Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Educação

A Casa do meu Pai

Uma história verídica sobre o relacionamento de um filho com seu pai. Vale a pena você conferi-la, é emocionante.

AQUELA CASA ...

Aquele silêncio irreal que me circunda é precioso demais, não quero deixá-lo escapar. É interrompido de vez em quando pelo latir dos cachorros que, perto ou longe, demonstram a presença de desconhecidos.

Eu, na verdade, sou um estranho, embora tenha sido criado aqui. Percorro o caminho estreito que parece me reconhecer em todos os passos. Ainda está aí aquela pedra branca, praticamente coberta de espinheiros. Com um pulo salto a poça que se formou depois da chuvarada de ontem e ainda não se deixou absorver pelo terreno.

A casa de meu pai! A casa onde vivi quando criança. Aquela casa amada e também odiada. Depois de nove anos, eis-me percorrendo o mesmo caminho, que agora me parece infinito

Certamente se dirá que um rapaz de 18 anos tem pouco a recordar. Na minha mente há um redemoinho de lembranças da minha primeira infância, quando meu pai vinha me buscar todos os sábados para trazer-me aqui.

E AGORA ...

No começo ficava contente por poder ficar um pouco com ele. Depois, com o passar do tempo, comecei a sentir que já era um costume ir com ele todos os fins de semana, quase como um dever para ficarmos juntos, obrigando-me a uma vida que, na realidade, sempre mais nos afastava.

Sentia-me um peso naquela casa, quase um bibelô que existe mas que ninguém nota. Não saberia dizer se na realidade era assim mesmo, mas era assim que eu sentia meu relacionamento com ele.

E agora que estou para encontrá-lo, o que é que me dirá? Terá recebido minha longa carta? Certamente não é fácil revelar os próprios sentimentos para uma pessoa que quase não se conhece, mas a quem eu queria falar de mim, de todos aqueles anos vividos sem ele. Mas será que ele quer me encontrar? Voltavam as dúvidas, os medos que tinha procurado superar dizendo a mim mesmo que depois de tantos anos eu tinha aprendido a viver sem ele.

Volto a pensar na carta que lhe enviei e rumino em mim um pensamento que sabia de cor: "Fingia que você era indiferente comigo. Na realidade, não desejava outra coisa: que você me dedicasse um pouco de seu tempo, que fizéssemos algo juntos, não sei, lhe ajudar na oficina, construir com você uma casinha de papelão. Depois minha atitude foi mudando. Não me interessava mais chegar na sua casa. Afinal, eu tinha a mamãe para contar minhas angústias e os amigos com os quais jogar e brincar". Será que ele me entenderá?

EU ME LEMBRO ...

Quando a família ainda era unida, lembro muito bem da festa de batizado do meu primo, filho do irmão mais velho de minha mãe. Infelizmente também não esqueci das inúmeras vezes que o pai voltava para casa sempre mais tarde, à noite, comia algo depressa e depois começavam as discussões entre ele e mamãe.

Eu e Carmem, minha irmã, já deitados, procurávamos dormir, mas, quando ouvíamos suas vozes alteradas, levantávamos e íamos nos esconder atrás da cortina do corredor, perto da porta do quarto deles.

Meu coração batia muito forte, minha irmã me abraçava bem forte como se estivesse falando: Coragem!

A lembrança do que aconteceu depois é totalmente confusa dentro de mim. Não entendia porque papai tinha ido embora e muito menos porque a tia, a mãe do meu primo, foi morar com ele

Mamãe, Carmem e eu, então com nove anos, fomos morar com a vovó e depois de alguns meses veio morar conosco o tio, também ele somente com o priminho. Era o que restava de nossas duas famílias destruídas. Passaram os anos e em mim se formou uma couraça de rancor e orgulho.

Era o orgulho, na verdade, que me impedia de aceitar um fato: no fundo, eu amava meu pai e tinha necessidade de poder contar com ele, de saber que ele podia nos ajudar.

Cresci um pouco rebelde, mas também determinado a avançar na vida. Empenhei-me com tudo no estudo, queria começar a trabalhar o quanto antes, de maneira que mamãe não fosse obrigada a voltar tarde do escritório.

Começaram os primeiros problemas da minha idade: tinha a impressão de que mamãe não me entendia mais, pois não me deixava livre como a maior parte de meus amigos. Não sabia a quem me dirigir para falar de minhas coisas. Mas, o que eu não conseguia entender era que faltava meu pai, um pai!

UM PERÍODO OBSCURO!

Tinha 15 anos e atravessava um período obscuro. Foi talvez a professora de ensino religioso que se deu conta, primeiramente, desta situação em que eu me encontrava. Mas então eu tinha afirmado para mim mesmo que não desejava mais nenhum conselho dos adultos e não queria, com absoluta certeza, ouvir sermões. E ela não os fez, mas me colocou em contato com um grupo de jovens muito atuante que ela conhecia.

A minha mãe também me encorajou a participar de várias iniciativas em prol dos meninos pobres: "No fundo, o que é que você vai perder? Poderá encontrar algo interessante".

Depois de pensar muito, decidi passar alguns dias numa cidadezinha dos Focolares, movimento da Igreja católica, fazendo uma espécie de retiro espiritual. Aí, em contato com tantos jovens de vários lugares, abriram-se para mim novos horizontes. Abria-se diante de mim uma esperança para a qual viver: ajudar a fazer um mundo melhor.

E PAPAI?

A proposta de pensar em amar as pessoas me alcançou num ponto de minha vida que eu pensava ter deixado atrás. E, entre as fendas daquele lugar silencioso, veio um pensamento, que antes não deixava vir à tona: "E papai? O que será que está fazendo agora? Terá percebido minha ausência depois que recusei ir à casa dele?"

Voltando de trem se fez mais insistente a lembrança de meu pai: Como teria sido minha vida sem estes nove anos de silêncio, sem nunca ter sequer uma informação dele? Chorei!

O amigo que estava comigo não entendia minha atitude. Tínhamos saídos felizes do retiro pensando ter o mundo nas mãos. "Devo procurar meu pai - disse a ele - não posso fingir mais. Se ainda estou magoado com ele, tenho que ter pelo menos a coragem de ir cumprimentá-lo".

Meu amigo me escuta em silêncio e, depois, com simplicidade, diz: "Estarei contigo em oração neste difícil momento".

ESTOU CHEGANDO

Sem perceber, eu já estava correndo: era o último trecho do caminho! Finalmente estou diante da casa, no topo da colina. O coração bate forte, ofegante, decido tocar a campainha. É meu pai que abre. Ficamos embaraçados e emocionados. Não é mais momento de brincar de esconde-esconde com os sentimentos...

Ele chora. Olho para ele: está desarmado diante de mim. Não me assusta mais como antigamente. Os cabelos já grisalhos mostram um homem cansado.

O rancor e o ódio derretem dentro de mim. Para que serve recordar o passado? O abraço foi natural, assim como as lágrimas, os soluços, o perdão... Escuto um sussurro em meu ouvido:

Filho, este é o dia mais feliz da minha vida!

Não são necessárias muitas palavras. O importante é que nos tenhamos encontrado e conseguimos nos olhar nos olhos com amor. Experimento dentro de mim uma grande felicidade, parecida com aquela que experimentou o pai do Evangelho quando voltou o filho pródigo. Porque, naquele momento, de certa maneira, eu me senti pai do meu pai.

Caterina Ruggiu

Para Refletir

1.º Qual foi o seu sentimento ao ler esta história?

2.º Qual a mensagem que passa para a nossa vida?

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