Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
REIS E PAPAS O período da História da Igreja conhecido “medieval” pode nos dar a equivocada idéia de que a Igreja, de fato, detinha todo o poder religioso, econômico e político entre os séculos VI e XV. A verdade é mais complexa: ao mesmo tempo em que o Pontificado romano crescia na consciência de sua autoridade, surgiam, vigorosos, os novos Estados europeus, com seus reis e príncipes pouco dispostos a se sujeitarem às ordens papais. Denominamos secularização a esse processo de autonomia do poder civil frente ao poder papal, iniciado no século XIII. Três acontecimento, longos e dolorosos, explicam dois fenômenos vencedores no século XVI, a autonomia dos Estados modernos e a Reforma Protestante: o conflito entre Bonifácio VIII e o rei francês Felipe o Belo; o Cativeiro de Avinhão; o Cisma do Ocidente. BONIFÁCIO VIII E A SECULARIZAÇÃO O papa Bonifácio VIII (1294-1303) foi eleito na sucessão de São Celestino V (Pedro Morrone), que tinha renunciado, pois preferia continuar monge. Era enérgico, impetuoso, conhecedor do Direito Canônico, mas não se tinha adaptado aos novos tempos: queria ser papa à imagem de Gregório VII e Inocêncio III, ser o imperador do mundo. Interferiu em todos os problemas europeus (Alemanha, França, Sicília, Escócia, Boêmia, Veneza) e em todos foi derrotado. Sua maior ousadia foi competir com o rei francês Felipe IV o Belo (1285-1314), que era hábil politicamente, ambicioso, conhecedor do Direito Romano, segundo o qual o rei é imperador em seu reino e o que lhe agrada tem valor de lei. Necessito de dinheiro para custear a guerra com a Inglaterra, Felipe impôs tributos ao clero. O papa protestou e o rei respondeu proibindo ao clero de enviar dinheiro a Roma. Chegou-se a um acordo: o rei pede dinheiro e o papa aconselha o clero a doá-lo! Bonifácio VIII sentiu-se vitorioso, canonizou o avô do rei, Luiz IX e convocou o primeiro Ano Santo para 1300. As multidões que acorreram a Roma deram ao papa a impressão de que o mundo se curvava a seus pés.
Bonifácio VIII nomeou para Núncio em Paris um inimigo do rei: este se vinga e convoca um Concílio em Roma, onde o papa deveria se defender de gravíssimas acusações morais e doutrinais. Como resposta, Bonifácio VIII publicou a bula “Unam Sanctam” (1302), onde afirma ser necessário para a salvação estar sujeito ao papa em tudo, mesmo em questões políticas, o que não é verdade. Em junho de 1303, a Assembléia dos Notáveis de Paris acusou o papa de heresia e simonia e Bonifácio, defendendo-se, prepara a bula de excomunhão e deposição de Felipe IV. No dia anterior à sua publicação, capangas do rei, auxiliados por dois cardeais corruptos, invadem a residência papal e o prendem para leva-lo à França. Era difícil transferir o papa e, em meio às hesitações, o povo se rebelou e três dias depois o libertou. Mas, o significado dos acontecimentos estava claro: um soberano católico enfrentara o papa, e com sucesso. O papa, abatido moral e fisicamente, morreu um mês depois. Para alguns, a morte de Bonifácio VIII representa o fim da Idade Média. Teria terminado a teocracia papal, a unidade medieval fundamentada na fé cristã. O CATIVEIRO DE
AVINHÃO No ano de 1305, em Perúgia foi eleito papa Clemente V. A cidade de Roma, dominada pelos conflitos entre s famílias nobres, não oferecia mais segurança ao papa que, 1309, foi para Avinhão, França, onde se fixou definitivamente seu sucessor. Essa época é chamada de “Cativeiro de Avinhão” em lembrança do bíblico “Cativeiro Babilônico”. Foi um período difícil para a Igreja e teve como o pior fruto, a imagem de um papa não como um pai universal, e sim, uma espécie de capelão do rei da França. Foram sete papas franceses e também a maioria dos cardeais. Além disso, para fazer frente à construção e manutenção da corte papal, aumentaram-se exageradamente os impostos e as taxas. Tudo era vendido a alto preço: nomeações, graças, indulgências e dispensas. Os ânimos católicos se distanciam da Cúria e surge sempre mais forte o grito: “A Igreja tem que ser reformada”. Decaiu muito a autoridade papal com o excesso de excomunhões, lançadas por motivos quase que exclusivamente políticos. Durante 20 anos toda a Alemanha ficou sob excomunhão. Em 1328 um patriarca, 5 arcebispos e 30 bispos foram excomungados. São João d’Ávila deplorava que nas paróquias, em cada festa, fossem anunciadas de 7 a 10 excomunhões.
