Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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Jesus Cristo não elaborou um discurso teológico, mas serviu-se de uma linguagem vitalmente religiosa. Sua pessoa e vida, suas palavras singelas e atitudes constituíram o centro de sua mensagem. Foi só após a ressurreição que os apóstolos passaram a anunciá-lo. Paulo e João, os dois primeiros teólogos cristãos, apresentaram, de modo mais sistemático, o ensinamento sobre Deus e sobre Cristo. João, já em seu tempo, deparou-se com os docetistas. Eles julgavam que Cristo tinha uma humanidade apenas aparente, que era Deus que nele se disfarçava, não tendo um corpo real. Contra eles, João afirma a humanidade real do Senhor: Anunciamos o que nossas mãos têm apalpado (cf. 1Jo 1,1-4). Paulo, por sua vez, teve que enfrentar os judaizantes. Eles afirmavam ser necessário, para quem se tornava cristão, seguir as práticas morais judaicas e, portanto, tornar-se judeu antes de ser cristão. Paulo responderá defendendo a liberdade dos filhos de Deus frente à lei (cf. Rm 1,16-17).
Através de suas palavras, Jesus testemunhou a verdade sobre Ele, o Pai e o Espírito Santo. No entanto, durante os séculos de perseguições, a Igreja não teve ocasião e nem condições de refletir sobre a verdade do Deus Trindade, que podemos assim sintetizar: Um só Deus: Pai = Deus; Filho = Deus; Espírito Santo = Deus. No século IV, com a liberdade religiosa, houve condições e necessidade de uma formulação teológica clara, sob pena de se destruir a alma da revelação cristã: o Deus Trindade. Diante da imprecisa formulação teológica, apesar da boa vontade, vai-se caindo em algumas heresias. A heresia (= escolha) não sempre é um erro total, mas peca pela escolha de apenas uma parte da verdade. Por exemplo: afirmar que Cristo é Deus é verdade, mas é heresia dizer que é somente Deus e não Homem.
Monarquianos: há uma hierarquia na Trindade, tendo o Pai mais completa substância divina e mais poder. Modalistas: o Filho é apenas um modo, uma forma diversa de aparição do Pai. Patripassianistas: foi o Pai, disfarçado em filho, que morreu na cruz. Dinamistas: O Filho não é uma encarnação divina, mas sim uma potência do Pai. Arianistas: Cristo não é
nascido de Deus, mas é a primeira criatura que Deus fez do nada. Pneumatômacos: reconheciam a divindade do Filho, mas negavam a do Espírito Santo Diante destes problemas que atingiam a essência do Deus cristão, a Igreja serviu-se do trabalho teológico de grandes bispos, monges e teólogos. Com isso, a Igreja buscou afirmar, para todo o corpo eclesial, a mesma fé.
Os Pais da Igreja (Santos Padres), como os santos: Atanásio, Basílio de Cesaréia, Gregório de Nissa, Gregório de Nazianzo, Cirilo de Alexandria e outros, colocaram-se na defesa intransigente da fé ortodoxa, defendendo a divindade do Filho e do Espírito Santo. Seu trabalho e influência garantiram a unidade da Igreja. Para um assunto tão importante, a Igreja convocou grandes assembléias conciliares, os chamados Concílios Ecumênicos, aos quais participavam todos os bispos.
Em 325 foi convocado um Concílio Ecumênico na cidade de Nicéia. O imperador Constantino ofereceu o transporte e a hospedagem aos bispos, pois tinha grande interesse na unidade da Igreja que, para ele, significava a unidade do Império. A maioria dos bispos veio do Oriente, o que vale para os quatro primeiros Concílios. Motivo: facilidade de participação e maior interesse teológico da parte oriental. O Papa enviava representantes. Iluminado pelo Espírito e esclarecido pelos grandes Pais da Igreja, o Concílio definiu Jesus Cristo como verdadeiro Deus, da mesma substância (homoúsios) divina que o Pai.
A unidade divina estava assim definida: um Deus e três Pessoas divinas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Permanecia outro problema, cristológico: Jesus Cristo é Deus e é Homem. Como afirmar as duas naturezas sem enfraquecer a divindade ou a humanidade? Sobre isso temos duas grandes heresias: Nestorianismo: Jesus Cristo consta de duas pessoas: a segunda Pessoa divina e o Homem Jesus. Quebrando a unidade do Redentor, afirma que a união do Homem e do Filho é como a de dois pedaços de madeira amarrados: há apenas conjunção, não união. Deste modo, nega a encarnação do Filho, pois o Homem Jesus não é divino e, portanto, Maria não é Mãe de Deus, mas apenas do Homem Jesus. Monofisimo: querendo afirmar a real união das duas naturezas em Jesus, a divina e a humana, conclui que a união é tão íntima que Jesus tem apenas uma natureza (= monofisis), a divina, que absorve a natureza humana.
Reunidos na cidade de Éfeso, em 431, os bispos condenaram o nestorianismo, afirmando que Jesus tem duas naturezas perfeitas, a divina e a humana, unidas numa única Pessoa divina e, portanto, Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos), pois não se podem separar em Jesus o divino e o humano (união hipostática).
A carta foi lida na assembléia conciliar e entusiasticamente aclamada (Pedro falou pela boca de Leão). Tendo sido aprovada, definiu que no Filho há uma só Pessoa (divina) e duas naturezas (divina e humana) perfeitas, sem mistura nem divisão. Os quatro primeiros Concílios Ecumênicos são fundamentais para a fé cristã, pois, a partir deles, foi completado o Símbolo da Fé, o Credo niceno-constantinopolitano: o Deus de Jesus é a Trindade, e o Filho de Deus é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem.
Nem todos os bispos aceitaram a condenação do nestorianismo e, ao voltarem às suas ovelhas, formaram Igrejas fora da unidade. Isso aconteceu: na Índia, Pérsia e norte da Arábia. Apesar da clareza doutrinal de Calcedônia, o monofisismo formou Igrejas separadas nos patriarcados de Alexandria, Antioquia, constituindo hoje Igrejas vivas e heróicas no Egito (os coptas), Etiópia e Síria. Problema de linguagem. O diálogo teológico atual, ecumênico, revela que as controvérsias doutrinais foram muito mais um problema de linguagem que de conteúdo. Quando um grego e um romano falavam de pessoa, o alexandrino entendia natureza, e surgia a controvérsia. Prova disso é que a Igreja de Roma hoje mantém unidade doutrinal com os monofisitas, tendo Paulo VI e o patriarca copta do Egito recitando juntos o Credo. A fé é a mesma, a linguagem é que é problemática para expressar as verdades sobre Deus. Componente política. Os patriarcados de Alexandria e Antioquia se sentiam oprimidos pela arrogância religiosa e política de Constantinopla. Para eles, pensar diferente era questão de dignidade e liberdade. Os monges e o povo. Também não deve ser esquecida
a participação dos monges e do povo nas controvérsias
doutrinais e Diferentemente dos ocidentais, os orientais vibravam com as questões teológicas e, para defender a verdade, achavam válida uma boa briga. Pe. José A. Besen |
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