Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja


O Batismo da Rus

As planícies do norte europeu e o vale do rio Danúbio sempre foram corredores de penetração para as invasões descidas das estepes asiáticas. Do século VI ao X se revezaram os eslavos, búlgaros e húngaros que, uma vez estabilizados, paulatinamente misturaram suas culturas.

Os cristãos limítrofes, vencido o medo, pensaram em convertê-los, mas, situados geograficamente entre a Igreja de Roma e a de Constantinopla, os recém-chegados hesitaram em escolher, já que a conversão sempre comportava submissão política.

A grande competição entre Roma e Bizâncio explica, em parte, a existência, ainda hoje, de igrejas eslavas católicas e igrejas eslavas ortodoxas.

A PRIMEIRA EVANGELIZAÇÃO DOS ESLAVOS

Ratislav, príncipe da Morávia, querendo ter defesa contra os francos, pediu a Constantinopla missionários que falassem eslavo.

O imperador bizantino achou boa a idéia e enviou dois irmãos, o diácono Cirilo e o monge-sacerdote Metódio que conheciam perfeitamente o eslavo. Pensando na missão, Cirilo criou um alfabeto que permitia transcrever a língua eslava, ainda hoje usado e conhecido pelo nome de alfabeto cirílico. Nasce assim o eslavo como linguagem escrita e seus primeiros textos foram trechos bíblicos e textos litúrgicos gregos e latinos.

Cirilo e Metódio muito se preocuparam em preservar a cultura eslava e oferecer àqueles povos uma fé inculturada. Mas, surgem os problemas: enquanto o Oriente permitia o uso das línguas comuns na liturgia, o Ocidente achava que não se poderia dirigir a Deus nas línguas bárbaras, mas apenas nas línguas usadas na cruz de Cristo: hebraico, grego e latim!

Os dois missionários, que tinham iniciado o trabalho em 863, foram acolhidos em toda parte com entusiasmo. Dirigiram-se ao território da atual Hungria e ali operaram muitas conversões.

O papa ficou satisfeito em poder contar com os eslavos na Igreja e, contrariando os francos na questão da língua litúrgica, permitiu o uso do eslavo. Tendo porém surgido oposição entre bispos francos, o papa Estêvão V exigiu o retorno ao latim. Grande foi a decepção de todos, especialmente do czar dos búlgaros, Bóris, que decidiu retornar à Igreja de Constantinopla. Em seguida, os discípulos de Metódio foram para a Bulgária e, dali, a língua e os usos eslavos passaram para a Rússia e a Sérvia.

São Cirilo morre em Roma em 869, e Metódio é nomeado arcebispo de Sirmium, falecendo em 885. Esses dois irmãos, pode-se dizer, são os últimos grandes missionários da Igreja ainda não dividida entre Oriente e Ocidente. Os dois, apesar de todas as contrariedades, permaneceram fiéis à Igreja romana.

A conversão dos húngaros e polacos deu-se no final do século IX. Santo Adalberto (+997), bispo de Praga, orientou sua ação missionária rumo aos polacos e húngaros. Casando-se com a filha do duque tcheco Boleslau, em 966, o príncipe Mieceslau pediu o batismo: nasceram assim a Igreja e o Estado polaco.

Geisa, duque da Hungria, e o filho Estêvão, em 985, ainda por mãos de Adalberto, receberam o batismo. Estêvão casou-se com Gisela, uma princesa da Baviera, e sucedeu ao pai no trono, organizando assim a Igreja húngara, colocando seu país sob a proteção de São Pedro. No ano 1000, o papa Silvestre II concedeu-lhe o título real.

CONVERSÃO DOS RUSSOS DE KIEV

Um povo eslavo ocupava imensos territórios entre o Báltico e o Mar Negro. Organizados pelos varégios, formaram uma nação e passaram a ser denominados Ruotsi, ou Rus (russos). Mas como nação representavam um perigo para Constantinopla. Para evitá-los, os bizantinos procuraram fazê-los entrar em sua órbita de influência através da religião.


São Sérgio venerando a tumba de seus pais

A princesa Olga, regente de Kiev, que tinha-se dirigido a Constantinopla por razões políticas, ali foi batizada em 957, mas não impôs seu cristianismo nem a seu povo, nem a seu filho.

Os kievianos porém tinham contatos com os búlgaros e passaram a se interessar pela cultura do país. Para não serem vítimas de engano, o príncipe Vladimir, neto de Olga, enviou mensageiros a fim de procurar uma religião superior para seu país.

Os investigadores, no retorno, afirmaram não terem ficado satisfeitos nem com o Islam, nem com o Judaísmo, nem com o Catolicismo alemão, mas que tinham sido seduzidos pelo esplendor da liturgia bizantina da basílica de Santa Sofia, em Constantinopla: era viver o céu na terra, era sair do tempo e entrar na eternidade.