As vozes que amavam a Igreja e Roma se faziam sempre mais ouvir: “quer-se a liberdade da Igreja, a liberdade do Papa, um Papa universal.” Duas santas mulheres fizeram eco a essa necessidade universal: Brígida da Suécia e Catarina de Sena. Catarina, jovem, analfabeta, mística e santa, assumiu como vocação fazer o papa retornar a Roma. Escrevia-lhe até palavras duras: “Seja homem, paizinho! Não tenha medo”. Foi a Avinhão e ali pôde constatar a corrupção da Cúria que ela dizia, “cheirar muito mal, com o mesmo mau cheiro de Roma”. Garantiu a segurança da transferência papal e, em 1367, Urbano V ingressou triunfalmente na Roma papal. Era tamanha a desordem na cidade, que o bom papa fugiu para a França. Seu sucessor, Gregório XI (1370-1378), retornou a Roma em 1377 e fez do Vaticano a residência papal oficial. Santa Catarina passou a viver em Roma e quase que diariamente ia ao Vaticano, rezar pelo Papa e pela Igreja. O CISMA DO OCIDENTE Contra Urbano VI, papa legítimo, é eleito Clemente VII como antipapa residente em Avinhão. Papas e antipapas se sucediam e se excomungavam, a ponto de se ter a impressão de que toda a cristandade estivesse excluída da Igreja. Foi o Grande Cisma, que fez a Igreja num certo período ter três papas! Os cristãos, e mesmo os sábios e santos, não tinham mais muita clareza sobre quem era o papa verdadeiro. França, Espanha e Escócia reconheciam Clemente VII como papa legítimo; Itália, Inglaterra, Irlanda, Boêmia, Polônia, Hungria e Alemanha reconheciam Urbano VI. E os santos? Santa Catarina de Sena apoiava Urbano VI e chamava de demônios encarnados os eleitores de Clemente VII; já São Vicente Ferrer reconhecia como verdadeiro papa a Clemente VII. Certamente, para o povo, era mais difícil ter alguma certeza. Para salvar a unidade da Igreja, alguns teólogos passaram a defender a Teoria Conciliar: os bispos reunidos em Concílio detêm o poder da Igreja, acima do Papa. No fundo, o que se queria era garantir a eleição de um único e legítimo papa e recuperar a unidade eclesial. Somente o Concílio de Constança (1414-1418) conseguiu acabar com o Cisma, com a eleição unânime de Martinho V (1417-1431) após a renúncia do papa legítimo Gregório XII. CONSEQÜENCIAS Após tantos conflitos, divisões, papas sem visão pastoral e universal, não é de se estranhar que, aos olhos do povo cristão, uma Igreja nacional, controlada pelo poder do Estado, fosse a melhor solução. Isso aconteceu e foi uma das causas que explicou o sucesso da Reforma Protestante na Europa. Na França, em 1438 se ratificou como lei estatal a Teoria Conciliar, a proibição de apelar para Roma como última instância, limitações dos direitos da Santa Sé nas nomeações para ofícios e benefícios na França. Somente em 1905, o Papa voltou a nomear os bispos franceses. Na Alemanha, os príncipes usurparam a jurisdição eclesiástica em seus territórios com a imposição de taxas sobre os bens eclesiásticos. O sentimento anti-romano é muito forte, cunhando-se até a expressão “doutor em Roma, burro na Alemanha”. Na Inglaterra, a descrença em relação a Roma se fortaleceu com o cativeiro de Avinhão: aos olhos dos ingleses o papa era instrumento do soberano francês contra quem a nação inglesa se empenhou em longa e violenta luta. Vários decretos do século XIV negam ao papa o direito de nomeação para os ofícios eclesiásticos ingleses, proíbem o apelo a Roma e a introdução das Bulas papais. De fato, a Igreja inglesa era independente de Roma. Na Espanha, a unidade religiosa foi considerada básica para a unidade nacional. Em 1478 nasceu a Inquisição espanhola sob controle estatal. Em 1492, com a conquista da América, Portugal e Espanha adquirem o direito do Padroado, pelo qual assumiram o governo da Igreja.
Esses fatos podem explicar, em parte, o por quê da tragédia religiosa do século XVI, quando um frade reformador, Martinho Lutero, provocou a divisão religiosa e política da Europa cristã. Séculos de relaxamento pastoral no coração da Igreja Romana afastaram numerosos povos e nações. Lutero simbolizou, com seu gesto, as numerosas gerações que clamavam pela reforma da Igreja. Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR 1. Por que o Papa saiu de Roma? |
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