Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Educação

O diferente na educação

A valorização das diferenças culturais e a participação social são indispensáveis para gerar um mundo mais justo. A escola é lugar privilegiado para abordar estes temas

As diferenças culturais

Sabemos que existem culturas diferentes, e que elas manifestam-se diariamente através das mais diversas formas.

Para a filósofa Marilena Chauí, é comum se ouvir e repetir expressões do tipo: "ter medo é próprio da natureza humana" e "ele é corajoso, não tem medo de nada". Ou então, "é da natureza humana chorar na tristeza" e "homem não chora". "As mulheres são naturalmente sensíveis" e assim por diante.

Essas expressões mostram claramente duas questões: uma que aponta a natureza humana como universal e igual, independente do tempo e lugar, e outra que apresenta a diferença de natureza entre homens e mulheres, pobres e ricos, brancos e negros, índios e judeus...

Os seres humanos, embora façam parte da mesma natureza humana, estão divididos em diversas categorias: homens, mulheres, ricos, pobres, índios, alemães, negros, judeus, orientais, árabes etc.

As diversas culturas, sempre em processo de mudança, diferenciam os seres humanos pela riqueza de seus valores, símbolos e regras. E isso tudo aparece e é transmitido no agir cotidiano.

Pluralidade e cidadania

Ao se falar em pluralidade cultural, não se está enfatizando apenas o estudo e o respeito ao que se costuma considerar diferente ou pertencente a outras culturas, fora do território nacional, mas as diferenças étnicas e culturais, as desigualdades sócio-econômicas, as relações sociais discriminatórias e excludentes presentes no território nacional e que compõem os diversos grupos sociais.

A cidadania pressupõe respeito à diferença, à pluralidade. Ao se exercer a cidadania, acentuam-se as diferenças, não porque se é a favor da desigualdade, mas porque se respeita a diversidade entre os indivíduos.

Cada ser humano é único, já que apresenta características que lhes são particulares. A não compreensão desta diversidade provoca atitudes discriminatórias.

O Brasil é uma sociedade plural: além das diferentes etnias que formam o povo brasileiro, há ainda imigrantes de diferentes países e as migrações internas, o que coloca em contato uma variedade enorme de características culturais.

Na escola

As diferenças que caracterizam a população brasileira estão presentes também na escola. O convívio com a diferença, desde a educação infantil, auxilia as crianças a se perceberem como sujeitos que se diferenciam pelos desejos, idéias, formas de vida... Isso ajuda a perceber que cada um faz parte de um universo mais amplo e riquíssimo de expressões.

Acolher as diferentes expressões e manifestações das crianças, significa considerar o que cada um traz dentro de si e ensinar o convívio democrático, o que não significa necessariamente ter que aderir aos valores do outro. Um projeto educativo necessita preocupar-se com estas questões.

É função da escola valorizar a diversidade na composição da identidade nacional, de modo que os alunos reconheçam o direito à diferença como constitutivo do direito à igualdade.

É preciso enfatizar que o direito à diferença não pressupõe a aceitação da desigualdade. A primeira deve ser vista como instrumento de inclusão social, enquanto que a segunda nada mais é do que a impossibilidade de acesso aos bens materiais e culturais, ou seja, um perverso mecanismo de exclusão social.

Um ano propício

Neste ano, por ocasião das celebrações dos 500 anos da chegada dos europeus ao Brasil, falar-se-á muito sobre cultura, história, raças, imigrações... Aproveitando a oportunidade, seria interessante buscar realizar alguns objetivos na escola, tais como:

1.º Conhecer a diversidade cultural brasileira para compreender sua origem e respeitar as diferenças, entendendo-as como direito dos povos e dos seres humanos;

2.º Reconhecer e evidenciar a contribuição de diversas culturas na formação da identidade nacional;

3.º Perceber hábitos e atitudes que reforçam a discriminação, o preconceito..., e desenvolver práticas de repúdio à intolerância ou discriminação social, baseada em diferença de etnia, classe social, crença religiosa, sexo, opção sexual e outras características individuais ou sociais;

4.º Denunciar qualquer violação dos Direitos Humanos, como forma de exigir respeito para si e para os outros;

5.º Compreender a desigualdade social como efeito de uma política social e econômica errada e não como natural. Mostrar que o problema deve ser assumido por todos e que é passível de transformação;

6.º Valorizar o convívio democrático e o respeito mútuo, promovendo a cultura da paz.

Educar para a participação social

As regras de convivência (do grupo, comunidade, instituição...) são históricas e culturais, em permanente processo de reelaboração.

Sendo assim, é possível ensinar e buscar formas de participação social que ajudem na construção de uma cidadania, constituídas de pessoas ativas, conscientes de seus deveres e comprometidas com a conquista dos direitos humanos. A prática participativa permite questionar os valores e os interesses que sustentam a sociedade.

Não se aprende a participar teorizando sobre os processos participativos, aprende-se sim a participar participando. Ensina-se a participar abrindo espaços para que as pessoas participem. Uma prática social participativa ensina a cidadania e amplia os limites da qualidade de vida.

Promover espaços participativos é educar para a vida. Somente assim será possível o respeito e a valorização das diferenças presentes em nosso território brasileiro. Se isso não acontecer, alguém será excluído, e esse alguém com certeza será o mais fraco. Isso é um desafio e um compromisso da escola para a formação de uma sociedade democrática, justa, igualitária e solidária.

Fonte: "Qualidade Educacional - Temas Transversais" - SENAI - Mauri L. Heerdt

Para Refletir

1.º O que é cultura?

2.º Como se manifesta as diferentes expressões culturais no Brasil?

3.º Como a pluralidade pode enriquecer e contribuir para o exercício e a concretização da cidadania?

4.º Como a escola pode trabalhar estas questões no seu cotidiano?

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