Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Comunicação

Este é, sem dúvida, um avanço. Acontece, porém, um problema muito sério, um verdadeiro paradoxo que precisa ser analisado. Enquanto as tecnologias de comunicação aumentam assustadoramente, tem-se a impressão de que vivemos numa espécie de surdez.
Parece contraditório, não é?

Ivone Gebara, escritora e teóloga, compartilha com esta visão: A tecnologia que produzimos não tem condições de captar a complexidade da nova opressão que toma conta de nós. O excesso dos sons e ruídos nos ensurdece. O excesso de vozes falando ao mesmo tempo e o excesso de informações e interpretações nos confundem e nos espantam. Muitas vezes tudo isso nos dá a ilusão da audição, da comunicação, da rapidez da informação, do conhecimento das coisas. Na realidade, essa comunicação esconde a grave surdez de nossos tempos: a surdez para certos sons que deveriam ser ouvidos. Daí a nossa falta de consciência critica sobre as coisas, ou seja, esta é a nova forma de alienação.

Alberto Manguel especialista em leitura, também tem sua visão sobre o nosso tempo: A atual cultura é superficialíssima. Pense, por exemplo, nas imagens veiculadas pela publicidade. Elas captam a nossa atenção por apenas poucos segundos, sem nos dar chance para pensar...

Marciel Catâneo, professor, é ainda mais forte: Vivemos sob a ditadura da imagem, da realidade virtual, da supremacia do supérfluo, do aparente. Livros, leitura, letras e letras, paginas e paginas, se tornaram sinônimo de enfadonho, monotonia e marasmo. Coisa de "velhos!"

O que acontece é que ouvimos sons espetaculares e vemos imagens fabulosas sem as quais não conseguimos mais viver: elas chegam a ser objeto de grande parte de nossas conversas. Achamos que este é o mundo real; que estes são os sons e as imagens reais, da vida real.

Será? E a imagem e a voz dos povos indígenas que pedem demarcação de suas terras? Dos desempregados que pedem emprego? Dos sem-teto que pedem moradia? Dos idosos que pedem remédios e atenção? Enfim, dos injustiçados que pedem justiça?

Aí eu pergunto: Qual é a imagem e a voz real? Qual e a que mais toca o coração das pessoas? Infelizmente, a imagem, a propaganda, os sons moderníssimos, os artistas e atores, as modelos... estão sendo mais falados e valorizados do que a realidade da vida do dia-a-dia de milhões de brasileiros que trabalham e suam a camisa para ganhar o pão de cada dia.

Eles não aparecem, eles não são importantes. Os assassinos e os traficantes de droga ocupam mais espaço nas TVs do que os trabalhadores e a gente humilde que sustentam este nosso Brasil e que ganham uma mixaria.

Assim é fácil entender porque os pais reclamam: Não conseguimos mais orientar nossos filhos, eles não escutam, respondem de forma malcriada, fazem o que bem querem...

E os professores passam pelos mesmos apuros: Os meus alunos não querem mais saber da minha matéria, são incapazes de prestar atenção, não me respeitam...

E assim vai...

Uma pergunta intrigante, com certeza, é esta: Como os meios de comunicação conseguem se sobrepor aos modos tradicionais de educação, inclusive a escola, lugar por excelência a para a formação das consciências?

Não quero discutir aqui a velha questão, embora ainda atual, da influência dos meios de comunicação, principalmente da televisão, sobre a educação das pessoas. Também não se trata de dizer que os meios de comunicação devem ser eliminados, que eles são o satanás do mundo atual. Não, muito pelo contrário: Eles são bons e tem um poder extraordinário. O problema surge quando eles se tomam a própria realidade, ou seja, quando o virtual, o fantasioso... se torna real.

Precisamos aprender a nos ouvir novamente para sairmos desta surdez. Pois é escutando um ao outro que poderemos criar um mundo melhor de se viver. Este diálogo qualificado é que permitirá criar novas relações.

Mauri Luiz Heerdt

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