Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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Santas e profetisas na Idade Média Os primeiros quinhentos anos do segundo milênio foram ricos de presença feminina. Foi tão grande o número de mulheres que passaram a viver como eremitas ou reclusas que o papa decidiu colocá-las sob controle eclesiástico, submetendo-as à jurisdição do bispo e à regra beneditina ou agostiniana. Na Idade Média a vida cristã foi enriquecida pela presença feminina no mundo do governo religioso, da mística e da profecia. Exemplo de poder é dado pela Canonina Hrotsvit de Gardersheim: o imperador Oto pediu que viajasse para presidir os sínodos dos bispos germânicos. Ele a tinha em tão alta conta que lhe concedeu o privilégio de uma corte particular e de um séqüito de cavaleiros, bem como o direito de cunhar moedas com sua imagem. Na mística cristã, entre muitas, citamos algumas dos séculos XII-XIII: Elizabeth Schöenau, Matilde de Magdeburgo, Cristina de Stommeln, Gertrud de Hefta e Margarida Porete. A presença de mulheres santas e profetisas peregrinando e pregando por campos e cidades incomodava as autoridades eclesiásticas, cujos abusos e mau comportamento elas denunciavam. Essas mulheres santas e pobres não suportavam o mundo corrompido de homens da Igreja que trocavam o Cristo pobre pelo poder e riqueza.
Os séculos XIV e XV foram dramáticos para a vida católica. Durante muitos anos os papas, com medo da violência na cidade de Roma, passaram a morar em Avignon, na França. Foi o Cativeiro de Avignon (1309-1377), quando a Igreja parecia perder a universalidade e o papa era chamado de capelão do rei da França. Novo drama, muito mais doloroso, ocorre em seguida: o Cisma do Ocidente (1378-1417): a Igreja se divide e durante alguns anos teve dois, até três papas. Os católicos não sabiam mais quem era o papa verdadeiro no meio de papas e antipapas. Especialmente neste ambiente brotam essas mulheres corajosas, algumas delas acabando queimadas pelo fogo da Inquisição, como Santa Joana dArc (+ 1431), que organiza e comanda um exército para guerrear contra a Inglaterra. Santa Catarina de Sena (+1380), analfabeta, teóloga e Doutora da Igreja, denunciava o abuso que era o papa residir na França e encorajava o medroso Pontífice a retornar a Roma: Eia!, meu querido papai. Seja homem. Não precisa temer! Santa Brígida (+1373) abandona o trono da Suécia e funda uma ordem religiosa, com 78 mosteiros pela Europa. Passa a residir em Roma, de onde comanda sua obra.
Santa Ângela de Foligno (+1309) perde marido e filhos, converte-se e sai peregrinando e admoestando as pessoas. Grande mística, é chamada de Mestra dos Teólogos. Santa Margarida de Cortona (+1297) viveu apenas 23 anos, suficientes para ser uma mulher vaidosa, irresponsável e, depois, santa. Quando se converteu quis entrar num convento, mas pediram-lhe três anos de penitência, que ela cumpriu com o máximo rigor, sendo recompensada com uma profunda intimidade com Jesus. Ursulina Venerii de Parma dirigiu-se pessoalmente ao papa Clemente VII pedindo-lhe fazer o favor de renunciar. A inglesa Santa Juliana de Norwich (+1416) foi considerada a mulher teóloga mais importante da tradição cristã. Antevendo a teologia atual descrevia Cristo como Mãe: A segunda pessoa da Trindade é nossa Mãe. A viúva Constância de Rabastens, que se definia como esposa de Cristo, ditava suas revelações ao confessor que as transcrevia em latim e difundia. Santa Jeanne-Marie de Maillé profetizava a chegada de um papa santo e pobre como São Francisco. Estava cansada dos papas de seu tempo. Maria a Guascona, francesa, recebia mensagens que pediam a reforma dos costumes na corte. E poderíamos citar muitas outras. Rita de Cássia (+ 1457), antes de ingressar no mosteiro agostiniano, era juíza de paz e leiga consagrada, andando pelos povoados em busca de reconciliação e paz entre as famílias. Provocaram muito receio as beguinas, que fundavam pequenas vilas isoladas somente com presença feminina, onde viviam o Evangelho em pobreza e caridade. A Inquisição colocou-as diante da opção: ou que ingressassem em conventos ou cada uma fosse para sua casa. Hildegard de Rupertsberg, a Sibila do Reno Santa Hildegard de Bingen (+1179), é uma das mais