Jornal - "MISSÃO JOVEM"

História da Igreja

Nos primeiros três séculos, o cristianismo não modificou as condições gerais de vida onde se implantou.

Tertuliano (+ após 200), advogado e teólogo leigo norte-africano, afirma que os cristãos não se distinguem pela alimentação, roupa, habitação e estilo de vida. Seu específico é a vida religiosa e moral, tão bem expressa pela Carta a Diogneto (séc. II): “Os cristãos vivem na carne, mas não segundo a carne, residem na terra, mas vivem no céu... Eles amam a todos e são perseguidos por todos. São desconhecidos e mesmo assim são condenados; são mortos e assim conduzidos à vida. São pobres e enriquecem a muitos; falta-lhes tudo, mas têm tudo com fartura... Fazem o bem, e são punidos como malfeitores; quando condenados à morte se alegram como se fossem conduzidos à vida... Para resumir: aquilo que a alma é para o corpo, os cristãos são para o mundo”.

Viviam no mundo, mas diferentes do mundo

Teófilo, bispo de Antioquia, oferece um retrato dos cristãos: “Possuem um sábio domínio de si, praticam a continência, observam o matrimônio único, guardam a castidade, excluem a injustiça, extirpam o pecado pela raiz, praticam a justiça, observam a lei, mostram a piedade com fatos. Reconhecem a Deus e têm a verdade como norma suprema. A graça os guarda, a paz os protege, guia-os a palavra sagrada, a sabedoria os forma, dirige-os a vida eterna e Deus é seu rei”.


São Sebastião
Mosaico na Basílica de São Pedro in Vincolis. Século VII

Os cristãos, mesmo havendo entre eles os imperfeitos e pecadores, buscam a santidade de vida colocando valores novos nos hábitos comuns da existência.

A vida cristã e a piedade

Desde o início, a festa cristã por excelência foi a Páscoa, que durava 50 dias, incluindo Pentecostes. No século IV estabeleceu-se um calendário cristão: dias para a comemoração dos mártires, o dia do Natal e a festa oriental da Epifania.

Além do culto comunitário onde havia a pregação e a celebração da eucaristia, os cristãos cultivavam a oração privada e no lar. Rezava-se de manhã e à noite, antes da refeição e do banho, à meia-noite e ao canto do galo. A oração entre-meava suas ações. O olhar dos cristãos estava sempre dirigido para o céu. Usava-se muito o sinal da cruz como defesa contra o mal.

Tertuliano testemunha que, no norte da África, os cristãos levavam ao pé da letra o preceito de Jesus de rezar sem cessar (Lc 18,1). Eles iniciavam e acompanhavam todo tipo de ação com o “pequeno sinal” (sinal da cruz na fronte). Feito com fé, o sinal da salvação encerra uma verdadeira e própria força miraculosa, capaz de vencer doenças e veneno.

Devido à imoralidade que neles se manifestava, evitavam os espetáculos teatrais, os combates entre gladiadores e com os animais. Alguns condenavam os banhos termais, mas o rigoroso Tertuliano os freqüentava.

Tertuliano e Hipólito vetavam aos cristãos desempenhar ofícios estatais e o serviço militar para evitar o perigo de ter que prestar culto ao imperador. No entanto, houve soldados entre os cristãos. Um dele foi São Sebastião. Proibiam-se as profissões que pudessem entrar em contato com a idolatria, as lendas e a sabedoria pagãs como as de pintores, escultores, atores, professores, gladiadores, guardas dos templos. Numa cultura pagã, com essas proibições desejava-se evitar o perigo do contágio e do retorno aos antigos cultos.

Os cristãos não colocavam suas aspirações neste mundo, mas no “século futuro”, na expectativa da nova vinda do Senhor (parusia). Os bens terrenos eram desejados apenas por possibilitarem a prática da caridade, tendo eles como norma suprema os dois mandamentos do amor a Deus e ao próximo.

A esmola não era apenas colocada ao lado da oração mas, inclusive, num posto mais alto. Desde os tempos apostólicos se organizou o cuidado dos enfermos, confiado aos diáconos e diaconisas, a proteção dos órfãos e viúvas, escravos e prisioneiros, andarilhos e peregrinos. A estes últimos procurou-se oferecer hospitalidade.

Emprestava-se sem juros. Isso tudo era muito claro naqueles que seguiam a Jesus, que veio para anunciar o ano de graça do Senhor.

Ajudavam-se as comunidades distantes e mais pobres. Situa-se aqui o embrião das grandes obras sociais da Igreja: asilos para órfãos e idosos, hospedarias e hospitais, caixas de caridade, sepulturas cristãs.

O modo de apresentar-se primava pela modéstia, desprezando-se o luxo e as modas, que simbolizavam a arte da luxúria e eram motivo de tentação. Como divertimentos, os cristãos praticavam a ginástica, a caça e a pesca.

Matrimônio e Virgindade

O matrimônio era tido em grande conceito e exigia-se a monogamia, castidade pré-matrimonial e a fidelidade conjugal. Lamentavam-se matrimônios entre cristãos e pagãos. Condenava-se como assassinato o costume difundido do aborto e da exposição de recém-nascidos nas ruas.


O Bom Pastor. Afresco na cripta de Lucina, em Roma - Século III

O matrimônio era celebrado segundo a lei civil, perante a autoridade local. Aconselhava-se que, em seguida, o casal recebesse a bênção do bispo. Um segundo matrimônio era tido como inadmissível, mas, na prática, era tolerado. Sabemos que Paulo o recomenda para as jovens viúvas (1Tm 5,14). Sacerdotes, bispos e diáconos não podiam casar-se uma segunda vez.

No caso da penitência, as soluções vão da mais decisiva proibição até a permissão, dependendo da concepção que se tinha de Igreja: comunidade de santos ou comunidade de pecadores que buscam a santidade.

A virgindade, por causa do Reino dos céus, era tida em grande consideração: homens e mulheres renunciavam ao casamento como forma de ascese e de consagração total às realidades celestes.

No século III surge na Igreja uma verdadeira ordem de virgens consagradas, em muitos casos comprometiam-se por um voto diante do bispo. Elas permaneciam em suas casas e dedicavam-se à oração, aos ofícios litúrgicos e à caridade. Naquele entusiasmo, próprio das origens, existiam até os matrimônios espirituais: convivência, num mesmo teto, de homens e mulheres consagrados pelo voto de castidade. Mas, devido aos perigos e suspeitas provindos desta espécie de vivência religiosa, a Igreja proibiu esses matrimônios, especialmente no sínodo de Ancira (314).

A seriedade e a pureza de vida dos cristãos era tão elevada que um médico pagão, Galeno (+ 200), observou que os cristãos tinham tal domínio de si e fervor no dedicar a vida toda à causa nobre que estavam acima dos filósofos.

Pe. José Artulino Besen

PARA REFLETIR

  1. Em que mais se distinguiam os primeiros cristãos?
  2. Por que os cristãos evitavam o serviço militar e certas profissões?
  3. O que os primeiros cristãos ensinam aos cristãos do Terceiro Milênio?

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