Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Drogas

SONHO OU PESADELO?

Ao longo de sua história, ao explorar a natureza, a humanidade foi descobrindo uma grande variedade de substâncias vegetais que, adequadamente preparadas, podem provocar sensações agradáveis ou suprimir dores e angústias.

Nesse sentido, o ser humano tem usado substâncias entorpecentes para várias finalidades. Como artifício para lidar com o próprio corpo (contra a insônia, a depressão...), favorecer a sociabilidade (o álcool), ou propiciar experiências religiosas (a ayahuasca, bebida usada por certos povos amazônicos).

De fato, elas podem ajudar a realizar sonhos legítimos, atenuando seus efeitos nocivos por médicos ou pelo próprio grupo ou ritual.
O problema aparece quando o consumo foge ao controle social, devido à sua exploração comercial, tornando-as um drama para a convivência humana.

Quando as drogas tornam-se acessíveis a qualquer pessoa (até a crianças e adolescentes), rompe-se o equilíbrio do consumo socialmente controlado, e os danos aumentam e podem ser mortíferos. Nesse caso, as drogas não ajudam a realizar sonhos, antes transformam a vida num trágico pesadelo.

PARTINDO DA EXPERIÊNCIA

Quando se fala em drogas, pensamos saber de que se trata. Temos geralmente um conhecimento prático devido a algum caso de drogas ocorrido na própria família, na vizinhança ou com amigos.

Já conhecemos alguém viciado em cigarro que não consegue dormir direito, outro com a saúde em frangalhos por causa da bebida, alguém sem capacidade para trabalhar por causa da maconha ou vivendo na marginalidade por causa da cocaína ou do tráfico.

Além disso, muita coisa se sabe por jornais, rádio e TV. A mídia alerta contra os males e perigos das drogas, mas, ao mesmo tempo, estimula seu uso por meio de filmes, reportagens e matérias nas quais o consumo de drogas parece comportamento normal a ser imitado por quem queira identificar-se com as personalidades da moda.

Precisamos desconfiar do que já pensamos saber por experiência vivida ou pelos meios de comunicação, para então indagarmos mais seriamente sobre o tema.

A indagação pode começar de um fato cotidiano: muitas pessoas adultas, quando têm nas mãos uma garrafa de bebida alcoólica, se contentam com alguns goles. Nesse caso, mesmo sendo uma droga perigosa, o álcool não lhe faz tanto mal. Já outras pessoas, se tomam um trago não conseguem mais parar e se embebedam. Vemos que a mesma substância provoca efeitos diferentes conforme as condições da pessoa que a ingere.

O problema da droga deve, portanto, ser visto dentro do contexto sócio-cultural e das condições físicas e psíquicas que envolvem seu consumo.

O SISTEMA DAS DROGAS

No “Sistema das drogas” (relações entre produtores, intermediários e consumidores), o elemento mais visível é o usuário. Quando a pessoa atinge alto grau de comprometimento no uso da droga, pode ter sua vida praticamente arruinada. Salvo exceções, o usuário não tem acesso à droga se ela não lhe for oferecida ou vendida por alguém que age como intermediário entre a produção e o consumo.

O intermediário pode ter uma ocupação lícita (quem vende cigarro, bebida ou produtos farmacêuticos) ou ilícita (narcotraficante, farmácia que vende anfetaminas e estimulantes sem prescrição médica, ou quem vende cola de sapateiro a crianças).

A relação entre usuário e intermediário tem sido alvo mais freqüente da repressão. No caso das drogas ilícitas, essa atividade repressiva engloba desde o grande traficante que controla todo o sistema, até o “avião” que faz a entrega ao usuário.

TODOS SOMOS AFETADOS

De nosso país, até nosso bairro ou edifício, estamos conectados a esse vasto sistema das drogas. Além do “mundo das drogas”, freqüentado por marginais e pessoas desclassificadas, são muitos os fios de conexão entre o sistema das drogas e a sociedade em geral.

Essas conexões ficam mais claras quando se levam em conta todas as conseqüências diretas e indiretas do tráfico e do consumo de drogas. Quantas pessoas que nunca consumiram drogas são assaltados por gente drogada, que rouba para comprar drogas? Quantos sofrem acidente de trânsito por causa de motoristas embriagados? E a lista poderia ir longe.

O sistema das drogas causa muito mais vítimas do que parece à primeira vista.

RESPONSABILIDADE DE TODOS

Isso nos obriga a rever certas atitudes simplistas que reduzem o problema a uma questão individual, fechando os olhos para a complexidade do tema e limitando-se a propor terapias de recuperação.

