Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
Desde o ano de 1054, as Igrejas do Oriente e do Ocidente não mais se encontravam. Uma desprezava a outra como herética. Fora isso, o ano de 1204 foi trágico para a sensibilidade oriental: os Cruzados que se dirigiam à Terra Santa tomaram Constantinopla, saquearam a cidade, roubaram os ícones e tesouros artísticos, profanaram e prostituiram a Igreja de Santa Sofia e transformaram a cidade na sede de um Império latino. Porém, um inimigo poderoso, os turcos, ameaçava Constantinopla e o Ocidente. A necessidade de defesa estimulou a realização de dois Concílios de reunificação: em Lyon e em Florença, mas sem frutos duradouros. O CONCÍLIO DA UNIFICAÇÃO O imperador Miguel VII (1259-1282) desejava a união dos cristãos, mas também era movido por interesses políticos: estava ameaçado pelo rei da Sicília, Carlos de Anjo, e, portanto, precisava do apoio do Papa. Convocou-se então, na cidade de Lyon, um Concílio de unificação em 1274. Os delegados orientais chegaram a reconhecer o Primado papal e recitaram o Credo com o Filioque (isto é: o Espírito Santo procede do Pai e do Filho). Mas a recepção da união foi praticamente nula em Constantinopla e outras regiões ortodoxas. Sinal disso foram as palavras da irmã do imperador: “Melhor que o Império de meu irmão pereça, do que perder a pureza da fé ortodoxa”. O imperador acabou julgado por apostasia e não recebeu sepultamento cristão. O CONCÍLIO DE FLORENÇA O Concílio Ecumênico de Florença (1438-1439), apesar dos condicionamentos políticos, representou uma séria iniciativa de superação do Cisma de 1054. Dele participaram o imperador João VIII, o Patriarca de Constantinopla e grande delegação da Igreja bizantina.
Houve esforço sincero de discutir os pontos teológicos que separavam o Oriente do Ocidente, mas, para os gregos, era difícil discutir com objetividade: a reunificação era a última esperança de salvação diante dos exércitos turcos. Todos os ortodoxos assinaram uma fórmula de união, que abrangia as questões do: Filioque, Pão ázimo, Purgatório e o Primado papal. O acordo seguiu dois princípios básicos: unanimidade em questões de doutrina e respeito pelos ritos legítimos e tradições de cada Igreja. Dissemos que todos assinaram, mas houve uma exceção: Marcos, arcebispo de Éfeso, depois canonizado, negou sua assinatura. A Europa ocidental festejou a união alcançada em Florença, o que não aconteceu no Oriente. O imperador João VIII e seu sucessor Constantino IX mostravam-se envergonhados em publicar e aplicar as decisões conciliares. Bom número de bispos e legados, retornando às suas Igrejas, revogaram as assinaturas. Uma fração mínima do povo e do clero bizantino aceitou os decretos florentinos. TERMINA O IMPÉRIO BIZANTINO Bizâncio esperou em vão um substancial auxílio militar do Ocidente. Mas não tinha percebido os jogos comerciais de Veneza, apoiada pelo próprio Papa, que tinha mais interesse no comércio com os turcos do que com a salvação da velha Constantinopla. Em 7 de abril de 1453, os turcos começaram a atacar a cidade por terra e por mar. Por sete semanas, os bizantinos, à razão de um por vinte turcos, resistiram corajosamente. Mas era inútil. Nas primeiras horas da manhã de 29 de maio, celebrou-se o último ofício cristão na Igreja de Santa Sofia. Estavam unidos ortodoxos e católicos romanos, nesse momento dramático, esquecidos de suas diferenças. O imperador, após receber a Comunhão, saiu e morreu lutando nas muralhas da capital. Mais tarde, no mesmo dia, a cidade caiu nas mãos dos turcos. Constantinopla começou a ser chamada Istambul, e a mais gloriosa e bela igreja do Oriente, Santa Sofia, foi transformada em mesquita. Mil anos após a queda de Roma em poder dos bárbaros (476), terminava o Império Bizantino. Não era o fim da Igreja Ortodoxa, e nem o fim do Patriarcado de Constantinopla. MOSCOU, A TERCEIRA ROMA Caindo Constantinopla, só havia uma nação capaz de assumir a liderança no Cristianismo oriental: a Rússia. Os russos julgavam ser um desígnio divino que, exatamente quando estavam se tornando um Império livre, caiu a Segunda Roma. Deus os escolhia para sucederem a Bizâncio. Tinham permanecido na fé ortodoxa, rejeitado a união de Florença e, por coincidência, em 1472 o rei russo Ivan III casou-se com Sofia, sobrinha do último imperador bizantino.
