Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Construindo Fraternidade

eria tão bom se não existissem! Recentemente, durante uma palestra em um encontro de jovens, um participante perguntou a minha opinião sobre o Movimento dos Sem-Terra e os “transtornos” que eles causam em nossa sociedade. Respondi ao jovem contando uma experiência pessoal que vivi há cerca de quatro anos, quando me dirigia ao trabalho e enfrentava um enorme engarrafamento causado por uma passeata de estudantes da rede pública de ensino.

Essa experiência foi tão marcante em minha vida que, além de utilizá-la constantemente em minhas aulas e palestras, faço questão de aprofundá-la aqui. As ar madi lhas do ego ísmo nosso de cada dia Estava eu juntamente com a minha esposa me dirigindo ao trabalho quando, de repente, percebo um trânsito extremamente confuso. Incomum para aquele dia. Algum incidente ou imprevisto fazia com que a viagem cotidiana de uma hora se projetasse para duas ou mais. Logo o repórter da rádio que ouvíamos informava que uma passeata de estudantes era o motivo do nosso atraso. Ao ouvir essa notícia, eu até tentei evitar qualquer julgamento.

Entretanto, assim que a mesma rádio informou que o motivo era a suspensão da gratuidade no acesso dos estudantes da rede pública aos meios de transporte, um pensamento impregnado de egoísmo me veio à mente:

“O que tenho eu a ver com isso? Será que os estudantes não teriam outra forma de protestar sem prejudicar o cidadão comum que se dirige ao trabalho?”. Logo em seguida, a rádio iniciava uma entrevista com um dos coordenadores da passeata.

A pergunta do repórter, feita logo depois da explicação do estudante sobre os motivos, soou como música aos meus ouvidos:

– “Você acha que, por mais digna e justa que seja a reivindicação de vocês, realmente era necessário atrapalhar o cotidiano do trabalhador que se dirige agora ao trabalho e não tem nada a ver com isso?”. A resposta do aluno para esta pergunta foi uma lição tão grande para mim que eu nunca mais esqueci dela.

A lição aprendida Disse ele: – “Em primeiro lugar, eu gostaria de aproveitar o espaço do seu programa para pedir desculpas a quem, neste exato momento, sofre com o engarrafamento causado pela nossa passeata. Entretanto, se não tivéssemos feito isso, certamente não teríamos o espaço que estamos tendo no seu programa de rádio neste horário tão nobre para falar de um problema que pode, perfeitamente, afetar não somente a vida do estudante pobre da rede pública, mas de toda a sociedade. Neste exato momento, enquanto conversamos aqui na rádio, uma quantidade enorme de estudantes carentes está sem ir às aulas por não ter o dinheiro da passagem. Ficam, em função disso, a mercê do tráfico de drogas nas favelas e nas comunidades onde o crime domina”. Nessa mesma hora, um sentimento de arrependimento invadiu a minha alma.

Pedi perdão a Deus e, ao mesmo tempo, agradeci pela oportunidade de aprender um pouco mais sobre as armadilhas do egoísmo que quase sempre nos deixam cegos e indiferentes frente à realidade perversa e injusta do mundo. Nunca é tarde para mudar mos Essa história me marcou tanto que, sempre que posso, utilizo-a em minhas aulas e palestras para mostrar a importância dos Movimentos Sociais. Sem eles, algumas das poucas, porém importantes, conquistas sociais dos trabalhadores, dos estudantes carentes e da sociedade de um modo geral não existiriam. Os Movimentos Sociais, assim como as Campanhas da Fraternidade, só existem porque não temos justiça social em nosso País. Se tivéssemos, certamente não precisaríamos ter o MST, os Pré-Vestibulares Comunitários, as Pastorais Operárias, o Movimento Negro etc. Para terminar, eu peço desculpas pelo erro proposital na introdução desse artigo.


O correto deveria ser:
“Movimentos Sociais, seria tão bom se não precisassem existir”.

Um forte abraço a todos e a Paz de Cristo!

impressão que se tem é de que o povo está mais consciente. Tem mais cabeça. É menos cabresteiro. Porém, ainda há o perigo da massificação. A publicidade, a propaganda eleitoral, a cultura de massa, as imposições religiosas, as lavagens cerebrais de todos os tipos, criam um povo com reações despersonalizadas, reações de massa. Surge o pagodismo e todos entram na onda, e vão sempre no mesmo mexe-mexe. Vem a política, e perde-se a cabeça ou deixa-se conduzir por uns cabeças. Vem o futebol, e o fanatismo toma conta. Chega-se ao mercado, e comprase aquilo que a propaganda impôs. Veste-se a roupa determinada pelos manequins e modelos. E assim segue o jogo da massificação.

POVO NÃO É BOIADA

Mas, às vezes é. Não por vontade própria, mas por comodismo e por falta de oportunidade. Povo não é boiada que se trata com gritos, com berrante ou ainda com a cachorrada, cuidando para que ninguém seja diferente, ninguém pense diferente. Os donos do poder, tanto econômico, como político e religioso, adoram boiada. Adoram dar ordens e serem obedecidos.

Não só adoram, mas exigem que o povo pense como eles pensam. É a dominação das mentes. Os comentaristas em televisão são especialistas no assunto. Tentam fazer a cabeça do povo e a fazem. Se os donos do poder querem fazer com que o povo pense que os sem-terra são desordeiros e guerrilheiros, vão tocando tanto no assunto, que a massa vai pensar contra eles. Até o miserável que vive de salário mínimo fica pensando com a cabeça dos barrigudos do poder.

POVO É GENTE

É criatura livre. É individualidade. Cada ser humano é único. É diferente. É dono de seu destino. De sua vida. O trabalho dos que dirigem o povo é esse. Não é massificar, mas conduzir para a liberdade, para que cada um tome na sua mão sua história e seu destino. E para isso não é necessário estudar muito, mas levar à reflexão, ao exercício da liberdade. E somente se chega a um povo livre com a organização do povo. Organização em associações, grupos, comunidades, partidos militantes, sindicatos e toda forma de as pessoas se encontrarem e discutirem seu próprio destino.

POVO É DONO DE SUA HISTÓRIA

É fazedor de sua história. É alguém que não nasceu para obedecer somente, mas para determinar sua vida. Fazer história é marcar sua passagem na sociedade, na humanidade com suas idéias, seu fazer, seus sonhos, sua participação ativa. Comandar um povo livre é sempre mais difícil, porque ninguém obedece por obedecer. Quer uma razão de sua obediência. É necessário trocar povomassa em povo-gente. Povo-cabeça.

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