Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

Já no início da missão cristã, os apóstolos agregaram a si pessoas de vida santa e ungidas pelo Espírito, para o ministério episcopal, presbiteral, diaconal, missionário, o ministério dos profetas e dos doutores.

A estabilidade e o crescimento das comunidades necessitava de uma instituição que garantisse a unidade da fé e da vida cristãs. Uma Igreja com organização tanto em nível de ministros como de território.

BISPOS, METROPOLITAS E PATRIARCAS

Cada cidade recebeu o nome de paróquia, tendo como pastor um bispo. Com o tempo passa a se chamar de diocese (os nomes da organização eclesiástica têm origem na organização imperial romana).

Antes do ano 300, já se reconhece a figura do metropolita: os bispos de uma determinada província romana formavam uma província eclesiástica. Assim, todos os bispos da província tinham voz ativa na eleição de um novo bispo, enquanto que o bispo da capital - metrópole/metropolita - o consagrava.

No mesmo período surge uma outra instituição com influência fundamental no desenvolvimento da Igreja: os patriarcados. Algumas sedes diocesanas, ou por serem fundadas pelos apóstolos, ou pela situação geográfica, ou pela importância política adquirem uma autoridade especial, criando uma estrutura que engloba diversas províncias eclesiásticas, governada por um patriarca (esse nome aparece somente pelo ano 500). O patriarca tinha grande prestígio, às vezes verdadeira jurisdição e muitas vezes autoridade moral efetiva.

Os primeiros grandes patriarcados e que ainda existem, são:

- Roma: com responsabilidade na Itália e no Ocidente;
- Alexandria: com autoridade sobre o Egito, a Líbia e a Pentápolis;
- Antioquia: com autoridade sobre a Síria;
- Jerusalém: é honrado de maneira especial e tem jurisdição sobre a Cesaréia;
- Constantinopla: com autoridade sobre o Oriente.


Constantinopla: Basílica deSanta Sofia, símbo-lo da Igreja Ortodoxa Oriental - (séc. VI)

Do ponto de vista da honra e importância, Roma é o primeiro e Constantinopla o segundo patriarcado. (Obs.: no Ocidente temos ainda os patriarcados de Lisboa e de Veneza, mas são apenas títulos, compreensíveis pela política de uma época já ultrapassada).

Bispos, metropolitas e patriarcas consideravam a Igreja como uma grande comunhão, onde as decisões de uma Igreja tinham valor quando aceitas pelas outras. Uma visão sacramental da unidade.

A autoridade na Igreja vai despertando sempre mais exigente a pergunta: onde está a autoridade primeira na Igreja? Qual a missão de Pedro? Em quem continua o ministério petrino? Há uma autoridade maior com poder sobre todas as outras?

O MINISTÉRIO PETRINO: BISPO DE ROMA

A figura de Simão Pedro ocupa lugar central no colégio apostólico e no relacionamento com o Senhor. É o primeiro discípulo de Jesus em sentido próprio, que deu-lhe o nome de Pedro, que pode significar rocha, pedra preciosa, o mais importante.

A ele Jesus se dirige com as palavras decisivas: "Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra desligado nos céus" (Mt 16,17-19). "Confirma os teus irmãos" (Lc 22,32). "Apascenta os meus cordeiros" (Jo 21,15-17).

Após a ressurreição do Senhor, Pedro ocupa uma função de primeiro plano na Igreja: é sempre o primeiro apóstolo a ser nomeado, é a primeira testemunha da ressurreição, chefia a comunidade de Jerusalém, Paulo o chama de Cefas ou Pedro. Ele é a "rocha" da Igreja, sendo citado 195 vezes no Novo Testamento.

A LIGAÇÃO DE PEDRO COM ROMA

Após um período de viagens missionárias, com permanência em Antioquia e Corinto, Pedro se estabeleceu em Roma (não antes de 55) e ali é crucificado em 13 de outubro provavelmente do ano 64 (a tradição fala em 67).

A historiografia protestante quis negar a presença de Pedro em Roma, mas essa é atestada no Novo Testamento (1 Pd 5,13) e nos Pais apostólicos Clemente romano (Carta aos Coríntios 5-6) e Inácio de Antioquia (Carta aos Romanos 4,3) e nos apócrifos (Ascensão de Isaías e Apocalipse de Pedro).

Grande testemunho histórico indireto é o fato de que nenhuma outra cidade negou a tradição romana dizendo "o martírio foi aqui", "suas relíquias estão conosco". Ninguém rejeitaria esse prestígio.

Prova quase definitiva são as escavações arqueológicas realizadas sob a basílica de São Pedro nos anos 1940-1949 e 1954-1957. Ali encontrou-se um túmulo protegido de maneira particular e um monumento do ano 160, do qual temos notícia no ano 200 através do sacerdote Gaio: "Posso mostrar-te os túmulos de Pedro no Vaticano e de Paulo na Via Ostiense". É muito difícil contestar os resultados das escavações.

A Igreja de Roma é importante porque nela viveram Pedro e Paulo, colunas da Igreja, e ali testemunharam a fé com o martírio, e ali estão seus túmulos. Roma tem a missão de continuar o testemunho de Pedro e Paulo e a fidelidade à tradição.

PEDRO E SEUS SUCESSORES

Ninguém nega que Pedro recebeu de Jesus o poder das chaves, de confirmar os irmãos na fé. A pergunta é outra: esse poder era somente da pessoa de Pedro ou passou também a seus sucessores em Roma? Os protestantes em geral dizem que era de Pedro e somente nos tempos apostólicos. Depois passou a toda a Igreja e não a uma pessoa determinada.


Jesus lava os pés de Pedro. Autoridade é serviço (mosaico na capela Redemp-toris Mater, no Vaticano)

Novamente a resposta deve ser encontrada na tradição da Igreja. Pelo ano 180 o grande bispo e teólogo Irineu de Lião transmite uma lista de bispos de Roma: Pedro, Lino, Cleto, Clemente, Evaristo, Alexandre, Sisto, Telésforo, Higino, Pio, Aniceto, Sotero, Eleutério. Escreve Irineu: "Após ter fundado e edificado a Igreja, os santos apóstolos (Pedro e Paulo) confiaram a Lino o serviço do episcopado". Irineu deixa claro que a missão do bispo de Roma não é administrativa, mas da continuação do testemunho da verdade, o primeiro e próprio ministério de Pedro.

Foi lento o processo de tomada de consciência do conteúdo e da importância do ministério petrino, mas a história dos primeiros séculos revela com clareza que toda a Igreja olhava o bispo de Roma como o primeiro entre todos os bispos e patriarcas. Era claro que ele detinha o primado da caridade, possuía a missão de guardar a unidade na Igreja e a ele apelavam bispos de outros patriarcados. Nos grandes concílios da Antigüidade, os legados (representantes) do papa tinham uma palavra e autoridades especiais.

O problema não era e não é a autoridade dos sucessores de Pedro, mas a extensão dessa autoridade. Em outras palavras: até que ponto vai o poder do bispo de Roma sobre os outros patriarcados e Igrejas?

Roma evoluiu no sentido de afirmar um poder total e universal. O Oriente, pelo contrário, nunca admitiu isso, mas afirma a importância do papa como o "primeiro entre os iguais", aquele que exerce o ministério da unidade doutrinal, não disciplinar. Esse é o grande problema do ecumenismo, da unidade dos cristãos.

Pe. José Artulino Besen
Prof. de História da Igreja - ITESC

PARA REFLETIR

1.º Como foi se definindo a autoridade na Igreja?

2.º Qual é a essência do ministério de Pedro e do Papa na Igreja?

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