Ivan (1462 - 1505) assumiu o título de Tzar (César, em grego): era o novo imperador, o protetor da Igreja apostólica. Moscou é a Terceira Roma, a cidade sagrada da Ortodoxia, e a Rússia é concebida como a Santa Rússia. Sedimentava-se uma aliança entre a Igreja e o Estado. O Metropolita de Moscou, com o consentimento do Patriarca de Constantinopla, recebeu, em 1589, o título de Patriarca. A Igreja russa, embora aliada do trono, soube manter-se livre e protestar contra as ingerências imperiais. Os conflitos chegaram ao auge com Pedro o Grande (1682-1725). Em 1721 aboliu o Patriarcado e estabeleceu uma nova organização para a Igreja russa, inspirada nos Sínodos protestantes da Alemanha. Criou o “Colégio Espiritual do Santo Sínodo”, atribuindo-se o título de “Juiz Supremo do Colégio Espiritual”. Assistia às reuniões do Sínodo através de um procurador que, na prática, era ministro da religião. Pedro o Grande (1672 - 1725) foi o modernizador do Estado russo, expandiu-lhe as fronteiras e queria ter a Igreja sob seu estrito controle. Queria eliminar o trabalho social dos mosteiros e tirar da Igreja qualquer liderança. Exigiu que padres violassem o segredo de confissão se fosse do interesse do Estado e chegou a acusar os monges de perturbadores da ordem, eles que davam vida e dignidade ao povo russo. Por isso mesmo era necessário desacreditá-los. Seguiu-se um período doloroso de declínio para a Igreja russa: subserviência ao Estado, ocidentalização da arte, da música e da teologia, essa recebendo influências não do pulmão oriental, mas do misticismo protestante, do pietismo alemão e da maçonaria. Mas o Espírito age e foi no Monte Atos que teve origem o renascimento religioso: Paissy Velichkovsky (1722-1794) deixou Moscou e ali tornou-se monge. Depois ingressou num mosteiro romeno, dedicando-se a traduzir os textos patrísticos para o eslavônio. Nessa língua publicou, em 1793, a Filocalia, o grande tesouro da espiritualidade oriental. Seus discípulos espalharam-se pela Rússia, provocando um grande renascimento monástico. Em 1810, havia 452 mosteiros na Rússia e em 1914, 1025. Já o século XIX foi o século dos peregrinos (staretz) russos, que tocaram profundamente a alma do povo. RENASCE O PATRIARCADO DE MOSCOU No dia 15 de agosto de 1917, após a abdicação do Tzar Nicolau II, reuniu-se, em Moscou, um Concílio da Igreja de todas as Rússias, que analisou um amplo programa de reforma e, abolindo a forma Sinodal de Pedro o Grande, restaurou o Patriarcado. Em 1917, Tikhon, o metropolita de Moscou, foi eleito Patriarca. Os Padres conciliares ouviam ao longe a artilharia comunista bombardeando o Kremlin. Lênin tinha tomado o poder. Antes que o Concílio fosse encerrado, no verão de 1918, foi dada a notícia do brutal assassinato de Vladimir, Metropolita de Kiev. Começava, para a Igreja russa, o grande período de dor, perseguição e martírio. O regime comunista tinha, como programa, eliminar Deus
e a Igreja da vida russa. Milhões de mártires Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR 1) Quais os motivos que dificultaram inicialmente a reunificação das Igrejas de Constantinopla e de Roma? Quais seriam os motivos atuais? 2) Por que Moscou considerou-se a terceira Roma? 3) Quais as maiores dificuldades enfrentadas pela Igreja ortodoxa russa? |
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