Nunca é demais lembrar os estragos feitos pelo narcotráfico, sobretudo nas periferias, pensar nos gastos públicos com o tratamento de saúde dos fumantes, ou ainda no custo social do alcoolismo e tudo o que ele acarreta: acidentes de trânsito, desemprego, brigas e mortes, desmanche familiar... e há ainda o vírus HIV entre usuários de drogas injetáveis, o aumento da violência e a extensão do crime organizado a quase todas as esferas da sociedade.

Se é certo que a terapia é indispensável, importa também considerar outras ações possíveis contra o sistema das drogas, dentro do espírito de responsabilidade compartilhada.

Diante da magnitude do sistema das drogas, hoje, a necessidade de compartilhar as responsabilidades se tornou mundial, pois nenhum país é capaz de impedir sua expansão sem a colaboração de outros.

PROPORÇÕES ASTRONÔMICAS

Os dados mostram que, apesar dos esforços feitos até agora, o consumo das drogas vem atingindo formas e proporções cada vez mais preocupantes. Mas é preciso ir além dos fatos, precisamos procurar as causas e atacá-las.

O consumo abusivo de drogas não deve ser visto apenas como resultado de patologias individuais, mas como um fato social. E aqui está um grande indicativo de causa: uma sociedade como a nossa, cada vez mais pragmática, insensível, competitiva, consumista e individualista, é uma sociedade que favorece o uso de drogas.

Ela gerou um mundo onde a existência cotidiana se tornou tão árdua e tão vazia de sentido, que os tóxicos funcionam como “amortecedores” nas relações do ser humano consigo mesmo e com o mundo. Há quem use a expressão “civilização química”, para falar desta sociedade destituída de sentido verdadeiro para a vida humana.

Valores como a amizade, a solidariedade, a busca do bem comum tornam-se “caretas”, ultrapassados. A via longa, reflexiva, dialógica e comprometida é substituída pelo caminho fácil da satisfação individual. O compromisso de vida dá lugar ao evento instantâneo. O sentimento dá lugar à sensação.

A sensação de vazio e de infelicidade é o resultado dessa experiência sem profundidade afetiva, sem carinho e sem diálogo. A existência perde o tempero e o brilho, abrindo o caminho para a busca ilusória do prazer imediato. Mas este só faz aumentar a desilusão, o vazio e a infelicidade.

Daí a depressão, as despesas com infindáveis tratamentos e o recurso ao artifício das drogas, com todas as suas trágicas conseqüências. Mas não haverá droga suficiente para preencher esse poço sem fundo. Ao contrário, quanto mais drogas, mais ele se aprofunda, até à destruição total da pessoa.

ALGUMAS DROGAS E SEUS EFEITOS

As drogas podem ser classificadas como depressoras, estimuladoras ou perturbadoras. A seguir estão as mais freqüentes no Brasil:

Depressoras

Álcool: é uma droga lícita e seu uso é socialmente estimulado. Seus efeitos sobre o comportamento dependem da quantidade ingerida. O álcool provoca diversos problemas de saúde, como a gastrite, a cirrose hepática, dormência nas pernas.

Inalantes ou Solvente: são produtos usados em atividades industriais (cola de sapateiro), comerciais e domésticas.

Os inalantes evaporam à temperatura ambiente e podem ser “cheirados”. Têm propriedades anestesiantes e tranqüilizantes; induzem à euforia e ao delírio, provocam a sensação de desequilíbrio. São tóxicos para o sistema nervoso, fígado e coração. A longo prazo, provocam também perda de peso e lesões no cérebro.

Estimulantes

Anfetamina e ou “bolinhas”: obtidas em laboratório, são produtos sintéticos. Podem ser comprimidos ou injetáveis. São drogas ilícitas, exceto para uso médico. Estão contidas nos moderadores de apetite. Trazem sensação semelhante à da cocaína. Após os efeitos, surgem angústia, pânico, medo, idéias de perseguição, cansaço intenso, depressão, perda de apetite, suor, irritação de pele, entre outras.

Cocaína: é um dos mais potentes excitantes do sistema nervoso central. Em estado natural, a coca da região dos Andes é mascada para disfarçar a fadiga, a fome e a sede. Quimicamente potencializada, a coca torna-se um pó branco capaz de estimular o estado de alerta, reduzir o sono e acelerar o pensamento. Seu uso pode causar lesões no septo nasal, alteração do ritmo cardíaco, provocando taquicardia e palpitações. Seu uso continuado provoca graves danos à pessoa.

