Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

orpo de Cristo, povo de Deus, a história da Igreja, desde o início, foi marcada por dilacerações. Podemos afirmar, infelizmente, que a história das divisões é maior do que a dos esforços de reconciliação. Já tivemos ocasião de referir as tentativas de reconciliação entre o Oriente e o Ocidente nos Concílios ecumênicos de Lyon II (1274) e de Florença (1439): conseguiu-se, no entanto, uma união muito breve, porque condicionada por interesses políticos e militares. A responsável pelo desinteresse ecumênico era a convicção, de cada Igreja, de se achar a única detentora da verdade.

AS ALIANÇAS CONFESSIONAIS

Foi no século XIX que, em campo evangélico, firmou-se progressivamente a consciência do escândalo das divisões que repercutia no interior das nações e no campo missionário. O Cristo, sinal de unidade, era também fonte de divisões entre os pastores e missionários.

Desta consciência surgiram grandes alianças confessionais:

  • a primeira Conferência dos Bispos da Comunhão Anglicana em Lambeth (1867),
  • o Quadrilátero de Lambeth de 1884, como ponto de partida para o movimento ecumênico, quatro pontos básicos sobre os quais deveria haver unidade: Sagrada Escritura, Batismo e Eucaristia, Símbolo Apostólico e um ministério;
  • a fundação da Aliança Batista Mundial (1905);
  • as alianças interconfessionais internacionais: a Associação Cristã de Moços (1844), a Federação Mundial dos Estudantes Cristãos (1895) o Movimento Estudantil Cristão e as diversas Sociedades Missionárias, como contrapeso aos nacionalismos fechados e à dispersão de forças.

O início do ecumenismo moderno é situado na Conferência Missionária Mundial realizada em Edimburgo, Inglaterra (1910), que tinha em vista a evangelização do mundo e contribuir para a “finalidade de toda ação missionária:

- implantar em todas as nações não-cristãs uma só e única Igreja de Cristo”. Como essa Conferência assumia neutralidade teológica (cada Igreja continuava com sua teologia), em seguida foi criado o Movimento de Fé e Constituição para o estudo das questões de fé em relação a Deus e a Cristo, em relação ao homem e ao mundo futuro.

A BUSCA PELAS IGREJAS

A partir de Fé e Constituição, foram visitados os chefes das diversas Igrejas, bispos católicos e o Vaticano. Em 1919, o papa Bento XV acolheu gentilmente a delegação, mas rejeitou com “irresistível severidade” o convite a uma conferência ecumênica. A primeira conferência preparatória realizou-se em 1920, em Genebra, seguida de mais duas, em Lausanne (1927) e em Edimburgo (1937), que estudaram temas referentes à compreensão da Igreja,do ministério e dos sacramentos. Queria se tomar consciência dos pontos fundamentais em que as diversas Igrejas estavam de acordo e das graves divergências que ainda persistiam. O grande mérito foi ter reunido teólogos das diferentes confissões religiosas e tê-los aproximado afetivamente.

O terceiro passo, no movimento ecumênico, foi o Movimento para o Cristianismo Prático (Life and Work), fruto do empenho do bispo luterano sueco Nathan Söderblom (1866-1931). Na reunião da Aliança mundial para a amizade internacional (1919), o bispo propunha uma voz comum para a consciência cristã: “Proponho um conselho ecumênico que represente a cristandade de modo espiritual”. Num ambiente de conflitos, tinha-se em mente um cristianismo prático, com o interesse voltado para a paz e a justiça. Na reunião de 1925 criou-se o lema: “Comunhão na adoração e ecumenismo no serviço”.

O CONSELHO ECUMÊNICO DAS IGREJAS

a iniciativa de Söderblom surgiram diversas iniciativas internacionais, alavancando um ecumenismo que tinha como tripé a missão, a fé e o serviço. Caminhava-se para a formação de um organismo que congregasse todas as Igrejas cristãs. Nos escombros da Segunda Guerra (1939-1945), pelos méritos do pastor reformado holandês W. A. Visser’t Hooft (1900-1985) foi criado o Conselho Mundial de Igrejas-em formação (1944-1948) e, finalmente, o Conselho Mundial de Igrejas, em 1948, do qual foi presidente até 1966.

A sede foi estabelecida em Genebra e o Conselho possui três unidades programáticas:


Visser't Hooft

Fé e Testemunho, Justiça e Serviço, Educação e Renovação. Princípio aprovado em Nova Delhi (1961): o “Conselho Mundial de Igrejas é uma associação fraterna de Igrejas que confessam o Senhor Jesus Cristo como Deus e Salvador segundo as Escrituras, e se esforçam por responder juntasà sua comum vocação para a glória do único Deus, Pai, Filho e Espírito Santo”. Nele pode ingressar, portanto, quem aceita a fé trinitária e cristológica segundo as Escrituras. Através da unidade na fé, na missão e no serviço, o Conselho já criava uma unidade entre as Igrejas, mas tendo como objetivo final a unidade de todos em Cristo. Trata-se de uma experiência de fraternidade e de reflexão sobre a fé comum.

A IGREJA CATÓLICA E O MOVIMENTO ECUMÊNICO

Inicialmente repetindo às outras Igrejas um soberbo “retornem à Igreja donde saíram”, na década de 1960 a Igreja Católica passou a se interessar pelo movimento de modo positivo. O corte se dá no pontificado de João XXIII (1958-1963) e no Concílio do Vaticano II (1962-1965): o ecumenismo deixa de ser uma iniciativa de um ou outro teólogo e passa a ser constitutivo da vida da Igreja. O Concílio Ecumênico Vaticano II aprovou a Carta do ecumenismo católico, o decreto Unitatis redintegratio (1964) e constituiu-se o Secretariado (agora Conselho Pontifício) para a Promoção da Unidade dos Cristãos. Com relação às Igrejas orientais, o decreto Orientalium Ecclesiarum (1964) reconheceu o valor próprio da tradição oriental, permitindo melhorar as relações com as Igrejas ortodoxas.


Encontro de líderes religiosos em Assis-Itália

O abraço entre Paulo VI e Atenágoras de Constantinopla em Jerusalém (1965), com a suspensão das excomunhões de 1054, foram determinantes para a unidade espiritual entre as tradições do Oriente e do Ocidente. Essa mudança de “espírito” na Igreja foi preparada por fundações religiosas, semanas de oração pela unidade, pela reflexão dos teólogos, pela vivência nas Igrejas locais e osfrutos maduros foram colhidos pela Assembléia conciliar.

A Igreja Católica é membro observador do Conselho Ecumênico das Igrejas. Fundamentais no caminho ecumênico são as comissões bilaterais, entre Igreja Católica e Igrejas (evangélica, anglicana, reformada, ortodoxa) para a discussão teológica e que geram uma grande aproximação dos teólogos, com repercussões na vida eclesial. Há um longo caminho a percorrer. O importante é que se está a caminho.

Com esta edição encerramos a apresentação da História da Igreja.
Queremos agradecer ao Professor Pe. José Artulino Besen pela colaboração com estes 53 artigos.

PARA REFLETIR

1.º Hoje a evangelização passa pelo diálogo e pelo ecumenismo. O que significa isto?

2.º Quais as conseqüências que isto traz para a pastoral?

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