Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Drogas

VIOLÊNCIA SURDA

Quando se fala em violência, uma das primeiras coisas em que pensamos é, por exemplo, no ladrão de casas e carros, no assassino sanguinário, enfim, nos inúmeros criminosos que agridem pessoas e assaltam o patrimônio alheio.

Para o estudioso Gilberto Cotrim, menos comum é pensarmos na violência institucionalizada pelos sistemas de exploração social, isto é, a violência cruel dos salários de fome, da falta de moradia, do desamparo à saúde pública, do descaso pela educação, do preconceito racial etc. Violências surdas que oprimem milhões de pessoas “sem vez” e ainda sem voz.

Temos também a violência do homem contra a natureza, provocando graves desequilíbrios ecológicos. Por fim, existe ainda a violência do homem contra si próprio, em que o suicídio figura como exemplo extremo.

Então, num sentido mais amplo, podemos dizer que a violência é uma forma de desrespeito, agressão e destruição praticadas pelo homem contra si próprio, contra outras pessoas (sociedade) ou contra a natureza. Como bem podemos perceber, violência não é apenas agressão física. Na verdade, ela engloba tudo aquilo que leva as pessoas a terem algum dano, seja temporária ou definitivamente.

A violência no Brasil é atualmente um fenômeno urbano e rural. Quem não se lembra do massacre dos camponeses de Carajás, no estado do Pará? Mas, a violência nos centros urbanos é, sem comparação, mais freqüente e cruel.

Num recente artigo, o escritor Roberto Pompeu de Toledo mostrou como a população brasileira vem sendo socializada a cometer violências ou mesmo aceitá-las como normal na vida cotidiana, apenas revoltando-se quando os fatos são mostrados e explorados pela mídia.

NÚMEROS DA VIOLÊNCIA

A violência atingiu níveis estratosféricos. Todos os dias, mais de 110 pessoas são assassinadas no Brasil. A taxa é dez vezes superior à registrada na Alemanha. Apenas em abril passado, no Estado do Rio de Janeiro, mais de 6.000 pessoas foram vítimas de lesões corporais dolosas (o agressor tinha a intenção de machucar).

Em São Paulo, o número de seqüestros pulou de doze para 307, nos últimos cinco anos – um crescimento de incríveis 2.460%!

Vejamos mais alguns dados recentes

      • 23,52 assassinatos por 100 mil habitantes no Brasil em 2000,
        50,19 assassinatos por 100 mil habitantes na Grande São Paulo em 2000;
      • 1,9% do PIB gasto com tratamento de vítimas da violência;
      • 39,2% das mortes de jovens no Brasil, em 2000, foram por homicídio;
      • 43,6% das mortes de jovens nas capitais do Brasil, em 2000, foram por homicídio.
        Em São Paulo, Rio de Janeiro e Pernambuco, os homicídios responderam por
        mais da metade das mortes de jovens em 2000;
      • 52% da população de São Paulo foi vítima de algum crime nos últimos cinco anos;
      • 37% da população de São Paulo foi vítima de algum crime em 2001.

Fontes: Fórum Metropolitano de Segurança, Secretarias Estaduais de Segurança Pública,
Organização Mundial da Saúde (OMS), Ilanud, Unesco

CIDADES CAMPEÃS
EM VIOLENCIA

HOMICÍDIOS DOLOSOS

1.º Vitória
2.º Porto Velho
3.º Cuiabá

SEQÜESTRO

1.º Recife
2.º São Paulo
3.º Palmas e Florianópolis

ROUBO DE VEÍCULOS

1.º São Paulo
2.º Rio de Janeiro
3.º Porto Alegre

ROUBO

1.º São Paulo
2.º Porto Velho
3.º Porto Alegre

ROUBO SEGUIDO DE MORTE

1.º Porto Velho e Porto Alegre
2.º Distrito Federal e Maceío
3.º Goiânia

ESTUPRO

1.º Porto Velho
2.º Goiânia
3.º Manaus

CAUSAS DA VIOLÊNCIA

Quem ou o que causa a violência? As respostas são inúmeras e divergentes, mas, a mais comum atribui a violência ao tráfico de drogas. Alguns analistas chegam a afirmar que 80% dos crimes são fruto, direta ou indiretamente, do narcotráfico.

Outros tendem a encontrar a origem da criminalidade em outros fatores, como: a miséria, injustiça social, o baixo nível de educação, a perda de valores, a baixa qualificação das forças policiais, a dissolução da família tradicional, a falta de exemplos, a impunidade, a corrupção, o inchaço das cidades pelo êxodo rural, etc.

