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A
presente reflexão quer ser um instrumento de trabalho para estimular
todos os cidadãos de nosso país a assumirem plenamente suas
responsabilidades.
No entanto, esta reflexão não está voltada unicamente
para as próximas eleições: ela quer abrir um espaço
de diálogo - antes, durante e depois das eleições
- para que algo de novo possa efetivamente nascer, em nosso país,
da atuação dos responsáveis políticos que
serão eleitos em 2002. É o que a nossa gente mais precisa
para sair do sufoco e ter uma vida digna e feliz.

A
transformação, rumo a uma sociedade justa, é um processo
contínuo e que exige profundas mudanças culturais. Isso
implica a participação de todos.
Embora não se possa esperar resultados mágicos - menos
ainda na realidade brasileira, marcada pela desigualdade social -, as
eleições dos dirigentes políticos é uma etapa
que pode fazer avançar decisivamente esse processo.
A participação, no entanto, não consiste
somente no exercer cargos governamentais e cumprir mandatos eletivos,
há outras possibilidades de atuação dentro ou fora
do mundo da política.

- A primeira forma de participação é omitir-se
politicamente. Não participar da política já é
uma forma de fazer política - com certeza, a pior.
- Outra forma é atuar em partidos.
- Mas pode-se participar da política sem ingressar e atuar
em partidos. Assim, é possível participar simplesmente
se associando a campanhas eleitorais de candidatos confiáveis,
bem como, com ou sem vinculações partidárias, pode-se
participar ajudando e fiscalizando aqueles que exercem funções
políticas.
- Outra forma de participar, ainda mais elementar, é simplesmente
se interessar por política e discutir o que fazem ou deixam de
fazer aqueles que exercem funções políticas, ou
o comportamento dos partidos frente ao bem comum.
- Também se participa da política ao tomarmos parte
de lutas sociais por reivindicações junto ao poder político
ou mudanças na organização da sociedade e suas
leis. É bem evidente, por exemplo, o caráter político
- como busca do bem comum - de movimentos sociais que reivindicam melhor
educação, saúde, etc.
- A nova Constituição Brasileira criou também
formas de participação política como exercício
de democracia direta, através dos referendos e plebiscitos, ou
do uso da Iniciativa Popular de Lei, como a que conseguiu mudar a legislação
para coibir a corrupção eleitoral. Essas inovações
de nossa Constituição foram o resultado de um enorme processo
de participação popular, em sua própria elaboração
através das chamadas emendas populares.
- Participa-se ainda da política integrando ou apoiando
Conselhos (da Saúde, da Agricultura, de Segurança...),
ou participando de novos processos que vêm se criando no Brasil
como o dos orçamentos participativos.
- Por fim, todos os cidadãos, maiores de 16 anos, podem
participar da política através do voto, escolhendo aqueles
que devem exercer funções eletivas dentro do mundo da
política. É o exercício mais claro e direto de
cidadania e de expressão do poder do cidadão. Na verdade,
é esta a forma de participação política
mais decisiva do cidadão.

A democracia pode ter defeitos e funcionar com dificuldades. Ela encontra
conflitos que parecem sem solução. Mas a democracia tem
muitas vantagens: estimula a participação de todos; procura
a elaboração de um consenso, no respeito à diversidade;
escolhe um governo por um período e permite trocá-lo em
curto prazo; introduz diversas formas de controle dos cidadãos
sobre os governantes.
A eleição é o nervo da democracia, embora um país
em que haja eleições, nem sempre é uma democracia
total. É o que ocorre no Brasil, país em que a desigualdade
social, a concentração da renda e o poder excessivo, para
não dizer abusivo, do Executivo, nos distanciam de uma real democracia
política, social e econômica.
Democracia, portanto, não é somente um regime em que existem
eleições, embora um país sem eleições
não possa ser chamado de país democrático. Da eleição
resulta a escolha - aberta à participação de todos
os cidadãos de um país - daqueles representantes do
povo que receberão a incumbência de administrar os
recursos coletivos.
Eleições limpas, participadas e sem fraudes, ou seja, éticas,
são a chave inicial e a primeira garantia de vida democrática.
É o momento em que o povo escolhe seus representantes,
delegando-lhes o poder de decidir em seu nome sobre os interesses que
são de todos.

