Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História do Brasil

500 anos: História, Fé e Cultura

21 de abril - Os europeus, guiados por Pedro Álvares Cabral, avistaram uma nova terra: o Brasil

Alguns testemunhos de autores que refletem a descoberta e a história posterior

Brasil: Além dos 500

Quando os povos indígenas olham para o passado do continente ameríndio, não enxergam somente os 500 anos do Brasil ou da América Latina, enxergam "outros quinhentos". Não olham para Atenas, Jerusalém, Roma..., mas olham, por exemplo, para Tikál, na Guatemala.

Lá encontram, no meio da selva, templos em forma de pirâmides dos povos Maya, que desde 2.500 anos a.C. deixaram seus vestígios nesta região. Entre o 4º e o 9º século d.C., no tempo áureo de sua cultura, produziram cerâmicas, esculturas, pinturas, uma escrita pictográfica (desenhos) e um calendário que até hoje atraem milhares de pessoas.

Os povos indígenas podem olhar para as culturas de Tlatilco (México, 1.000 anos a.C.), de San Augustín (Colômbia, do 600 a 1200 d.C.), para a cultura asteca de Tenochtitlan, que está na origem da cidade do México, fundada em 1.325 d.C. Mas podem olhar, também, para a arte cerâmica das grandes civilizações de Marajó, de Santarém, do Tapajós, da Amazônia brasileira. A urna funerária marajoara nos conta da fé destes povos numa vida além da morte.

Os povos indígenas podem orgulhar-se também da profunda religiosidade, espiritualidade e festividade da cultura guarani. Podem orgulhar-se dos seus xamãs e pajés, dos seus guerreiros, santos e heróis.

Reduziram a História a simples Pré-História

Para incorporar os povos indígenas ao projeto colonial, conquistadores e colonizadores destruiram as culturas destes povos e reduziram suas diferentes histórias a uma pré-história insignificante.

Para os conquistadores, a história dos povos indígenas começou com a conquista. No plano cultural, a redução da diversidade dos povos indígenas, a integração ao projeto colonial e a imitação da cultura dos conquistadores foram os caminhos impostos em troca de sobrevivência física. Muitos povos não aceitaram assentar sua vida neste tripé e foram massacrados.

Os 45 milhões de indígenas das Américas de hoje, nos perguntam sobre outros 45 milhões, vítimas de genocídio e etnocídio. No início da conquista, o continente americano foi habitado por 90 milhões indígenas. A construção da nossa identidade como nação, povo e Igreja, não pode ser pensada sem a contribuição e presença dos povos indígenas. Eles nos ajudam a rever a nossa história e redefinir conceitos e pré-conceitos, que aprendemos nos livros escolares.

Portanto, a evangelização dos povos indígenas envolve a construção de um Brasil pluricultural, onde o projeto de vida de todos, sobretudo dos pobres, é prioridade política e a razão da nossa presença eclesial e da nossa esperança.

Paulo Suess

Não temos nada a comemorar

Desabafo de um indígena contra as comemorações sobre "descoberta do Brasil"

Desde que o "homem mau" chegou como um furacão, junto com o tal de Cabral, a vida do índio se transformou numa brasa quente que queima mesmo. Já vivíamos aqui, com nossa própria língua, nossa própria forma de viver, nossa cultura, nossas rezas, nossas danças, nossas comidas.

Analisando estes 500 anos, vimos que a vida dos índios agora é muito pior do que era antes. A civilização branca pensa ter descoberto as terras, mas descobriu foi a terra-mãe, tirando dela a vida, as árvores que dão sombra e alimento, deixando sem cobertura a terra e a nós, que vivemos num descampado.

Tenho medo que com mais 500 anos esse território vire um deserto, porque, até agora, não vi um trabalho do homem moderno que possa dar continuidade ao mundo. Vi só destruição. O homem branco não quis procurar saber se o índio tem técnicas para dar continuidade ao mundo, para durar mais 500 anos.


Estamos perdendo
tudo o que havia de bom: As nossas árvores, as nossas águas saudáveis, nossa religião. Estamos perdendo nossa língua para um país que se diz civilizado, mas que não respeita as línguas do território. Esse é o país civilizado que nós temos.

Desde o início, em 1500, há um preconceito muito grande contra as nações indígenas, e esse preconceito já virou epidemia. E nós continuamos assim: vida sofrida, vida sem rumo, sem solução.

Descobriram somente a Terra

A civilização moderna precisa descobrir que aqui há outros povos. Nesses 500 anos, eles não conseguiram descobrir que há outros povos.
Está comemorando as suas belezas, as suas coisas bonitas, mas não lembra dos povos indígenas que já estavam aqui. Eu fico muito triste, como nação, como povo, em ser massacrado em meu território. Ser massacrado em meu país e, às vezes, até dentro da aldeia.

Este país era para ser melhor, um país feito de índios, negros e brancos, totalmente colorido, da cor da natureza. O homem branco faz fronteiras, estados, divisas, barreiras e ainda diz que é para melhorar a vida. Mas, continua pior.

Nós, índios, vamos manter a nossa cultura. Somos seres fortes e vamos lutar com garra, muita força, muito carinho...

Há uma história muito falada nas reuniões do homem branco, do que ele "descobria" aqui. Aí, sempre tem um companheiro mais antigo que fala "descobriu" não. Ele veio estragar o que nós "tinha" de bom. E é verdade. Não temos mais peixe, não temos mais caça, não temos mais frutas, nem nossos remédios, não temos mais nada. Estamos na miséria!

