Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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OS BISPOS - PAIS DOS POBRES O período da história da lgreja conhecido como Idade Média (do século VI ao XIV) assistiu a um grande desenvolvimento cultural e religioso. Mas o quadro se reveste de sombras: as conversões dos povos bárbaros tinham sido superficiais e, após um período de fervor cristão, retorna a violência tribal e, na violência, os pobres são sempre as vítimas. Os pobres podem ser classificados em duas categorias:
Surgem, depois, outras categorias:
A isso, soma-se a situação da agricultura medieval, totalmente dependente das condições climáticas: se o inverno fosse longo, faltavam pastagens e morriam os animais; com verão tórrido, secavam os cereais; se o verão fosse muito chuvoso, murchavam. Toda má colheita provocava insuportáveis carestias, com fome e violência. Os preços subiam na especulação, provocando as vítimas de sempre. For isso, existiam as epidemias que periodicamente ceifavam a população. Os pobres, mesmo possuidores de terras, eram vitimas dos senhores e das milícias armadas. Frente a essa situação, reis e príncipes tomaram consciência de seu dever comum de ajudar os pobres. O bispo, pai dos pobres Os dois primeiros séculos da caridade medieval (VI e VII) foram chamados de a "idade dos bispos". Os bispos receberam o título honroso de "defensor da cidade e pai dos pobres". O empenho foi generalizado. Diversos Concílios (Orleans-511, Tours-567, Lião-583, Mâcon-585), obrigaram todos os bispos e fiéis a acolher e defender os pobres. Alguns bispos deixavam sempre abertas as portas de sua residência. Muitas vezes, eIes próprios distribuíam alimento e vestuário à "clientela". Em algumas cidades, para saber onde residia o bispo, bastava olhar onde
se Após uma epidemia, veja as palavras doloridas e paternas de São Gregório de Tours: "Nós perdemos as crianças que nos eram tão doces e queridas, que tínhamos aquecido em nosso peito, carregadas em nossos braços e alimentadas com nossas próprias mãos". Ternura de um pastor, pai dos pobres. Os bispos, seguindo o costume assumido diante das invasões bárbaras,codificaram como lei a prática da caridade. Santo Exupério, bispo de Tolouse,vendeu os vasos sagrados da igreja para alimentar os pobres. Para a missa, usava vasos de vidro. Tornou-se comum a prática de destinar aos pobres os bens da Igreja: "Os bens da Igreja nada mais são do que os votos dos Fiéis,o resgate dos pecados e o patrimônio dos pobres. Aquilo que a Igreja possui, o possui em comum com todos aqueles que não têm nada". O Concilio de Orleans prescreveu aos bispos destinar aos necessitados um quarto de suas rendas. Quem não o fizesse era chamado de "assassino dos pobres". Chegava-se a ameaçar com a deposição do cargo episcopal quem guardasse para si o que era dos pobres. Se o bispo era chamado de "pai dos pobres", sua caça era a "casa dos pobres". Dizier, bispo de Verdun, endividava-se para socorrê-los. O papa Gregório Magno mantinha a "mesa dos pobres". Todos os dias recebia doze pobres, servindo-os e comendo com eles. A Igreja era o "grande celeiro dos pobres". Mas, como podia conduzir essa obra de caridade? Os cristãos, percebendo na Igreja o empenho pela assistência social, fizeram doações significativas. Exortados para fazer testamentos garantindo tesouros no céu, respondiam generosamente. Eram criticados os que faziam testamento em nome de parentes e não em nome da Igreja. Todas essas doações e dízimos fizeram com que a partir do século VIII os bispos e mosteiros detivessem grande fatia do patrimônio geral. O bispo, tornado "protetor dos pobres", também detinha autoridade no campo judiciário. Semanalmente visitava os encarcerados, controlando seu tratamento e, eventualmente, encontrando a soma para sua libertação. Em 511, codifica-se o direito de asilo nas igrejas e santuários àquele que procurasse refúgio na perseguição. Não se queria favorecer o crime, mas assegurar uma justiça honesta diante dos notáveis abusos. O asilo permitia que os ânimos serenassem e se analisasse melhor o caso. Leis são promulgadas contra o abandono e a exposição das crianças.Elas promoviam a instituição de asilos especiais onde as crianças ficavam até os sete anos, quando eram encaminhadas a um trabalho. Os bispos também se preocuparam com as regiões rurais, delegando aos párocos a responsabilidade pelo socorro aos pobres, recordando que a esses estava reservada a quarta parte das coletas, a terça dos dízimos e o economizado com o jejum. A fundação dos asilos Carlos Magno, rei absoluto dos francos (771 a 814), e depois do
