Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja


Desde os tempos apostólicos, por mandato de Jesus, o batismo e a eucaristia são os sacramentos da vida cristã:

Pelo batismo o ser humano obtém a filiação divina e pela presença, nele, da Trindade, tem início o caminho de santificação e divinização.
A eucaristia é o alimento do caminho cristão para Deus e o alimento enquanto se espera o retorno do Senhor: “Vinde, Senhor Jesus!”. Com o tempo, surgiu a pergunta: como readmitir na Igreja - e na comunidade - os que foram batizados mas caíram no pecado, especialmente nos tempos de perseguição? A Igreja elabora, então, a disciplina penitencial.

O BATISMO, SACRAMENTO
DA FILIAÇÃO DIVINA E DA
INICIAÇÃO CRISTÃ

Nos tempos apostólicos, o batismo era administrado logo após a profissão de fé: anunciava-se Jesus como Senhor e Salvador e aqueles que se convenciam dessa verdade arrependiam-se de seus pecados e eram batizados (cf. At 2,41; 8,27).

O rio Jordão, onde Jesus foi batizado

O batismo de crianças é atestado a partir do século II, pois já se supunham famílias cristãs que garantissem a formação do neo-batizado.

Com o tempo, passou a ser maior o interesse pela fé cristã e também percebeu-se que alguns pediam o batismo para alguma vantagem pessoal. A Igreja, para fazer frente a esse desafio, instituiu um tempo mais longo - dois ou três anos de preparação, denominado Catecumenato. Os catecúmenos - ouvintes - deviam ser instruídos nas verdades da fé.

Aquele que ingressava no catecumenato recebia um padrinho que o acompanhava especialmente para ensinar-lhe o modo de vida cristão. Era esse padrinho que testemunhava perante o bispo se o candidato vivia como cristão, conhecia a doutrina e já podia ser batizado. Os catecúmenos participavam apenas da primeira parte da missa. Normalmente, o batismo era ministrado duas vezes ao ano: na vigília da Páscoa e de Pentecostes.

Nos primeiros tempos se batizava em águas correntes (fontes, rios, mares). Depois, nas igrejas se construíram batistérios (pequenas piscinas) onde o batizando era mergulhado. Faziam-se três imersões: ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. Para os doentes bastava uma infusão ou aspersão com água. Se um catecúmeno sofresse o martírio antes do batismo, o batismo de sangue substituía o de água.

Pelo ano 200 já se usavam outras cerimônias que lembram a celebração atual do batismo: imposição do sinal da Cruz, renúncia a Satanás, unção com o óleo, profissão de fé e a veste branca. Esta veste branca, sinal de que a pessoa foi revestida de Cristo, era usada por oito dias.

Como o batismo é o sacramento da regeneração, do perdão dos pecados, alguns catecúmenos, para evitar a vida penitencial, adiavam o batismo, para perto da morte, como fez o imperador Constantino.

A EUCARISTIA, REMÉDIO,
ALIMENTO E ESPERANÇA

É o sacramento central da Igreja e o mais antigo documento que fala de sua celebração é do ano 54-58:
1Cor 11,23-26 (cf. Mc 14,22-25; Mt 26,26-28; Lc 22,19-20).

É também chamado de Fração do Pão (At 2,42.46; Lc 24,30.34).
Inicialmente era celebrada no sábado à noite, no decorrer de uma ceia, num banquete comum recordando a ceia de Jesus.

Pelo ano 100, devido aos abusos que podiam surgir (comilança, bebedeira - cf. 1Cor 11, 20ss), foi separada do banquete e transferida para o domingo de manhã, quando normalmente os cristãos se reuniam para a instrução e a oração. Deste modo une-se - como hoje - a celebração da Palavra com a celebração da Ceia.

Algumas comunidades conservaram o banquete - ágape - separado da eucaristia, simbolizando a alegria, a fraternidade e o cuidado com os pobres.

A eucaristia era presidida pelo bispo e as outras igrejas e os doentes recebiam dele as ofertas consagradas, levadas pelos presbíteros e diáconos.

A comunhão, que Santo Inácio denomina “remédio de imortalidade”, era dada sob as duas espécies, o Pão sendo entregue na palma da mão. Havia também o costume de levar para casa o Pão consagrado para o uso diário, para os doentes, idosos e prisioneiros.

O Oriente conservou o costume de celebrar a eucaristia apenas aos domingos (dia da ressurreição) e o Ocidente, já pelo século III, a celebrava diariamente.

Se no início a Ceia era celebrada em lugares especiais de casas de família, pelo ano 200 já se atesta a construção de verdadeiros e próprios locais de culto - igrejas -, de preferência perto de cemitérios, sobre túmulos de mártires, simbolizando a união de fé entre os santos e os vivos. No aniversários dos mártires celebrava-se a eucaristia sobre seus túmulos.

Tabga: o mais antigo mosaico de Israel (séc. IV).  Ele recorda o milagre da multiplicação dos pães.

Não havia um texto fixo para a celebração, mas orientações a partir dos quais o presidente compunha as orações, escolhia salmos e leituras. A primeira oração eucarística, cujo texto possuímos, foi-nos transmitida pela Tradição Apostólica de Hipólito (+ 235) e hoje encontra-se no Missal Romano (Oração Eucarística II).

Após o ano 300, começam a surgir famílias litúrgicas, os ritos, diferentes modos de celebrar o mesmo mistério. A estrutura fundamental permanece a mesma: leituras, oferta de pão e vinho, oração eucarística, comunhão. São dezenas de formas litúrgicas, expressando diferentes preocupações teológicas e tradições doutrinais. O Oriente conservou essa riqueza litúrgica, enquanto que o Ocidente, com a preocupação pela unidade-uniformidade, preferiu a unificação basicamente em dois ritos: o latino e o de São João Crisóstomo, admitindo em Milão o rito ambrosiano e na Índia o malabárico.

Segundo Ioanes Zizioulas, teólogo oriental, a eucaristia expressa todo o mistério da Igreja, podendo ser até sua melhor definição: a Igreja é a eucaristia, pois é a comunhão com a Trindade, com os irmãos, com os santos, com a justiça, com a solidariedade, com a criação, compromisso com a construção do reino, aguardando o Reino que há de vir.

A DISCIPLINA PENITENCIAL

A Igreja antiga exigia dos fiéis uma verdadeira vida de santidade, pois se sentia comunhão de santos. A graça batismal não podia ser violada pelo pecado, havendo grande severidade para com os pecadores.

Dois problemas:

A) a Igreja pode readmitir pecadores?
B) a Igreja pode repetir a absolvição?

Quanto ao primeiro caso, sim, pois recebeu esse poder de Cristo. Quanto à repetição da penitência, a controvérsia foi muito grande e dolorosa.

Basílica de Santa Constância - Roma

Algumas igrejas achavam que os réus de pecados graves (idolatria, assassinato, apostasia, adultério) não podiam ser perdoados pela Igreja, e assim agiam.

Outras pensavam que a Igreja podia conceder o perdão apenas uma vez. Era a tendência do rigor, de manter a visibilidade de uma Igreja somente santa.

Após muita controvérsia, prevalecerá a doutrina dos bispos, segundo a qual a Igreja é uma mãe que acolhe em seu seio todos os filhos.

Esse tema da disciplina será apresentado em outra ocasião, pois envolve toda a prática da confissão comunitária ou individual.

Pe. José Artulino Besen

PARA REFLETIR

1 - O que era o Catecumenato Batismal?

2 - Como a Igreja antiga unia fé e vida na Eucaristia?

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