Podemos enumerar alguns critérios para a escolha dos nossos representantes:
- honestidade e seriedade, não envolvimento em práticas
de corrupção;
- métodos limpos para obter votos, sem tentar comprá-los
e sem oportunismos;
- passado de engajamento ao lado dos pobres e das lutas do povo;
- candidatura como proposta de prestação de um
serviço à comunidade e não como conquista de um
cargo ou de uma profissão;
- programas consistentes e não promessas eleitoreiras,
defesa de condições dignas de vida para todos;
- prometer somente o que se pode efetivamente fazer, dentro do
tipo e dos limites do mandato que se postula, humildade para aceitar
fiscalização, capacidade de se fazer ajudar, compromisso
com a transparência e com a prestação de contas
do mandato;
- respeito ao povo e à sua organização,
disposição de estimular essa organização
e a participação do povo nas decisões, sensibilidade
com seu sofrimento;
- competência, capacidade, coragem, maturidade e disposição
para o diálogo sincero, sensibilidade para captar os anseios
populares;
- forma honesta de custear a campanha, sem compromissos dúbios
e sem muitos gastos;
- vida pessoal coerente e honesta, preocupação
com o bem comum e não com seus interesses pessoais.
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- Comadre Maria, a líder aqui da nossa comunidade disse
uma coisa que ficou zunindo na minha cabeça.
- O que há de ser, comadre Pilar?
Maria parou de esfregar o sabão nas roupas e olhou de banda:
- Ela disse que política é a forma sublime de exercer
a caridade. Você, que é mais estudada do que eu, pode
me explicar o que significa isso?
Pilar estendeu o lençol molhado no varal e virou-se para
a comadre:
- Diga você, Maria, o que entendeu.
- Entendi que a política, como diz meu filho, é uma
faca de dois legumes.
Ela serve para oprimir e para libertar.
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Quando ela não dá as costas para o povo, a nossa
vida melhora.
Caridade, a gente pode fazer de muitos jeitos:
cozinhando para os velhinhos do asilo; ajudando a cuidar das crianças
da creche; dando banho na pobre da dona Geralda que vive sozinha
e já não consegue andar.
Mas a política pode muito mais: pode garantir uma aposentadoria
decente para todos os idosos; proibir o trabalho infantil e colocar
todas as crianças na escola; obrigar os hospitais públicos
e postos de saúde a atenderem bem os doentes mais pobres.
- Falou bem, comadre. Posso ser mais estudada, mas você é
mais sabida.
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O Cardeal-presidente do Pontifício Conselho da Justiça
e da Paz, François Xavier Nguyên Van Thuân, antecipou
sete pontos do decálogo das Bem-aventuranças da doutrina
social que a Santa Sé definirá até o final deste
ano, e que podem nos ajudar bastante neste processo eleitoral.
- Bem-aventurado o político
que tem consciência do próprio papel.
- Bem-aventurado o político
de quem se respeita a honorabilidade.
- Bem-aventurado o político
que trabalha para o bem comum e não para o próprio bem.
- Bem-aventurado o político
que se considera fielmente coerente e respeita as propostas eleitorais.
- Bem-aventurado o político
que constrói a unidade.
- Bem-aventurado o político
que sabe escutar o povo antes, durante e depois das eleições.
- Bem-aventurado o político
que não tem medo, sobretudo da verdade.

O que nós podemos fazer, além de votar? Vejamos algumas
pistas:
A) conscientizar cidadãos da sua responsabilidade de
votar e votar bem, tendo presente que o voto tem valor, escolhendo com
cuidado os candidatos a serem votados nos diversos níveis. Para
isso poderá produzir cartilhas, volantes, cartazes, programas
radiofônicos;
B) promover debates e reflexões sobre programas e candidatos,
a fim de propiciar uma melhor avaliação deles;
C) organizar seminários, encontros e outras modalidades
para debate e aprofundamento de temas sócio-políticos
mais específicos da região ou do lugar, envolvendo o maior
número possível de pessoas;
D) trabalhar para que a escolha do candidato se faça
a partir do seu programa, do seu respeito ao pluralismo cultural e religioso,
do seu comportamento ético, de suas qualidades, do seu compromisso
com a justiça e com a causa dos marginalizados;
E) criar ou fortalecer comitês contra a corrupção
eleitoral e para a aplicação da Lei 9.840, que proíbe
a compra de votos e o uso da máquina administrativa;
F) incentivar a participação das mulheres na política;
G) valorizar os candidatos honestos quando eleitos, acompanhando-os
no exercício de seu mandato e mantendo relações
de diálogo.

Muitos afirmarão que o conteúdo aqui apresentado sobre
Eleições e Política é apenas sonho. No entanto,
segundo o professor César Nunes, muitos sonhos foram concretizados.
Exemplos:
-
A instituição do Estatuto da Criança e do Adolescente.
- O Código Ambiental Brasileiro.
- A rede de defesa e Proteção aos Di- reitos da Mulher.
- A defesa da identidade e cultura Negra.
- O atendimento aos Portadores de Necessidades Especiais.
- O Código de defesa do Consumidor.
- A criação de milhares de ONGs.
- As lutas pela Anistia.
- A luta pelas Diretas-Já, pela Consti - tuição
Cidadã de 1988, pela LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação).
- Banimos deputados bandidos, traficantes e narco-traficantes, donos
do latifúndio improdutivo.
- Assistimos à queda do Juiz ladrão, do Juiz fujão,
do banqueiro desones to, do professor universitário anti- ético,
fabricador de laudos médicos sob encomenda, etc.
Quem
imaginaria isso há 20 anos? Tudo isso incentiva a ação
daqueles que se sentem impelidos a lutar por um mundo melhor.
Nesta luta devem também se empenhar as instituições
sociais (escolas, igrejas, sindicatos, partidos, famílias, associações...),
abrindo horizontes de novas relações solidárias e
fraternas.
Precisamos aproveitar a oportunidade da eleição
para refletirmos e agirmos seriamente sobre estas questões decisivas
para a construção de uma nova sociedade. Não é
isso que nós almejamos?
Mauri Heerdt
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