Sobre esse assunto, uma concepção que precisa ser corrigida no Brasil é aquela que responsabiliza o pobre pela violência. É certo que um pai, vendo um filho passar fome, possa ser induzido a cometer erros. Mas daí afirmar que o pobre é um ser violento em potencial, já é forçar demais o raciocínio.

A questão é que muitos ricos não matam, mandam matar. Além disso, ainda têm um batalhão de advogados para a sua defesa, sem falar em esquemas fraudulentos com a justiça. A Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica declarou que, em 2001, 350.000 brasileiros submeteram-se a cirurgias plásticas.

O número é elevado, mas o dado espantoso diz respeito ao peso das cirurgias reparadoras que, há sete anos, representavam 20% de todas as cirurgias. Ou seja, de cada dez pessoas que procuravam um profissional da plástica, duas buscavam atenuar marcas provocadas principalmente por agressão física ou acidente de carro, as oito restantes queriam investir na aparência: afinar a cintura, diminuir os culotes ou aumentar os seios com próteses de silicone.

Atualmente, as operações reparadoras correspondem a 50% do total. Infelizmente, esse aumento é reflexo de uma mazela nacional: a violência. Aumentou também o número de pacientes que procuram os hospitais para restaurar orelhas e dedos decepados, barrigas perfuradas a tiro e cortadas a faca, pés e mãos esmagados em desastres de carro, rostos desfigurados por socos violentos. “A violência no Brasil atingiu um patamar no qual já altera as estatísticas nacionais”, afirma o médico Luiz Carlos Garcia, presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica.

A REAÇÃO DA POPULAÇÃO

Percebemos que existem tantas causas, mas como atacar o problema? Quem é o principal responsável para acabar com a violência? O governo estadual que, pela Constituição de 1988, é o responsável pela segurança pública? O município, que detém o conhecimento mais particularizado da realidade local? Ao Governo Federal que, da distante Brasília, muitas vezes pode impor as suas razões em virtude da capacidade orçamentária? Cada cidadão e cidadã brasileira? As famílias? As escolas? As religiões?

Uma sensação de impotência! Eis o que todo mundo sente quando se dá conta dessa realidade. No entanto, para os que acham que não há como reverter essa história, uma boa notícia: as pequenas atitudes que a gente tem no seu dia-a-dia já contribuem para uma mudança. Mas será que apenas isso resolve? “Claro que não, mas participar já é um começo.

É muito fácil culpar os games e a televisão e não fazer nada a respeito”, diz Débora de Mello, 18 anos, que já assinou um abaixo-assinado para exigir uma lei que ajude a desarmar a população. Ela também acha que estudar em uma sala com a marca de um tiro na janela é de tirar a concentração!

É claro que as autoridades têm que fazer sua parte. Na Inglaterra, por exemplo, a lei do desarmamento só foi aprovada depois de um massacre num jardim-de-infância. O governo entrou em ação e, hoje, quem for encontrado com uma arma pode pegar até dez anos de cadeia. Além disso, quase ninguém consegue um porte.

Outra boa reação são os projetos de arte em comunidades de baixa renda. Na Rocinha, a escola é local para aulas de break-dance. Na favela do Cantagalo, no Rio, a ONG Afro-Reggae organiza um curso de circo no espaço da escola. “Nossa presença inibe as atitudes violentas”, diz Sérgio Henrique, do Afro-Reggae.

COMO ATACAR O PROBLEMA?

Infelizmente, a convicção que se criou diante da violência é mais ou menos esta: - A violência cresceu tanto que somente armamento pesado, pena de morte... pode resolver a situação.
Se quisermos construir uma sociedade mais humana, somos convocados a pensar diferente e, conseqüentemente, agir.

Para Alexandre Guilherme Motta, o problema da impunidade, da violência policial e tantos outros passam, antes de mais nada, por uma reavaliação de valores a serem ser levada a cabo por uma maior educação da população, pela necessidade de maior inclusão social e pela “cidadanização” de todos os brasileiros.

O Brasil, hoje, só é superado em violência pela vizinha Colômbia. Lá há lutas entre traficantes num verdadeiro clima de guerra civil declarada, com baixas de parte a parte como acontece em qualquer conflito armado. Aqui, somos divididos em combatentes e não combatentes, com a polícia em meio ao fogo cruzado, quando não vítima também da ousadia dos facínoras, homicidas e ladrões. Diante desse quadro, não há dúvida, a educação precisa oportunizar meios para salvar o que puder para a geração futura.

