Jornal - "MISSÃO JOVEM"
História da Igreja no Brasil
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O Papa João Paulo II convocou a Igreja para uma
nova evan-gelização, a ser realizada com novo
ardor, novos métodos e novas expressões. Isso aconteceu
em 1984, quando o Papa esteve na República Domi-nicana.
Alguns entenderam a nova evan-gelização em sentido mais conservador: voltemos à velha Igreja, à sacristia, deixemos de lado a preocupação social ou que, ao menos, não nos ocupe tanto. As nomeações episcopais no Brasil, em geral, deram preferência a candidatos menos comprometidos socialmente e mais administradores, preocupados com a disciplina interna da Igreja. Outros entenderam a nova evan-gelização como um reforço ao compromisso com os pobres. Na verdade, a linguagem de João Paulo II é conservadora na doutrina, mas socialmente comprometida com a causa dos pobres de todo o mundo.
A queda do Muro de Berlim, em 1989, sacudiu o mundo. Isso marcava o colapso do império soviético e dos regimes comunistas da Europa Oriental. Pareciam países sólidos, contando com o apoio de suas populações. Seus regimes garantiam emprego, moradia e assistência social, mas o preço era alto: a privação da liberdade individual, agravada pelo controle sobre a vida religiosa e cultural. Lá também havia os privilegiados e uma classe dirigente corrompida pelo prolongado exercício do poder. O paraíso comunista também era campeão na degradação do meio-ambiente, com a produção a qualquer custo. Terminava assim o período da Guerra Fria, iniciado em 1945, no qual o mundo vivia ao sabor do equilíbrio militar entre a Rússia e os Estados Unidos.
Infelizmente, criou-se a imagem de que o capitalismo neoliberal era o único caminho para o desenvolvimento das nações, o que, de modo algum, corresponde à verdade. Basta olhar a situação de pobreza da América latina, da África e da Ásia. Esses acontecimentos trouxeram um certo desânimo para as lideranças políticas, populares e religiosas, empenhadas num trabalho pela transformação da sociedade. O ideal socialista tinha sido rejeitado pelo povo mesmo onde tinha sido implantado. Este desencanto teve conseqüências também na Igreja brasileira, na Teologia da Libertação.
O mundo de hoje é muito mais complexo do que em outras épocas. As mudanças são tão rápidas que nada parece ser permanente. Surge um vazio espiritual e humano que é preenchido de qualquer jeito, venha de onde vier a receita. A grande bíblia atual são os livros de auto-ajuda (Paulo Coelho, Mônica Buonfiglio, Lair Ribeiro...). As religiões tradicionais parecem não responder às angústias da pessoa moderna. Surgem então religiões que adquirem um perigoso caráter terapêutico que, embora não deva ser excluído, não pode ser exclusivo. Em sua religiosidade, muitos não buscam a Deus, mas a si próprios. A Nova Era é a grande salada que oferece alimento a quem quer Deus sem religião, ou religião sem Deus, e Jesus Cristo sem Igreja. No liquidificador religioso se colocam todos os ingredientes possíveis: anjos, orientalismos, bruxaria, satanismo, astrologia, filosofia, cristianismo..., e o resultado é uma fé sem compromisso com a vida; uma fé que deixa de ser fé. O que fazer? Muitos católicos se preocupam com a situação, mas chegam ao diagnóstico equivocado de que é preciso voltar atrás na história. Jovens seminaristas e sacerdotes passam a apreciar as batinas, as faixas, os títulos de nobreza hierárquica, os paramentos litúrgicos, as cerimônias, e a cativar com danças, gestos, CDs.
Não é preciso imitar as outras Igrejas com a preocupação de perder ovelhas. Os que buscam Igrejas não-católicas estão preocupados com sua fé. Nossa maior preocupação deve estar no mundo dos indiferentes, para os quais Deus e religião nada contam. Nesta hora em que a Igreja brasileira parece estar silenciosa, acuada pelos desafios, até insegura, temos certeza de que se está gestando uma nova fase de sua história, plena de coragem e esperança. Sairá numericamente menor, mas muito mais forte para o anúncio e vivência do Evangelho. Prepara-se, nas palavras do Papa, para cruzar o limiar da esperança.