Então, eu quero contar uma pequena história do nosso território: no Mato Grosso do Sul, que teve muita floresta, muita caça, muito peixe..., hoje não existe mais quase nada. Estamos sem nada, sem madeira até para cozinhar alimentação. Nosso Mato Grosso do Sul virou deserto. Pouca terra para muito índio.

É por isso que não há nada para comemorar nos 500 anos!

Anastácio Peralta, Indígena de Caarapó

Purgatório e Degredos no Brasil

Muitas vezes falamos como se os índios e os negros fossem os únicos marginalizados na história brasileira, mas também brancos foram obrigados a vir para cá e sofreram. Vejamos um exemplo

No sentido figurativo, purgatório é a palavra que talvez melhor descreva o Brasil com o crescente sofrimento da população miserável nacional. Esse termo também sintetiza o que foi esta terra, na época da colonização, para os milhares de portugueses banidos de sua pátria e forçados a integrar a "etnia brasileira".

O termo pode parecer inadequado, porque alguns livros de história do Brasil deixam a impressão de que todos os que aqui chegaram eram criminosos postos em liberdade para desbravar o "Paraíso desconhecido". Mas, na verdade, eram enviados para cumprirem suas sentenças e, ao mesmo tempo, contribuírem para o povoamento da colônia recém-descoberta. Portanto, a palavra purgatório - assim como degredo, banimento - ajusta-se perfeitamente ao projeto expansionista português, especialmente nos séculos XVI e XVII.

Entre 1580 e 1720, cerca de 17 mil portugueses foram banidos de sua terra. Com relação aos degredados destinados ao Brasil, o número de condenados é expressivo, sobretudo nas primeiras décadas da colonização. Um documento da Câmara de São Paulo, de 1613, registra que "talvez há hoje, nesta vila, mais de 65 homiziados, não tendo ela 190 moradores". Portanto, mais de 34% da população era constituída por criminosos.

Foram analisados cerca de 4 mil processos de banimento, encontrados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa. Aproximadamente 600 veredictos determinam a extradição do réu em questão para o Brasil. Entre os degredados, mais da metade eram "cristãos novos" (judeus forçadamente "convertidos" ao catolicismo), 15% eram bígamos, 8% feiticeiros e muitos outros "criminosos" considerados heréticos por terem cometido algum delito contra a fé ou contra a moralidade.

Geraldo Pieroni

Os negros choram

Os mercadores de negros eram muito poderosos. Persistia a prática de atos abusivos, arraigada pelo costume e tolerada pelo compadresco de autoridades subalternas. Seres humanos permaneciam presos ao tronco e sujeitos à disciplina do chicote e da palmatória. Eram açoitados até mesmo em público, no pelourinho. Freqüentemente, essa pena conduzia à morte.


As condições de vida dos escravos eram as mais miseráveis possíveis. Legiões de homens e mulheres continuavam à mercê de desumanos senhores, mestres em perversidade e corrupção.


A mulher negra tem sido particularmente discriminada e marginalizada desde a Colônia até os nossos dias. Foi escrava, reprodutora, objeto de prazer dos senhores e explorada nos trabalhos domésticos, agrícolas e artesanais. Sem nenhuma conquista social, passou de ex-escrava a mal-assalariada, da cozinha da sinhá a cozinheira de madame, da senzala à favela, de ama de leite a mãe solteira.


Nenhum outro segmento da população viveu tamanha desestruturação psicológica e social ao longo da história como o grupo feminino negro.


No Brasil contemporâneo, as mulheres negras formam o maior contingente da população favelada e das mal remuneradas domésticas e operárias urbanas ou camponesas. Imenso número delas é relegado ao subemprego e, muitas, obrigadas à prostituição. Elas continuam sendo as vítimas mais freqüentes dos estupros, espancamentos e de outras tantas violências.


Elas sofrem uma tríplice discriminação: enquanto mulheres, enquanto pobres e enquanto negras.

Antônio Aparecido da Silva

Precisamos construir o futuro: outros 500

Caminhando pelas estradas do Brasil, vemos os frutos amargos destes 500 anos. Famílias desapropriadas e morando em barracos, analfabetismo, saúde precária, desemprego...


No entanto, não falta quem lute por mais vida. São grupos de mulheres, movimentos de indígenas, afro-ameríndios, crianças de rua, sem-terra buscando seus direitos... Todos eles unidos num povo novo, cheio de utopia e certeza da vitória. Está na hora de mudar o curso da história: o Brasil que queremos, são outros quinhentos.


Somos mais de 160 milhões de habitantes e um dos maiores países do mundo em território.
Somos, também, uma das maiores economias do mundo. Podemos celebrar muitas conquistas sociais, mas, por outro lado, persistem grandes desafios econômicos que, cada vez mais, se agigantam à medida que a nação cresce.

É o momento de todos entenderem o dever de assumir a História desse país. A liberdade, a fraternidade, a justiça e a paz devem ser conquistas e não presentes. Lembrando o passado de lutas e de glórias de um povo sofrido e muitas vezes esquecido, queremos nos voltar para o futuro a ser construido, baseando-nos em nossas melhores tradições e nos imperecíveis valores evangélicos do amor e da justiça.


Pe. Antônio Bogaz e Pe. Arlindo

Para Refletir

1.º Completam-se 500 anos da chegada dos portugueses: Foi um encontro de civilizações ou um domínio cultural?

2.º Quais os personagens que mais se destacam na história do Brasil?

3.º Quais os principais pontos positivos e negativos presentes na história da colonização e evangelização do Brasil?

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