Sacro Império Romano do Ocidente (origem da atual Alemanha e França),
sentindo-se guarda vigilante dos bispos e da Igreja, intensificou a intervenção
em favor da construção de asilos para as viúvas,
órfãos e estrangeiros, regulamentando o exercício
da mendicância e a repressão à vagabundagem. Em 789,
estabeleceu que nos diversos lugares existissem hospedarias para os viajantes,
lugares de acolhimento para os pobres nos mosteiros e nas comunidades
religiosas. Dispõe que ninguém Luiz o Pio, seu filho, em 817 estabelece que cabe a cada bispo construir asilos para os pobres e doentes e que todos os membros do clero deveriam contribuir com a devolução do dízimo. Foi notável a resposta dos bispos: Crodegando de Metz transformou sua casa em casa dos pobres e recebia pessoalmente os que se apresentavam. Aldngo de Mans (+ 856) construiu, junto à catedral, ·um abrigo para os pobres. Muito significativa é a história de São Gemiano de Awrerre. Narra-se que, visitando a Bretanha, teve a hospitalidade recusada por um pequeno rei bretão, mas um criador de porcos o acolheu e alimentou. Com sua autoridade, depôs o rei bretão e confiou o trono ao criador de porcos, querendo significar, com isso, que a autoridade nasce da hospitalidade. Impressionante é a multiplicação de asilos para leprosos, sempre tratados com muito respeito, pois neles viam-se impressas as chagas do Senhor. A matrícula dos Pobres Criada no Oriente egípcio do século IV, a "matrícula dos pobres" era uma espécie de ofício de assistência. São Leão Magno , bispo de Roma difundiu-a com o emprego de uma lista de pobres a serem atendidos. São Gregório Magno a reorganizou, fazendo atualizar o registro de todos os beneficiários das distribuições mensais de grão, vinho,óleo, peixe, toucinho, legumes e queijo. Essas matriculas se multiplicaram no século VI em todas as cidades, tomando a seu encargo os pobres válidos mas sem trabalho e as mulheres sem recursos, sobretudo as viúvas. Com o tempo, esses pobres passaram a ser privilegiados: residiam no ambiente da igreja e tinham autorização para mendigar à sua porta. Tinham forte influência na eleição dos bispos: votavam em quem Ihes prometia mais... Podemos dizer que a verdadeira pobreza estava em outro lugar: nos campos. Abandonados, perdidos e explorados por todos, os pobres batiam às portas dos mosteiros. A paz, a Trégua de Deus e proteção dos fracos Nos séculos X e XI, tomados pela barbárie da violência, a Igreja assumiu o papel de proteção dos fracos, sobretudo camponeses. O aumento das propriedades monásticas permitiu que muitos camponeses vivessem ali trabalhando. Mas a situação sempre piorava pela prepotência das milícias armadas chefiadas por pequenos senhores. Os pobres nada podiam fazer quando esses grupos invadiam suas roças e casas. Os bispos, mais uma vez, assumiram sua defesa. Odilon de Cluny afirmava que os pobres deviam ser protegidos pela paz. Assim, os pobres e seus bens eram sacralizados e os cavaleiros se empenhavam em defendê-los com um juramento sagrado. Bispos, monges e pobres se uniram num grande movimento pacificador. Bispos e abades reuniam as multidões para que jurassem conservar a paz. Alguns bispos não receavam em mandar a multidão punir quem atacasse a paz! Criaram-se confrarias de cidadãos para conservar a paz, os "paciarios" antecessores de nossos juízes de paz. Grande ressonância teve o movimento da Trégua de Deus. Durante determinados tempos, como Quaresma e dias santos, suspendiam-se os combates. Isso era muito importante porque, nesta pausa, era possível negociar a paz. Tudo isso mostra uma realidade: tantas vezes desprezados e desconhecidos, os pobres faziam com que sua presença fosse percebida por todos. Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR |
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