Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

A união Trono e Altar criava uma linguagem religiosa unida apenas na aparência: a sociedade cristã não levava vida cristã, pois a fé tinha pouca incidência no campo ético.

Uma primeira imagem é a de uma Igreja mundanizada, uma Igreja que se confunde com o mundo e se sente orgulhosa do poder que tem e exerce.

Uma Igreja segura de si é uma outra imagem devida ao apoio estatal que lhe deu um sentimento de segurança, colocando-se assim como senhora da verdade em todos os campos, mesmo aqueles que não fazem parte de sua missão, como as ciências e as artes.

UMA SOCIEDADE ORGANIZADA DO PONTO DE VISTA CRISTÃO

O apoio do Estado favorecia a vida da Igreja, enquanto o povo sentia-se envolto por uma atmosfera cristã.

Aspectos positivos: Participação nos sacramentos:

No início do século XVIII, quase todos os fiéis confessavam e comungavam na Páscoa. Havia confessores que incentivavam a comunhão semanal e até a quotidiana. Devoção popular: A devoção popular assumia formas típicas da época, inclinada a salientar os aspectos sensíveis e externos, que excitam a fantasia e o sentimento. É a época do barroco. Ouvem-se de bom grado os pregadores, que se prolongam por horas (Vieira, Fénélon, Bossuet, Massillon...). Intensificam-se as missões populares, principalmente na Itália, por intermédio dos freis capuchinhos e dos padres redentoristas.

Multiplicaram-se as peregrinações e a popularização da adoração, muitas vezes perpétua, ao Santíssimo. Estendeuse o uso de consagrar a Maria os meses de maio e outubro.

Novos Institutos Religiosos: O nascimento, desenvolvimento e decadência dos Institutos Religiosos são sinal de vitalidade e fervor, de decadência e relaxamento. No século XVIII, conhecemos uma estagnação, após o fervor tridentino. Os mosteiros de pouco rigor conheceram declínio, surgindo sempre mais vocações para os de observância rigorosa: em 1664, o mosteiro De la Trappe (Normandia), antes da reforma tinha 10 monges; após a reforma (oração litúrgica prostrada, silêncio perpétuo, alimentação frugal e pobre, forte acento na penitência), em 1700, tinha 300!

As verdadeiras vocações procuram um estilo de vida cristã em oposição ao laxismo da sociedade e da Igreja. Santidade heróica: Nesta época surgem grandes expoentes:

Teresa d’Ávila e João da Cruz (reformadores da Ordem do Carmo), Leonardo de Porto Maurício, Afonso de Ligório, Geraldo Magela, Francisco de Sales (incentivador da santificação da vida cristã leiga), Joana Francisca de Chantal (fundadora das Irmãs da Visitação), Vicente de Paolo (fundador e apóstolo da caridade)...

Devoção ao Sagrado Coração: Fortalecida pelas visões de Santa Margarida, recebeu organização eclesial no séc. XIX, com a fundação do Apostolado da Oração, assumido pelos jesuítas. A mais importante das devoções cristãs, que anunciava o amor misericordioso de Deus, foi um contrapeso ao jansenismo rigorista, pelo qual era quase impossível a salvação, tamanha a indignidade humana

UMA SOCIEDADE CRISTÃ QUE ENFRAQUECE
A AUTENTICIDADE DO CRISTIANISMO

Os privilégios de que goza a Igreja contribuem para enfraquecê-la, pois a riqueza nunca foi, para a Igreja, alavanca de vivência evangélica. A sociedade se dividia em duas castas, separadas pelo muro do privilégio: de um lado o alto clero – prelados, bispos e abades – e nobres e, de outro, a massa dos pobres que levava uma vida de miséria crônica, obrigada a sustentar os privilegiados. Os nobres viviam em profunda imoralidade e caindo no ceticismo.

UMA IGREJA COMPETINDO COM A NOBREZA

Difícil avaliar os bens eclesiásticos, se bem que se deve ter em conta que boa parte era destinada para atividades filantrópicas. As várias categorias eclesiásticas possuíamum patrimônio não pequeno. O próprio Vaticano, durante o papado de Gregório XIII, mandou construir uma segunda residência, o Quirinale (hoje residência do presidente italiano). Os cardeais usufruíam de boas fontes de renda, acumulando dioceses e benefícios. São Carlos Borromeu, antes da “conversão”, possuía 150 empregados.

O PRIVILÉGIO E A RIQUEZA

Isso era incompatível com o ardor apostólico, prova disso era o número de eclesiásticos: no século XVII, havia um sacerdote para 40/ 50 habitantes; no século XIX, um para 200/250; no século XX, um para 1.000 (com exceção da América Latina: 1 para 30.000). E na Itália, no século XVIII, havia 300.000 religiosos para uma população de 17 milhões. Mas, no meio de tão numeroso número de padres, faltavam sacerdotes para a pastoral.

A IGREJA PÕE SUA AUTORIDADE NO PODER

A Igreja tornou-se intolerante, não acreditando na boa-fé de quem não era católico. Acreditava-se quedificilmente se salvava quem morresse fora da Igreja católica. Ameaçada pelo protestantismo, pela filosofia racionalista e pelo iluminismo, a Igreja desconfiava de tudo o que era do “outro lado”, provocando episódios de incompreensão até mesmo frente às obras de escritores místicos.

Obras de Santa Teresa foram denunciadas à Inquisição, São João da Cruz, João d’Ávila e Luiz de Leon foram presos. Clamorosos os casos de Galileu Galilei - cujas afirmações do sistema copernicano foram condenadas como “tolas, sem fundamento na filosofia e formalmente heréticas” (Paulo V, 1616). A freqüência semanal à Missa e a observância do preceito pascal eram rigidamente controladas pelo pároco, favorecendo a hipocrisia.

PARA REFLETIR

1. Por que a sociedade cristã deste período não levava uma vida cristã?
2. Por que a liberdade é essencial para anunciar o Evangelho?

ANTÔNIO ROSMINI
UMA VOZ PROFÉTICA PELA LIBERDADE

Insegura a respeito de sua autoridade, que é moral e não política, a Cúria romana e os bispos não percebiam a própria fraqueza: estavam nas mãos do Estado, que lhes controlava os passos e nomeações.

Causaram escândalo os protestos do Pe. Antônio Rosmini (1797-1855):

“Toda sociedade livre tem essencialmente o direito de se eleger os próprios ministros. Este direito é tão essencial e inalienável como o de se existir. Uma sociedade que cedeu a outra a nomeação dos próprios ministros entregou-se a si mesma: a existência não é mais sua”.

A afirmação encontra-se em sua obra As Cinco Chagas da Igreja, n.º 74, editada em 1832. As outras Chagas eram: a divisão do povo e do clero no culto público, a formação insuficiente do clero, a falta de união entre os bispos e a escravidão diante dos bens eclesiásticos. Para Rosmini, a Igreja somente pode desempenhar sua missão apostólica se tiver aquilo que é essencial ao Evangelho: a liberdade.

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