Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja no Brasil

A Igreja se Renova

No dia 15 de novembro de 1889, Deodoro da Fonseca proclamou a República. Foi um ato dos militares positivistas, com ligação quase nula com o povo, que não contestava o regime monárquico e amava o velho Imperador. No ano seguinte, em 7 de janeiro, foi extinto o Padroado e, em 1891, decretou-se a separação entre a Igreja e o Estado, com a liberdade de culto, a secularização dos cemitérios, a laicização do ensino nas escolas públicas, a negação dos direitos políticos aos religiosos e a introdução do casamento civil.

Foi um susto para os bispos que não estavam prevenidos para assumir o governo da Igreja. A separação obrigou o episcopado a refazer as estruturas eclesiásticas, desafio assumido positivamente.

Pena que a República não aproveitou o momento oportuno para fazer também a reforma no sistema latifundiário brasileiro, cujos senhores eram monarquistas. Em vez disso, preocupou-se com a estéril discussão racista de que a causa do atraso brasileiro era ter uma população índia, negra e mestiça, e que só a importação de brancos deslancharia o progresso. Essa mentalidade racista persiste ainda no inconsciente coletivo brasileiro.

Os bispos mais unidos com o Papa

Adquirindo as Igrejas mais liberdade para agir, o Papa Leão XIII convocou, em 1899, em Roma, um encontro do episcopado latino-americano. Era a primeira vez que isso acontecia. Com 400 anos de atraso, o que se queria era introduzir o Concílio de Trento (1545-1563) na vida eclesiástica americana. Antes, o direito do Padroado o impedira.

Os bispos retornaram para suas dioceses com uma nova legislação canônica, de espírito fortemente romano e apologético. Eles deviam enfrentar com coragem o socialismo, o espiritismo, o protestantismo e a "ignorância religiosa", palavra para designar a religiosidade popular: Uma Igreja na trincheira, fortalecendo-se na luta contra o "inimigo".

Traçaram-se normas concretas para a formação sacerdotal e exigiu-se que cada diocese tivesse seu seminário. Fomentou-se uma Igreja voltada para a ação religiosa, eliminando-se a ação política.

Papa Leão XIII

A renovação da vida católica

A proteção do Estado oprimira o episcopado, tirando dele a responsabilidade direta pela vida da Igreja. A separação foi positiva, e a estrutura eclesiástica reorganizada: em 1939 o Brasil contava com 17 arquidioceses e 56 dioceses (de 1500 a 1889, apenas 11 e uma arquidiocese).

Multiplicaram-se os encontros episcopais, os sínodos e concílios regionais. A preocupação jurídica prejudicou uma visão pastoral da realidade brasileira: muitas prescrições eram elaboradas na Europa.

Multiplicaram-se os seminários, onde cuidou-se com a formação intelectual e religiosa dos seminaristas. Infelizmente estes foram preparados mais para preservar a fé pelos sacramentos do que para a evangelização e a catequese. Surgiu assim um clero piedoso e avesso à política.

As escolas paroquiais e a catequese semanal ajudaram a formar uma nova geração católica. A reforma litúrgica do Papa Pio X, recomendando a Comunhão para as crianças, foi muito importante para a atividade catequética.

Dom Sebastião Leme, Cardeal arcebispo do Rio de Janeiro (1930-1942), preocupou-se muito em levar a Igreja a ter influência na vida política do país. Buscou congregar intelectuais no Centro Dom Vital (entre eles: Alceu Amoroso Lima e Tristão de Athayde); criou a Liga Eleitoral Católica (LEC) para apoiar candidatos católicos às eleições para a Assembléia Constituinte de 1933. Amigo de Getúlio Vargas, Dom Leme obteve uma legislação que reintroduziu a educação religiosa nas escolas e as capelanias militares e hospitalares.

Demonstrou a força da Igreja na inauguração do Cristo Redentor no Corcovado. Dom Leme despertou criativamente as forças católicas num momento de crise das lideranças políticas.

