Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja
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O CISMA DE 1054 Os séculos VII e VIII provocaram profunda mudança na Igreja bizantina. Persas e árabes conquistaram as mais antigas e sagradas províncias da Igreja antiga: Jerusalém, Síria, Antioquia, Armênia, Egito, Alexandria, enfim, todo o norte da África, terra de Agostinho e Cipriano, tornou-se muçulmano. Isso teve como conseqüência o aumento do poder do patriarca de Constantinopla que passou a rivalizar com o Papa de Roma. Sinais de divisão vão surgindo cada vez mais evidentes entre as duas grandes Igrejas, os dois pulmões do Cristianismo: as invasões bárbaras isolam as duas Igrejas nos Bálcãs; os piratas ameaçam pelo mar, dificultando as comunicações. Outro fato muito importante é que o Oriente passa a usar o grego e o Ocidente, o latim. Dessa forma, as duas Igrejas não sabiam mais ler os textos, precisando de intérpretes. Uma apelidava a outra de bárbara. A vida da Igreja oriental encaminhou-se para uma profunda devoção à Mãe de Deus e a piedade nutria-se da vida dos santos. A liturgia conheceu também um grande desenvolvimento, sem falar no renascimento da vida monástica, verdadeiro tesouro do Oriente. Coisas pequenas vão servir para dividir: os orientais tinham data diferente para a Páscoa, não aceitavam que os ocidentais usassem pão sem fermento e que não se cantasse o Aleluia na Quaresma.
O Bispo de Roma, por sua vez, não chegava a captar o espírito da estrutura eclesiástica oriental que era sinodal: todas as decisões eram tomadas nas assembléias dos bispos, nunca por um bispo sozinho. Já a Igreja romana vai na direção oposta: o Papa toma para si, pessoa-lmente, as grandes decisões, inclusive influindo nas eleições patriarcais do Oriente, como nas de Inácio e Fócio (858). Tudo isso foi distanciando os ânimos. Três fatores, porém, serão definitivos para a ruptura: 1) a crise iconoclasta; A CRISE ICONOCLASTA A Igreja oriental tinha grande apreço pela veneração das imagens dos santos, dos ícones. Em 726, o imperador Leão III declarou-se contra o culto das imagens, chegando, em 730, a proibir o culto e mandando destruí-las. Grande comoção popular. Os monges transformam-se nos defensores deste culto. Mas outro fato pior aconteceu em 754: 338 bispos reúnem-se em Constantinopla e condenam o culto das imagens como idolatria e excomungam os defensores desse culto. Quando a Ata desse Concílio chegou ao Ocidente foi pretexto para se dizer que no Oriente reinava a heresia, que já se agia sem o papa. Roma denunciou as doutrinas heréticas dos imperadores bizantinos e defendeu o culto das imagens. A grande crise terminou em 843, quando a Imperatriz Teodora restaurou o culto das imagens e iniciou a pacificação da sociedade bizantina. Até hoje a data é celebrada no primeiro domingo da Quaresma como a Festa da Ortodoxia. Distinguiu-se entre imagem e ídolo, entre culto e adoração. Ficou claro que todas as representações artísticas são para render homenagem às doutrinas fundamentais da fé e ilustrar os principais acontecimentos litúrgicos. BIZÂNCIO E O PRIMADO ROMANO A Igreja oriental reconhecia que a Sé romana gozava de primazia entre todas as outras igrejas e que o papa era o primeiro bispo da cristandade. Era um primado de honra, que se poderia definir assim: o papa é o primeiro entre os iguais. No entanto, o desenvolvimento da teologia ocidental vai sempre mais colocando o papa como o primeiro também no poder universal, o único bispo que poderia julgar toda a Igreja, inclusive os patriarcas.
Constantinopla, a partir do século IV, sente-se sempre mais a Nova Roma, detentora da mesma dignidade e poder que a Velha Roma. Isso traz muitos conflitos, especialmente quando o papa toma para si questões que eram mais da Igreja oriental. Para esta, o papa tinha todo o poder no Ocidente, no mais, prevalecia a comunhão eclesial, as grandes decisões sendo tomadas em Concílios. Para o Oriente, a Igreja não se manifestava numa pessoa sozinha, mas cada vez que o bispo celebra a eucaristia com o clero e o povo.Concretamente, os bispos orientais davam mais importância à estrutura sacramental da Igreja e os ocidentais à estrutura jurídica. E, para piorar o diálogo, uns e outros achavam que o problema era político, de domínio, e não religioso. O FILIOQUE O Símbolo de Fé do Concílio de Nicéia (325) afirmava que o Espírito Santo procede do Pai. Mais tarde, uma corrente teológica que vai da Espanha à França acrescenta e do Filho-Filioque. Carlos Magno logo adotou a fórmula como arma para acusar os gregos de heresia. Em Roma foi aceita apenas no século XI. O Oriente protestou viva e coerentemente contra este acréscimo porque os concílios ecumênicos tinham proibido qualquer alteração no Credo e somente um Concílio poderia levantar esta proibição. O isolamento religioso, lingüístico, teológico e a competição política entre francos e bizantinos prepararam um ambiente em que a unidade eclesial não mais importava. A RUPTURA DE 1054 Em 1053, o patriarca Miguel Cerulário mandou fechar todas as igrejas latinas de Constantinopla, aduzindo os motivos litúrgicos e disciplinares que já citamos. O papa rejeita as acusações e envia a Constantinopla uma delegação chefiada pelo Cardeal Humberto da Silva Cândida. Em 1054, há um encontro mediado pelo imperador Constantino IX, mas nada se consegue, pois os religiosos não eram feitos para o diálogo, o perdão. E assim, o Cardeal Humberto depõe sobre o Altar de Santa Sofia a bula de excomunhão contra o patriarca e seus seguidores e retorna a Roma. Cerulário, num sínodo, repete as acusações e excomunga os latinos. Oriente e Ocidente se excomungaram reciprocamente. A ruptura é um dado real que permanece até hoje, apesar de algumas tentativas de união nos Concílios de Lião (1274) e Florença (1439). Durante as Cruzadas, quando o católicos invadem e saqueiam Constantinopla,
a dor e o ódio se aprofundam entre essas duas comunidades que,
unidas, representam a Veste inconsútil de Cristo. O cisma surgido foi fatal para toda a Igreja, para toda a humanidade. Apesar disso, permanece uma unidade de fundo: se professa a mesma fé, se celebram os mesmos sacramentos, lê-se a mesma Escritura e comum é a preocupação com a ortodoxia, cuja expressão privilegiada são os Concílios. Pe. José Artulino Besen |
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