Convencido por esta pesquisa, em 989 Vladimir e seus súditos receberam o batismo no rio Dnieper e, através da língua eslava, a Igreja de Kiev adotou o modelo bizantino.

Como era evidente para a época, se foram os romanos orientais que converteram os russos e essa nova Igreja sujeitou-se ao imperador de Constantinopla e a seu patriarca este logo nomeou um arcebispo para a Rússia.

A TERCEIRA ROMA

De 1039 a 1448 a Igreja russa foi dirigida pelo metropolita de Kiev, que passou a residir em Moscou a partir de 1328, embora ficasse claro que Kiev ficaria o centro espiritual dos russos. Era mais uma província do patriarcado de Constantinopla.

O cristianismo, sendo imposto de cima pela conversão do rei, durante muitos anos o grande trabalho do clero russo foi combater os resíduos do paganismo eslavo, muito popular. Somente no século XV pode-se dizer que o mundo rural aderiu à fé cristã e passou a se formar uma cultura rural cristã, marca indelével da alma russa.

A Igreja bizantina, para as elites russas, foi um grande canal de comunicação de cultura.

Constantinopla era “a cidade dos desejos do mundo”. A essas novas Igrejas muito serviram os textos e as traduções de Cirilo e Metódio.

A partir do século XIII, ganha força o principado de Moscou, que depois dominou todos os russos, organizando um Estado poderoso. Enquanto a sede da Igreja era Kiev, não havia antipatia com relação a Roma. Mas a relação entre as Igrejas transformou-se em verdadeira e definitiva antipatia quando, por volta de 1240, o príncipe Santo Alexandre Nevsky repeliu o ataque dos suecos e teutônicos católicos que atacavam as fronteiras bálticas russas. A partir desse fato, para os russos, a Cristandade ocidental católica era uma potência inimiga e invasora.

A vida monástica foi a grande riqueza que a Igreja russa ofereceu às outras Igrejas. Inicialmente influenciados pelo monaquismo do Monte Atos e de Constantinopla, os russos conheceram as três formas de vida contemplativa: a vida solitária, semi-eremítica e cenobítica. Tendo início no século X, no século XIII já havia mais de 70 mosteiros.

São Sérgio de Radonez foi a figura central da vida religiosa russa. Em meados do século XIV ele fundou, perto de Moscou, o mosteiro da Santíssima Trindade, alma da vida espiritual russa, que hoje abriga centenas de monges. No mundo eslavo, o canto dos monges, sua liturgia sem interrupção, os monges santos e conselheiros..., são a alma da vida religiosa popular. Pode-se até afirmar que não existiria a Rússia sem a fé cristã e sua vida monástica.

Os eslavos aprenderam e aperfeiçoaram a arte icônica. Seus monges pintaram os melhores exemplares dessa arte sagrada. O mais mais famoso ícone é o da Santíssima Trindade, obra do monge Santo André Rublev.


Mosteiro da Santíssima Trindade, hoje conhecido como Mosteiro de São Sérgio

Os povos eslavos tiveram sua identidade nacional moldada pela fé cristã. Nos momentos de crise, seus monges e bispos conduziam o povo, faziam guerra carregando ícones e terminavam batalhas cantando hinos religiosos. Deus é o defensor de seu povo.

É preciso aqui lembrar que, em 1054, houve a ruptura entre Roma e Constantinopla. A Igreja russa continuou dependendo canonicamente desta última, mas querendo sempre mais ter voz própria e autônoma.

Em 29 de maio de 1453, os turcos tomaram tragicamente Constantinopla, desaparecendo assim o Império romano do Oriente.

Nasce assim entre os russos a convicção de que Moscou era a herdeira natural das duas Romas: “Duas Romas caíram, Moscou é a terceira e não haverá uma quarta”. O monge Filofej anunciava: “Todos os reinos da fé cristã ortodoxa fundiram-se no único reino russo: o imperador de Moscou é o imperador do mundo inteiro”.

Essa doutrina política teve fruto. Considerando que a Igreja grega estava sob domínio muçulmano, a Igreja russa manteve sua autonomia e, em 1589, criou-se um patriarcado autocéfalo em Moscou.

Nascia a Terceira Roma, que queria ter o mesmo grau de respeito e autoridade da primeira e da segunda Roma (Roma e Constantinopla).

Foi esse “orgulho” religioso eslavo que lhes deu coragem e perseverança para enfrentar os embates de sua história, especialmente o domínio comunista de 1917 a 1989.

Pe. José Artulino Besen
Prof. de História no ITESC

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