notáveis figuras alemãs do século XII: poetisa e profetisa, musicista, médica e moralista política, ousava censurar papas e príncipes, bispos e leigos. É a primeira entre os grandes místicos alemães. Teve suas revelações aprovadas por bispos e papas, que permitiram-lhe a publicação. O mosteiro que construiu tinha água encanada em todos os 50 aposentos. Ela mesmo dirigiu a construção, ao mesmo tempo se dedicando a viagens, a fim de denunciar abusos na Igreja e fomentar a reforma na vida cristã. Com senso de justiça, não tinha medo de denunciar ninguém, nem poderosos arcebispos. Para a vida de suas religiosas, compôs poesias, hinos e antífonas, musicados por ela mesma e que hoje estão sendo lançados no mercado discográfico. Também ainda se editam seus livros de medicina, com receitas extraídas da natureza. Uma mulher completa, que marcou a história medieval alemã e eclesial. Mosteiros duplos No século VII, surgem na Gália e depois na Inglaterra mosteiros duplos: mosteiros femininos aos quais se anexavam comunidades masculinas e eram conduzidos por abadessas. Esses mosteiros hospedavam a aristocracia feminina, filhas, mães, tias e sobrinhas de reis. Estas abadessas governavam o mosteiro com notável confiança em si mesmas, exercitando influência nos negócios eclesiásticos bem além dos limites dos mosteiros. Santa Hilda, abadessa do mosteiro inglês de Whitby, da fundação em 657 até sua morte em 680, tornou este mosteiro um dos mais vitais e criativos da cristandade inglesa. Hilda renunciara ao mundo, mas não se esquecera dele. Reis e príncipes vinham aconselhar-se com ela. Promoveu com notável empenho o estudo e a cultura no mosteiro, realizando uma grande obra na formação dos padres-monges, cinco deles depois sendo sagrados bispos. Abadessas com báculo e mitra São Roberto de Arbrissel, para acomodar muitos de seus seguidores e seguidoras, fundou um mosteiro para homens e mulheres em Fontevraud, mas com a ordem de ser sempre comandado por uma abadessa (ca. 1098), sendo as mais famosas Hersende, Petronila e Gabrielle de Rochechouart. Na Espanha, o rei Afonso VIII (+ 1214), fundou em 1178 a abadia de Las Huelgas, cuja abadessa detinha poderes quase episcopais. E, na Itália, foi famoso o mosteiro de Conversano, cuja abadessa usava a mitra episcopal. Em linhas gerais, as abadessas desses três mosteiros tinham as seguintes faculdades: isenção perante a autoridade episcopal e sacerdotal, administravam paróquias e igrejas vizinhas, nomeando e depondo os vigários, usavam o báculo episcopal, abençoavam as monjas, liam e pregavam o Evangelho publicamente, os capelães, párocos e fiéis domiciliados em localidades pertencentes ao mosteiro estavam sujeitos à autoridade da abadessa, os bispos não exerciam jurisdição alguma sobre elas. Foi uma época impressionante essa de mulheres orientando homens, reformando comunidades e igrejas e tornando-se santas, além de poderosas. As mulheres excluídas do poder na Igreja No século XVI, dois fatores fizeram com que a mulher fosse excluída da administração da Igreja: a Renascença, com o retorno do paganismo greco-romano, que levou o mundo religioso masculino a julgar injusto um homem sujeitar-se a uma mulher; a Reforma protestante marcou o retorno do conceito vétero-testamentário da mulher, que tinha seu espaço apenas no campo familiar e submissa ao homem. Isso significou uma grande mudança de mentalidade, pois até o século XV achava-se digno um voto de obediência feito por um homem a uma abadessa. O Concílio de Trento (1545-1563), influenciado pelo Renascimento e pela Reforma, trouxe conseqüências negativas para a presença feminina na Igreja: os decretos sobre a vida religiosa sujeitam os mosteiros aos bispos, relegando as abadessas à posição secundária; confirma o decreto sobre a observância de clausura rigorosa; nenhuma monja poderia deixar o convento, sob pena de excomunhão. A obra de Santa Teresa, viajando para a fundação de mosteiros, anos depois teria sido impossível após a nova legislação de São Pio V (+1572). Pe. José Artulino Besen PARA REFLETIR 1.º Qual das mulheres mencionadas mais chamou a atenção? 2.º Qual a relação que pode ser feita com a atuação das mulheres na Igreja nos dias atuais? |
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