Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja no Brasil
|
A ação profética desencadeada na Conferência do episcopado latino-americano em Medellín (1968) foi confirmada na Conferência de Puebla (1979). Se, em 1968, os bispos contaram com a presença estimulante de Paulo VI, que lhes recordava a pobreza do continente, em 1979 tiveram a participação de João Paulo II, eleito no ano anterior. Vindo da Polônia, país de ditadura comunista, o novo Papa tinha o compromisso com os pobres, mas também estava marcado pela preocupação com possíveis influências marxistas na teologia latino-americana, o que não impediu o trabalho eclesial profético, escolhendo como alvos preferenciais os pobres, os jovens e as famílias.
A teologia latino-americana do século 20 se encaminhou para uma reflexão mais profunda da realidade, da política, e levou à conclusão de que uma política cristã não se sustentaria sem um compromisso bíblico-cristão com a mudança de estruturas humanas opressoras. Em 1971, o padre peruano Gustavo Gutiérrez publicou sua obra clássica: Teologia da Libertação. Foi importante que a teologia tenha redescoberto o Deus Pai de Jesus Cristo como o Deus da Aliança com os marginalizados e desclassificados pela sociedade. Um retorno ao cristianismo da misericórdia, não apenas da assistência pela esmola, mas do compromisso com a superação das desigualdades sociais. A reflexão brasileira foi aprofundada especialmente por Hugo Assmann, Frei Carlos Mesters, Rubem Alves, Frei Beto, Pe. José Comblin e os irmãos freis Leonardo e Clodovis Boff, franciscano e servita, respectivamente.
A Teologia da Libertação não se reduziu à dimensão política, acusação que lhe foi feita, mas oferecia uma nova espiritualidade para o engajamento paroquial, comunitário e religioso. Apesar de seu aparente enfraquecimento, a Teologia da Libertação transformou a Igreja brasileira: é difícil encontrar um autêntico líder cristão que não analise a sociedade a partir da dimensão de justiça, mesmo que nada tenha lido de Teologia. Cumpre ressaltar que, mais do que a reflexão teórica, teve peso a ação pastoral profética dos bispos e agentes de pastoral comprometidos.
As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) são um espaço de vivência comunitária da fé, que possibilita a afirmação da cidadania dos pobres como sujeitos sociais e eclesiais. São a grande novidade pastoral da Igreja brasileira e conclusão do processo de surgimento de uma Igreja dos pobres. A Conferência episcopal de Puebla (1979) realçou o amor preferencial da Igreja pelo povo simples e insistiu que as CEBs ajudam a Igreja a descobrir o potencial evangelizador dos pobres. As CEBs têm um compromisso político, mas a partir da fé cristã. São tipicamente leigas, revivendo a grande tradição do catolicismo leigo brasileiro das irmandades. São novas irmandades, unidas pelo empenho comunitário em busca do trabalho, da saúde, da escola, da catequese, da eucaristia. As CEBs não caíram do céu, mas foram preparadas por experiências pastorais pioneiras a Catequese popular de Barra do Piraí-RJ, o Movimento de Natal-RN, a experiência de Nízia Floresta-RN e a opção popular da Igreja de Crateús-CE. Em 1956, o bispo de Barra do Piraí, Dom Agnello Rossi, preocupado com a difusão do protestantismo e com carência de padres e religiosos, formou centenas de catequistas leigos que, após alfabetizados e treinados, recebiam materiais catequéticos que explicavam em suas comunidades. Reuniam o povo para a leitura bíblica, cânticos e orações. Foi uma primeira experiência de valorização da capacidade dos leigos. O Movimento de Natal foi impulsionado por Dom Eugênio Salles, em 1958, e foi a primeira experiência brasileira de escolas radiofônicas de educação de base. Por volta de 1963, havia cerca de 1.410 escolas radiofônicas em Natal, atingindo 24 mil alunos em 50 municípios. A educação levava em conta aspectos sociais, comunitários, religiosos e de conscientização política. Em 1963, quatro Irmãs Missionárias de Jesus Crucificado assumiram a paróquia de Nízia Floresta-RN: preocuparam-se com a animação comunitária e a formação de lideranças. Dom Antônio Fragoso, bispo da diocese cearense de Crateús, fez uma opção clara de dar voz e vez ao povo pobre. Fermentou uma Igreja pobre, sem outros meios que a fé e a união popular. Juntamente com o trabalho da Ação Católica, estas experiências, depois assumidas pela CNBB, foram espalhadas pelo Brasil, e contribuíram para o surgimento de lideranças leigas, de modo especial onde era crônica a carência de sacerdotes.
Em 1977, o regime militar iniciou o processo de redemocratização, completado em 1984. Em 1989, na primeira eleição direta desde 1960, despontava como favorito o líder sindical Luiz Inácio Lula da Silva. Apavorado com a perspectiva de sua vitória, o sistema político e econômico conservador fabricou um candidato sob medida: jovem, bonito e com o título de caçador de marajás, Fernando Collor de Melo. No entanto, revelou-se o presidente mais corrupto da história brasileira. Em 1994 foi eleito e reeleito em 1998 - Fernando Henrique Cardoso, que garantiu a estabilidade da moeda, o Real, mas com imenso custo social, com desemprego, recessão, arrocho salarial e barganha financeira com membros de um Congresso Nacional pouco comprometido com os problemas do país. A Igreja procurou enfrentar esse fatalismo político promovendo o Grito dos Excluídos no 7 de setembro, as Semanas Sociais, as Campanhas da Fraternidade com o tema dos Excluídos, dos Desempregados, a coleta de assinaturas para um projeto político contra a corrupção...
Se, no período da ditadura, a voz da Igreja estava presente em todas as circunstâncias, sua presença mudou com a democracia. Não porque ela tenha renunciado a seu ministério de presença social e política, mas porque a democracia tem canais próprios de expressar suas reivindicações: partidos, sindicatos, associações profissionais, movimentos populares, incluindo a Igreja. Essa não é a soma de seus bispos e padres, mas o povo de Deus. Onde um cristão atua, ali está a força eclesial.
O trabalho de conscientização política, as Comunidades Eclesiais de Base, a Teologia da Libertação, deram origem a grandes forças renovadoras da vida social, até na militância político-partidária. A Comissão de Pastoral da Terra (CPT) pode ser citada como exemplo. Ela contribuiu para a conscientização dos direitos do trabalhador rural e da necessidade da reforma agrária. Seus dados demonstram que, em 1997, 500 mil pessoas estiveram envolvidas em conflitos no campo, sendo 30 delas assassinadas. É evidente, também, que há um certo desânimo, agravado pelo colapso dos regimes socialistas do leste europeu em 1989. As três derrotas de Lula, a crise econômica, o cerco da política liberal, as promessas nunca cumpridas, fizeram com que muitos desacreditassem da democracia. Ela prometia mais esperança, mas com ela a vida passou a ser mais cansativa, tal a preocupação com a sobrevivência. Isso contribuiu para a desmotivação ara a luta, o trabalho comunitário, a participação em greves e mobilizações dos sindicatos. Do Livro: Brasil: 500 Anos de Evangelização (Pe. José A. Besen) Adquira este livro usando o CUPOM Para Refletir
|
Visite as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]