Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Cidadania

ecentemente, ao final de uma palestra sobre cidadania e bem comum, um senhor me procurou dizendo-se bastante desanimado e descrente com o futuro do Brasil. De maneira bem categórica, ele afirmou que, apesar de concordar que a nossa atitude é a chave para a mudança desta sociedade, ele não acredita mais em nosso país, pois acha que nós, brasileiros, somos totalmente incapazes de nos mobilizarmos para resolver questões tão relevantes como a fome, a violência e a miséria. Ao ouvir esse depoimento, contei a ele um sonho que tive, há cerca de dois meses, na noite anterior ao jogo do Brasil com o Japão na Alemanha. O sonho que contei e a reflexão que fiz em resposta ao seu comentário me marcaram tanto que quase sempre os utilizo para refletir sobre a questão do engajamento e da organização popular como meios de transformação da realidade social. É exatamente isso que farei neste espaço do nosso Missão Jovem deste mês.

“Um país dos sonhos”

Na noite anterior a este jogo, sonhei que, ao caminhar de manhã pelas ruas, observava todas as pessoas mobilizadas e com um grande sentimento patriótico:

- camisas verde-amarelas por todas as partes, bandeiras e pessoas correndo apressadas para chegar mais cedo ao trabalho com o claro objetivo de compensar as horas que seriam despendidas como mais importante acontecimento patriótico do ano. Em alguns casos, essa saída “mais cedo” do serviço era precedida de uma intensa negociação com os chefes e patrões. Porém, graças ao senso patriótico comum, os serviços essenciais à população seriam mantidos. Os demais seriam suspensos ou compensados.

De repente, durante este meu sonho, eu vejo caminhando junto com uma imensa multidão que portava bandeiras, faixas de apoio e gritos de guerra em direção a um grande estádio de futebol. Subimos todos juntos uma rampa que dava acesso à arquibancada e, ao sentar, para minha surpresa, percebo que toda a arquibancada estava composta por uma só torcida. “Bom, estamos jogando em casa e a torcida adversária não veio”, penso eu.

Ao olhar para o gramado fico ainda mais perplexo:

- Vejo cadeiras perfiladas em frente a uma grande mesa como se fosse um plenário.

Pergunto ao torcedor que está do meu lado:

- “Ué! Que cadeiras são aquelas? Como o jogo vai transcorrer com aquelas cadeiras em campo?”.

O torcedor que está ao meu lado me olha surpreso e dispara:

- “Que jogo, que nada, rapaz! Ficou louco? Estamos aqui para acompanhar a votação do orçamento de nossa cidade. Naquelas cadeiras sentarão os nossos representantes. Aqueles que fizerem emendas eleitoreiras para os seus centros de saúde e assistência social com o claro objetivo de comprar votos ou praticar corrupção, nós os vaiaremos e exigiremos que o treinador os troque imediatamente. Aqueles que brigarem para que seja mantida a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, destinando assim mais recursos paraas escolas públicas, nós os aplaudiremos e os apoiaremos.

É esse o nosso papel aqui. Aliás, isso está acontecendo em todo o País. Todos param durante esses dias à tarde para acompanhar de perto a votação do orçamento municipal em nossas cidades que, em função da quantidade de pessoas engajadas e interessadas neste processo, somos obrigados a fazer isso em estádios e ginásios, pois as galerias das câmaras municipais não são suficientemente grandes para comportar toda essa gente”

“Qual a realidade que queremos para a nossa pátria?”

Em seguida, o meu despertador toca e eu acordo com aquele sentimento triste ao constatar que se tratava apenas de um sonho.

Para piorar ainda mais, eu ligo a televisão e observo os preparativos para o jogo do Brasil contra o Japão, que aconteceria naquele dia:

- as pessoas correndo, se preparando e se mobilizando com um senso de organização e cooperação raro em nosso dia-a-dia. Infelizmente, tudo isso é apenas para um jogo de copa do mundo. Será que é esse o sentimento de patriotismo e cidadania que queremos passar para os nossos filhos?

“Sonho que se sonha junto é o início da realidade”

Quando refletimos sobre essas ações, à luz do Evangelho, percebemos como estamos distantes do amor ao próximo citado pelo Cristo. Esse amor deveria passar pela nossa atitude cotidiana de primar pela dignidade da pessoa humana através da primazia do bem comum e não por um jogo de futebol que parece representar a nossa “razão” e a nossa “honra”.

Se quisermos um país melhor e campeão nas coisas que realmente importam, como a educação e a saúde, o mínimo que deveríamos fazer seria nos informar sobre o andamento dos trabalhos legislativos da nossa cidade. O trabalho dos grupos de Fé e Política, que acompanham a votação e a execução orçamentária municipal, é um ótimo exemplo. Se déssemos uma pequena parcela do comprometimento e da organização que vemos numa copa do mundo, para o trabalho desses grupos, a nossa realidade seria outra.

É o nosso futuro que está em jogo. Mais importante do que votar corretamente nas eleições é acompanhar bem de perto a atuação dos mandatários que elegemos. Informe-se na sua cidade sobre os grupos que trabalham a execução orçamentária ou o orçamento participativo.

Quem sabe não seja este o momento de você se engajar neste tipo de trabalho ou até mesmo fundar um grupo desta natureza em sua paróquia ou diocese?

Desta forma, você estará dando uma bela contribuição para a construção da civilização do amor prometida pelo Cristo nos evangelhos. Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

Para Dialogar e Agir:

1. O que você achou do sonho do Robson?
2. Qual a moral deste sonho?

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