DUAS PROPOSTAS

Crescem, em todo o Brasil, duas propostas para ajudar a resolver o problema da violência. Estamos falando da Polícia Comunitária e dos Conselhos de Segurança Comunitários.

Polícia Comunitária

A Polícia Comunitária visa proporcionar uma aproximação dos profissionais de segurança junto à comunidade onde atuam, ou seja, uma parceria entre a população e a polícia.

Baseia-se na idéia de que tanto a polícia quanto a comunidade devem trabalhar juntas para identificar, priorizar e resolver problemas, tais como crime, drogas etc., com o objetivo de melhorar a qualidade geral da vida na área.

É um policiamento mais sensível aos problemas da área, identificando os problemas da comunidade, que não precisam ser só os da criminalidade.

Apóia-se também na crença de que as soluções para os problemas atuais da comunidade exigem a participação das pessoas e da polícia para poderem explorar novas maneiras criativas de lidar com as preocupações do bairro.

Conselho de Segurança Comunitário

É um conselho formado pelas lideranças locais e regionais, oriundas dos mais variados segmentos da comunidade, para que indiquem prioridades.

O conselho faz com que as autoridades policiais concentrem seus esforços sobre os eventos que mais incomodam a vida da comunidade.

Além disso, os conselhos têm realizado, com sucesso, campanhas de informação e educação, inclusive realizando concursos em escolas e utilizando amplamente o rádio e a TV local, alcançando, com isso, resultados concretos na prevenção de infrações e acidentes.

Os conselhos têm, ainda, contribuído para corrigir, por meio de medidas criativas, fatores de insegurança sem onerar o poder público, como: deficiências de iluminação pública e pavimentação, modificações na arquitetura viária e sinalização de trânsito, limpeza e muramento de terrenos baldios, silêncio urbano, alteração nos itinerários de transporte urbano, prevenção e tratamento de dependentes de álcool e drogas, assistência a crianças e migrantes, melhoria de sinalização nas vias, entre outros.

Reféns da Violência

Depois de ter minha casa arrombada, colocamos grades, cadeados, fechaduras em todos os lugares. Meu filho de 4 anos perguntou: “Mamãe, porque nós estamos presos e os bandidos soltos?”

Eloíza Cirne, Natal, RN

Solidariedade

Eu mudei e revi meus próprios conceitos. Apadrinhei um menor carente e estou tentando, na medida do possível, dar amor, carinho e dignidade para ele. Já que, infelizmente, o governo não faz a sua parte. Eu tento fazer a minha, evitando que no futuro apareça mais um marginal nas ruas.

Cristiano Martinelli, São Paulo, SP

Com Medo

Mudei a forma de agir, de olhar um desconhecido, de sair de casa, de parar no trânsito. Vivemos com medo e sem segurança alguma. O governo é falho e parece ser cúmplice dos bandidos. Cadeia para os dois!

Hélder F. Barbosa, Gravatá, PE

Mais Lucidez

Fiquei mais lúcida do que antes. Quase que semanalmente escrevo para jornais e revistas pedindo que pressionem as autoridades que aí estão. Acredito em Deus e nunca esqueço de pedir que coloque mais coragem e bom senso nas mentes das autoridades de segurança para que enfrentem de vez o problema. E bem sabemos, que só para a morte é que não há solução.

Lucia Helena, São Paulo, SP

Guerra Civil

Vivemos uma guerra civil. A polícia quando não é corrupta, é ineficiente. Portanto, procuro proteção através da cautela e de procedimentos seguros, como sair pouco à noite, dirigir com as portas do carro travadas e os vidros fechados. A maior arma do assaltante é o fator-surpresa.

Emerson Godoy, Recife, PE

Prevenção

Para evitar a violência, não saio de casa durante a noite e quando vou a alguma festa, não passo por bairros mais perigosos. Evito sair sozinho. Não estou com paranóia, mas é melhor prevenir do que remediar.

Erick Rabello, Salvador, BA

Mudança de Hábito

O medo muda a rotina de todos. Ir para o trabalho e voltar para casa é obrigatório. Não há o que pensar. Quanto a outros compromissos noturnos, penso duas vezes. Convite para aniversário: Onde é? Por onde vou passar? Desisto.

J. Elias Maganhi, Rio de Janeiro, RJ

PARA REFLETIR

1.º Por que existe tanta violência?

2.º Quem são as maiores vítimas da violência?

3.º A população está agindo contra a violência?

4.º Como cada cidadão e ou instituição pode contribuir
para diminuir os índices de violência?

http://veja.abril.com.br/idade/palavra_leitor/refens.html

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