A vida religiosa brasileira (e latino-americana) foi sacudida por três fenômenos poderosos e imprevistos: as Comunidades Eclesiais de Base, o pentecostalismo protestante e a Renovação Carismática Católica (RCC). Cada um do seu jeito procura evangelizar sem a preocupação com as estruturas religiosas históricas, embora não as rejeitem, nem combatam. Foi um trabalho silencioso que questionou o modo católico de fazer pastoral, muito apegado ainda ao planejamento e à organização. É verdade que se fazia necessária a multiplicação de dioceses e paróquias, e isto foi feito, mas, entre outras limitações, faltou uma visão urbana de pastoral. As vocações estão aumentando. Temos hoje um clero brasileiro, jovem e diocesano, mas o crescimento do número de padres não acompanha o da população. A ausência do padre tem conseqüências muito sérias, pois é ele quem preside à Eucaristia, centro da vida católica. J. Comblin salientou que isso significou a protes-tantização da vida católica, pois o Culto da Palavra, presidido por leigos, é característica do protestantismo. No entanto, a falta de sacerdotes permitiu e exigiu o desenvolvimento de lideranças e ministérios leigos, levando à verdadeira eclesiologia: todos os batizados têm carismas e são chamados à diversidade de ministérios.
A multiplicação de dioceses e estruturas pastorais corre o risco de neutralizar na burocracia sacerdotes e religiosos, privando a pastoral direta dos melhores quadros. O planejamento pastoral pede muitas reuniões, muitos cursos. Muitos bispos, padres e religiosos se dedicam exaustivamente à formação e pagam o preço de não ter contato com as pessoas concretas. A pastoral perdeu o cunho do relacionamento pessoal e se transformou num cumprimento de programas. Tudo isso é necessário, mas as pessoas querem o contato pessoal, o relacionamento afetuoso, a possibilidade de conversar, de aconselhamento.
E nesse ambiente entram os participantes das CEBs, da RCC e os pentecostais protestantes. Evangelizam pessoalmente, de casa em casa, têm contato com a vida real das pessoas. Colocam ao alcance, especialmente dos pobres e sofredores, a salvação, a esperança de uma vida melhor, o conforto espiritual e existencial. Além disso, suas palavras são simples e conseguem tornar compreensível a mensagem cristã. Não conhecem grandes reflexões teológicas, mas transmitem existencialmente o amor de Deus. As fórmulas vazias e o poder das estruturas não convencem mais. O mundo novo pede uma atitude nova, e esses movimentos de evangelização a estão promovendo. Praticamente não precisam da paróquia, mas necessitam do padre para a missa, a comunhão, a confissão... Há concorrência saudável entre a pregação social das CEBs, o entusiasmo carismático e o ardor pentecostal. Os leigos estão competindo pelo Evangelho, o que nunca aconteceu na história da Igreja brasileira. A RCC e as CEBs têm um enfoque diferente: no caso dos carismáticos, a busca dos dons, da conversão pessoal para Cristo, de uma liturgia mais animada; as CEBs vivem a espiritualidade do compromisso social, lendo a Bíblia a partir da vida. Se a RCC corre o risco de se transformar numa religiosidade emocional, vazia de compromissos com a realidade, as CEBs podem correr outro risco: esquecer a individualidade, o sentimento humano e uma espiritualidade mais afetiva. O pentecostalismo brasileiro, de tradição protestante, é muito voltado para a conversão pessoal, o exorcismo, o combate anti-católico que atinge as raias da mentira e do fanatismo dos que se consideram salvos. Tem a virtude de formar pequenas comunidades, acolhedoras, atingindo de forma competente as periferias e favelas, onde conseguem reduzir os índices de criminalidade. No meio disso, correm também outros movimentos de espiritualidade cristã, com um carisma mais voltado para a classe média: os focolarinos, os cursilhistas, o Opus Dei, o Catecumenato, os movimentos familiares... O futuro da Igreja está sendo gerado nesse mundo quase subterrâneo dos pobres evangelizadores. O Espírito Santo, como sempre, nos reserva surpresas e nos garante a vitória de quem acredita na força do amor. Pe. José A. Besen Para Refletir
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