
É fácil demonstrar que muitos sofrimentos humanos são
provocados pela incompreensão. A compreensão é
antes de tudo uma atitude mental, um fruto da vontade, uma das características
mais significativas do verbo amar.
O desafio dos pais é justamente o de criar na família
uma cultura da compreensão. As relações familiares
não podem ser profundas e construtivas sem uma verdadeira compreensão.
As pessoas cometem erros com os filhos, os parentes e outros membros
da família, não porque são más, simplesmente
não fazem esforço nenhum para entendê-los verdadeiramente.
São analfabetos do coração.
É necessária uma mudança de lógica. Normalmente
se pensa que quando duas pessoas estão em desacordo, uma têm
razão e a outra não. Às vezes as duas têm
razão, cada uma de acordo com seu ponto de vista, como os dois
pardais.

Quem julga quer somente proteger-se ou colocar uma etiqueta na outra
pessoa: você é assim! O problema é que quando se
julga ou se grudam etiquetas, acaba-se interpretando tudo conforme o
próprio ponto de vista.
Se um pai pensa que o filho é preguiçoso, acaba por reagir
vendo todos os comportamentos do filho sob a visão da preguiça.
O filho, por sua vez, achará o pai sempre mais autoritário,
tirânico. Assim, o comportamento do pai encontrará resistência
sempre maior no filho, que será visto como mais uma prova da
preguiça e assim o pai redobrará críticas e atitudes
autoritárias. Pode-se tornar uma engrenagem sem fim.
Se não compreendermos verdadeiramente o outro, nunca saberemos
o que realmente é importante para ele ou ela. Cada pessoa é
única, e como tal deve ser amada. É então indispensável
procurar compreender e falar a linguagem de amor do outro.Nesse sentido,
o primeiro resultado de uma real vontade de compreensão, com
certeza, é a confiança.

O mau humor, o nervosismo, a irritação, a ira e sobretudo
a necessidade de ter razão a todo custo complicam terrivelmente
a compreensão.
A maneira mais eficaz de receber informações é
a escuta atenta. Quando estamos ocupados ou distraídos, quase
inevitavelmente OUVIMOS SEM ESCUTAR o que as pessoas estão dizendo.
Algumas pesquisas demonstraram que os pais captam só um quarto
do que os filhos dizem.
A compreensão nasce da escuta. Para escutar precisamos aprender
a traduzir. O filho não somente deve se exprimir, deve também
ter certeza que os pais o tenham entendido. Os pais devem demonstrar
que entenderam o filho mais ainda do que pode ter dito com suas palavras.
Pode-se obter isso clarificando seus pontos de vista e seus argumentos.
Quem age assim tem a concreta esperança de ter escutado o outro.
Isso significa que devemos saber escutar não somente com os ouvidos,
mas até com os olhos. É necessário dedicar tempo
para prestar plena atenção. Significa colocar temporariamente
entre parênteses preconceitos e certezas. Sentindo-se menos ameaçados,
os filhos são encorajados a se revelarem e, sentindo-se verdadeiramente
escutados, têm a prova de serem estimados pelos pais.

Em primeiro lugar, segundo o Pe. Arlindo Fávero, é acolher
as pessoas como seres humanos. Existe em cada um de nós esta
necessidade fundamental de sermos acolhidos, compreendidos, amados,
tal como somos, com nossa história pessoal, com nosso ambiente
cultural, com nossos sofrimentos e alegrias.
Escutar o outro é saber levar em conta a pessoa e seu ambiente.
Ser escutado como pessoa é uma necessidade fundamental para que
cada um de nós encontre seu equilíbrio emocional, psicológico,
espiritual.

