês ainda está passando? Alguém já sentiu doer dentro de suas entranhas essa dor corrosiva? Eh, minha gente, por causa da desigualdade e da ganância ela fere inúmeras pessoas no mundo todo! E o pior é que, por causa dela, sim, por causa da fome muitos entram no mundo do crime! Entra Madona gritando.

MADONA: Socorro, socorro... fui assaltada! Socorro, alguém me ajude... Levaram todo meu dinheiro... Foi horrível, aquele homem com aquela arma na minha cabeça! O que vai ser de nós neste país?!

Entra Chica gritando.

CHICA: Pega ladrão, pega ladrão! Aquele moleque levou minha bolsa com todos os meus documentos.

ARAUTO 1: É, meus irmãos, o único jeito de quem está desempregado, sem dinheiro, com fome e sem esperança, é partir para o crime!

ARAUTO 2: Agora, todo mundo se pergunta:

TODOS: O que haveremos de fazer?

Em forma de jogral.

PESSOA 1: Você tem fome de quê?

PESSOA 2: Tenho fome de justiça. E você, tem fome de quê?

PESSOA 3: Fome de dignidade, salário justo! E você tem fome de quê?

PESSOA 4: A minha fome? É lutar por um país melhor, onde todos possam comer três vezes ao dia...

PESSOA 1: Onde pais e mães consigam alimentar seus filhos com dignidade.

PESSOA 3: Tenham certeza: ser formos mais solidários com os que precisam, juntos venceremos!

PESSOA 2: Chega de fome!

PESSOA 4: Espere aí, ainda há uma pergunta:

Todos os atores se reúnem e juntos olhando para a platéia perguntam:

TODOS: E vocês, têm fome de quê?

Termine-se com uma canção conhecida que esteja de acordo com o tema.

Francisco Cruz de Sousa
Açailândia - MA
fcruzteatro@hotmail.com

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