Crack: é o nome dado à cocaína transformada por meio de soda cáustica ou bicarbonato de sódio, para se tornar própria para fumar. Cria dependência com muita facilidade. Inicialmente, o usuário tem a sensação de confiança em si mesmo, de poder e excitação. Após seu uso, segue-se um período de depressão, paranóia e outros sintomas. A pessoa pode tornar-se violenta e suicida em potencial. É conhecida como a “droga da morte”.

Nicotina: aspirada pelo fumo do tabaco, causa inúmeros malefícios cardiológicos e respiratórios. A nicotina produz dependência física. A condição de droga lícita favorece seu uso, embora já tenha sido citada como causadora de 24 doenças.

Perturbadoras

Maconha: é o nome popular de um arbusto de origem asiática. Suas folhas secas são transformadas em cigarro: o “baseado”. A longo prazo e intensamente usada, provoca o aumento do apetite, transpiração excessiva, tremores e ansiedades, aumento dos batimentos cardíacos e estados alterados de consciência.

Ecstasy: droga sintética, é uma mistura de anfetamina e alucinógenos, feita em laboratório e consumida em forma de comprimido ou pílula.Deixa a pessoa extremamente excitada, provoca euforia e desejo de contato físico. Passado o efeito, a pessoa sente náuseas, pânico, cansaço e fadiga. Em usuários crônicos, pode provocar depressão, demência e delírio.

AÇÃO SOLIDÁRIA

Sem ignorar nem desprestigiar qualquer trabalho neste campo, a Campanha da Fraternidade quer intervir na realidade reconhecendo que a droga não é o principal problema do tóxico-dependente e, sim, a falta de sentido positivo da vida. Para qualquer forma de intervenção, nunca podemos esquecer o cenário mais amplo.

As ações que forem sendo assumidas devem ser resultado de uma reflexão ampla que vai do âmbito pessoal às políticas públicas. Reflexão que passa pela exigência de mudança de posturas pessoais, com gestos de resistência à mentalidade consumista, até à transformação de estruturas marcadas por uma economia de mercado que visa mais ao lucro do que à qualidade de vida das pessoas e da sociedade.

Uma das ações possíveis e importantes é a implantação da Pastoral da Sobriedade, que atua em cinco frentes de trabalho:

1.º Prevenção: dirigida ao público que nunca experimentou drogas e àqueles que já as experimentaram, sem, entretanto, terem se habituado ao uso.

2.º Intervenção: atua junto ao público que já se iniciou no uso de drogas, faz uso dela com alguma freqüência, mas ainda não se tornou uma vítima crônica.

3.º Recuperação: oferece atendimento aos usuários de droga, em que já se instalou a dependência química, física ou psicológica.

4.º Reinserção social: auxilia os que passaram por um tratamento, nos desafios que enfrentam em seu dia-a-dia.

5.º Atuação política: desenvolve reflexões e atividades junto aos organismos que atuam na sociedade (Conselhos, fóruns...), defendendo sempre uma política “antidrogas” que seja eficaz, prática e que gere vida.

Nunca esqueçamos que o ambiente educa quando é sadio, carregado de amizade, carinho, segurança, responsabilidade, dedicação, amor, misericórdia, fé.

No tratamento de drogados é importante possibilitar uma convivência em ambientes propícios à formação, pois é neles que se forjam personalidades livres, seguras, amorosas e solidárias. Para tal, a família, a escola, as igrejas, os diversos grupos têm uma função insubstituível.

A realidade das drogas abala muitos sonhos, transformando-os em pesadelos. O fumo, o álcool, os estimulantes, os tóxicos e entorpecentes estão mais perto de nós do que, por vezes, suspeitamos ou queremos admitir. Há um enorme exército de produtores, agentes financeiros e traficantes comandando o mundo das drogas. É muito dinheiro em jogo. É muita vida desperdiçada.

De nada adianta fugir da realidade. Ao contrário, devemos encará-la de frente para conhecer o drama das drogas em toda a sua complexidade e assim nos colocarmos em posição adequada para enfrentá-lo e superá-lo.

Fonte: Texto-Base CF/2001
Mauri L. Heerdt

O retorno à vida depois de um passado marcado por ilusões, desesperos e angústias, drogas e prostituição

PARA REFLETIR:

1.º Por que muitos procuram as drogas? Quais os efeitos? Conte alguma experiência.

2.º Fale sobre o “sistema das drogas”.

3.º Como vamos nos engajar nesta Campanha da Fraternidade?

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