Mas escutar não é tão fácil assim. Já
na Bíblia, no Antigo Testamento, encontramos seguidamente a expressão:
Escuta, meu Povo!
O nosso mundo, mais do que no passado, não quer escutar porque
isto não é coisa muito rentável, que dá
lucro. É cada vez mais raro encontrar nas ruas de nossa cidade
alguém que cumprimenta, que saúda com bom dia!.
Um sorriso não custa nada, mas pode mudar bastante as coisas,
e para melhor.
1. Por que dialogar não é somente falar?
2. Por que hoje é tão difícil escutar uma pessoa?
3. O primeiro resultado de uma real vontade de compreensão
é a confiança! Reflita sobre esta frase.
A ARTE DE ESCUTAR
Antes de colocar na tela seu maravilhoso quadro da Trindade,
o pintor russo André Rublev permaneceu 19 anos em silêncio.
Feita de adoração, esta dimensão de silêncio
amadureceu seu projeto.
Este recorde de silêncio foi agora batido, por outros motivos,
por um casal de Minas Gerais. Geraldo Peres e Sebastiana Cardoso
casaram há 50 anos, têm doze filhos e residem juntos.
Só que não trocam uma palavra há 35 anos.
Tudo começou quando Geraldo chegou à conclusão
de que Sebastiana falava demais e não se deixava convencer
com argumentos. Durante estes 35 anos, a vida continuou normal,
tanto que tiveram mais cinco filhos. Mas eles não se falam.
Bem que Sebastiana tentou, inutilmente, reiniciar o diálogo.
Geraldo garante que não voltará atrás, pois
sua promessa continuará até à morte. Quando
tem necessidade de comunicar alguma coisa, ele pede aos filhos
e netos que transmitam o recado.
O silêncio é de ouro, diz a sabedoria do povo. Mas
esta mesma sabedoria conhece bem o valor da palavra. São
Bento aconselhava um monge: faça silêncio, a não
ser que tenha a dizer algo mais importante que o silêncio.
E a Bíblia Sagrada lembra que há tempo para cada
coisa: tempo para falar e tempo para calar (Ecles 3,8).
Na vida conjugal, muitas vezes acontece a guerra do silêncio,
que pode durar horas ou dias. Por vezes, ambos estão desejosos
de reiniciar o diálogo, mas um falso orgulho impede isso.
Por que devo ser sempre eu a ceder, sempre eu a recomeçar
o diálogo? É sempre o cônjuge mais maduro
que reinicia. E isto é um gesto de maturidade que traz
de volta a felicidade aos dois.
Nem sempre, na vida a dois, a conversa é a mais apropriada.
Por vezes se fala muito, mas na superficialidade. Muitos sentimentos
e desejos não verbalizados permanecem desconhecidos para
o outro. Mesmo ríspido, o diálogo traz o equilíbrio
e a solução dos problemas. Uma tempestade purifica
os ares.
O afeto precisa também ser externado. Mesmo depois de 20
ou 30 anos de casados, os esposos gostam (e precisam) ouvir de
vez em quando a palavra mágica: Eu te amo. É o amor
de hoje que vale, não o amor de 30 anos atrás. É
justamente esta a frase que Sebastiana gostaria de ouvir pelo
menos uma vez antes de morrer.
Ficar 35 anos sem falar à esposa é uma atitude que
espanta. Mas, por vezes, acontece um fato também espantoso:
há maridos e mulheres que passam anos sem se ouvir um ao
outro; há casais que nunca ouvem os filhos.
Em certos lares fala-se e grita-se demais, mas é um diálogo
de surdos, todos falam mas ninguém ouve, ninguém
escuta, ninguém percebe os pontos de vista dos demais.
A arte de escutar é tão rara que há profissionais
muito bem pagos para escutar.
Dialogar não significa apenas falar. Significa também
e principalmente ouvir, escutar o outro. E neste
sentido são sábias as palavras do Eclesiaste quando
alerta que há tempo para falar e tempo para calar, tempo
para falar e tempo para ouvir. Em nossos lares, cheios de ruídos
e gritos, cada um deveria se fazer a pergunta: há quanto
tempo eu não escuto ninguém.
Aldo Colombo
|
|