A participação dos leigos

De pouco adiantaria a ação episcopal, se não oferecesse aos leigos os meios de participação na vida eclesial. Novos movimentos e espiritualidades tornaram possível o surgimento de um laicato adulto. Inicialmente, o impulso dado às Congregações Marianas e ao Apostolado da Oração fez despertar o culto eucarístico e mariano.

A partir da década de 30, chegou a Ação Católica: os leigos, sob orientação dos bispos, levam a influência cristã para seus locais de vida e trabalho. Frutos da Ação Católica foram a Juventude Universitária Católica (JUC), Operária (JOC), Agrária (JAC) e Estudantil (JEC).
Através do método Ver-Julgar-Agir, buscaram caminhos para a transformação cristã da sociedade brasileira.

A Ação Católica levou até as últimas conseqüências seu compromisso cristão e engajou-se no movimento político, levando diversos de seus militantes à ação revolucionária. Com isso tornou-se independente da hierarquia que discordava desta postura, e ingressaram na luta armada contra o regime militar de 1964. Ao mesmo tempo, promoveu-se um grande trabalho de renovação litúrgica, bíblica e catequética. É a pastoral buscando se atualizar e responder aos desafios apresentados pelo mundo.

Movimentos

Os movimentos de espiritualidade e vida para os leigos deram e dão contribuição decisiva para a atividade pastoral: a Legião de Maria junto aos mais sofridos, as Equipes de Nossa Senhora e o Movimento Familiar Cristão para a santificação da vida conjugal, os Focolarinos para a vida comunitária e os Cursilhos de Cristandade para a pastoral ambiental: um líder cristão em cada quarteirão, um líder cristão em cada profissão. Grande variedade de movimentos foram criados também para a juventude.

Os padres, bispos e leigos puderam se atualizar através dos cursos do Movimento por um Mundo Melhor (MMM), de onde surgiram quase todos os grandes bispos renovadores da Igreja na segunda metade do século 20, motivados a saírem das sacristias e a se abrirem e assumirem atitudes positivas em favor da grande maioria marginalizada.

Infelizmente, os movimentos de espiritualidade e vida, por sua origem européia, se adaptaram mais ao estilo de vida das classes médias urbanas. Os pobres continuaram a nutrir sua fé nas devoções, procissões e irmandades.

União para a ação pastoral

A ação conjunta dos bispos ganhou força decisiva em 1952, com a criação da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e, pouco depois, com a fundação da Conferência Episcopal Latino-americana (CELAM). As forças se unem num objetivo pastoral comum.

A atuação pastoral ainda padece dos limites do modelo vigente de Igreja, o modelo de Cristandade: os bispos se apóiam no Estado para realizar suas ações: ensino religioso nas escolas públicas, capelanias militares, subvenções e isenções de impostos para os templos, a busca de privilégios... De certo modo é ainda uma Igreja privilegiada, trabalhando para o povo, mas ainda caminhando sofridamente para ser Igreja do povo, isto é, dos pobres, imensa maioria da população. Toda essa obra imensa de renovação será coroada e revitalizada pelo Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) e depois pelas Conferências Episcopais de Medellín (1968) e Puebla (1979).

Os bispos brasileiros, reunidos em Roma, tiveram contato com outros episcopados do Terceiro Mundo e participaram de muitos cursos e conferências de atualização.

Numa linguagem simples, poderíamos dizer que muitos foram príncipes e voltaram pastores. O próprio Papa os estimulou para a Pastoral de Conjunto, pois os problemas eram semelhantes em todo o país. O Concílio também despertou para uma Igreja despojada, pobre.

Um grupo de bispos se comprometeu a abandonar todos os sinais de riqueza ou ostentação, quer nas vestes, quer na moradia, assumindo um estilo de vida simples. Diversos deles abandonaram os palácios e foram morar em casas mais simples. Um espírito novo.
Pe. José Artulino Besen

PARA REFLETIR

1.º Por que o Papa Leão XIII convocou, em Roma, os bispos da América Latina?

2.º Qual a participação dos leigos neste período?

3.º Quais as grandes mudanças da Igreja brasileira a partir de 1952?

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