Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Igreja no Brasil

DIGNIDADE HUMANA e PAZ

Será a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica realizada na história da Igreja Brasileira

A escolha do tema e do lema da CF é sempre resultado de ampla consulta entre aqueles que trabalham anualmente com a Campanha, e se traduz num processo educativo que ajuda
a perceber as exigências da Palavra de Deus diante dos problemas concretos da sociedade.

Três são os grandes resultados de toda Campanha da Fraternidade:

1. faz os agentes e os fiéis estudarem a Palavra de Deus e aprofundarem as conseqüências da fé;

2. comunica a todos, inclusive aos que não participam, a voz profética da Igreja diante das graves questões sociais;

3. faz nascer iniciativas pastorais concretas para responder aos clamores da realidade analisada e às exigências da Palavra de Deus refletidas nas comunidades.

Neste ano a CF é ecumênica: sua organização e realização acontecerá em parceria com as diversas igrejas, coordenadas pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil).

Esta CF é, portanto, algo extraordinário: a própria colaboração entre as diferentes igrejas já é um resultado positivo.

Momento histórico único

O ano 2000 traz uma carga simbólica muito especial na caminhada do cristianismo. Não é possível celebrar estes dois mil anos de cristianismo sem perguntas graves sobre o que fizemos no passado, sobre o que somos e fazemos no presente e sobre os projetos que temos para o futuro como resposta ao Evangelho que anunciamos e que, primeiro, devemos testemunhar.
Estamos num momento histórico decisivo para a humanidade e numa fase de grandes transformações históricas. Ao mesmo tempo em que nunca houve tão forte consciência a respeito dos direitos humanos, nunca a humanidade teve tanto poder para destruir globalmente a vida.

Tema e lema

Dignidade Humana e Paz é o tema da CF 2000. Praticamente ele recolhe e resume o espírito dos temas dos anos anteriores, englobando o respeito que se exige aos direitos fundamentais do ser humano.

Novo Milênio sem Exclusões é o lema que completa e enriquece ainda mais esta reflexão. Se alguém é excluído, a dignidade humana de todos é posta em dúvida e a paz é de mentira.

As Igrejas, unidas na realização da CF, já são, neste gesto de união, um sinal do esforço a ser feito para superar as exclusões no meio dos discípulos de Jesus.

Dignidade humana e paz

Dignidade humana é algo que toda pessoa tem pelo simples fato de ser humana.

Nenhuma desculpa serve para justificar o desrespeito à dignidade de uma mulher ou de um homem, porque se trata de vida humana - e aí não pode haver exceções.

Diariamente, e por diversas razões, são noticiadas situações de guerra. A paz, no entanto, não é só ausência de guerra, daquela guerra declarada com exércitos em combate. Falta paz sempre que a vida humana é violentada.

Falta paz quando o homem agride a natureza, quando há desespero por causa do desemprego, da falta de pão, da saúde maltratada, da miséria, do desabrigo, da juventude drogada, da violência em casa e nas ruas, dos encarcerados sem direitos, das crianças sem escolas, dos preconceitos contra os diferentes...

Enfim, há falta de paz quando não respeito a mim mesmo, ao outro, à natureza, a Deus. Paz é o resultado das relações marcadas pela justiça, pela solidariedade e pelo amor.

Sem exclusões

Segundo a Declaração Universal dos Direitos Humanos, as pessoas já nascem livres e iguais, com dignidade e direitos, simplesmente por serem humanas.

Não entra aí nenhum outro tipo de merecimento: não depende de situação social, de integridade física, de raça, cor da pele, sexo, religião...
Por isso, qualquer tipo de exclusão viola o princípio da dignidade básica porque estabelece outras condições para avaliar a dignidade ou não de uma pessoa.

A sociedade, diante do desrespeito aos direitos humanos, passa a viver insegura, já que foi ultrapassado um limite que deveria ser intransponível para que todos pudéssemos viver tranqüilos. A exclusão social é justamente esta porta pela qual a paz escapa e pela qual a violência entra na vida de todos.

A dignidade ferida

Existem várias formas de destruir a dignidade humana, algumas são bem visíveis e de outras percebemos apenas
as conseqüências. Para ficar mais fácil de compreender as formas pelas quais a dignidade humana é ameaçada, classificamo-las em três grupos: a dignidade ferida nos porões da vida, à luz do sol e nos bastidores.

1. A dignidade ferida nos porões da vida

O porão é assustador. Os filmes, que visam despertar medo, colocam lugares escuros, sombrios como cenário referencial da ação. E os porões da humanidade, como são?

É impossível ver a realidade da nossa sociedade e analisá-la sem ir a esses porões, onde se situa o que ela tem de mais assustador, aquilo que só pode acontecer no meio das trevas.

O nosso olhar nesses porões, mais que provocar medo, deve provocar indignação e, ao mesmo tempo, esperança.

Indignação pelo que ainda acontece, depois de tanta evolução, na história humana.

Esperança porque Jesus foi o sinal bem concreto da solidariedade de Deus com as vítimas de todos os porões.
São muitas as pessoas que vivem nos "porões" das cidades. Limitamo-nos aqui a três situações concretas: trabalhadores escravizados, trabalho e prostituição infantil e moradores de rua.

Trabalhadores escravizados: a escravidão faz parte da vida brasileira. Em 1993, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) já dizia que o Brasil é um dos nove países do mundo com problemas sérios de escravidão. O pior é que se trata de uma prática constante e presente em vários setores da economia. Vejamos:

- a CPT (Comissão Pastoral da Terra) denunciou, em 1993, a existência de
- 16.442 pessoas escravizadas em 19 propriedades rurais de nove estados;
- o Ministério do Trabalho (1995) estimava que 8.000 adultos e 2.000 crianças viviam em condições de semi-escravidão e escravidão em carvoarias no MS.

Muitos outros exemplos poderiam ser citados em que a dignidade humana é ameaçada através do trabalho escravo.

Exploração do trabalho infantil: Conforme dados da OIT, havia no Brasil, em 1996, uma multidão de 7,5 milhões de crianças e adolescentes trabalhando como adultos. Na América Latina, nessa triste estatística, o Brasil só fica atrás da Guatemala e do Haiti.

A prostituição infantil é outro exemplo que assume dimensões assustadoras em nosso país. Uma promotora do Pará afirma: "são coisas tão bárbaras que, se não existissem vídeos e fotografias, não daria para acreditar que um ser humano possa fazer isso com uma criança".

Moradores de rua: é cada vez maior o número de pessoas que vivem nas ruas. E, desta população abandonada, as crianças constituem uma parcela considerável. O número de sem-teto vivendo nas calçadas, praças ou sob viadutos, na região metropolitana no Rio de Janeiro, em 1991, era de 1.016; mas, em 1996, já havia chegado a mais de 5.000 pessoas.

2. A dignidade ferida à luz do sol

Mas há situações de desrespeito à dignidade humana e de violência que ocorrem de forma aberta, sem subterfúgios, "à luz do sol".

São situações bem visíveis: saúde da população, favelas, falta de segurança, filas angustiantes, idosos sofrendo, portadores de deficiência, desemprego, salários injustos, assaltos, prostituição...
Vamos dar ênfase especial aos "filhos e filhas" da História de 500 anos de dominação de nosso país: os índios, os negros e as mulheres.

O genocídio dos povos indígenas: os povos indígenas, na história brasileira, foram considerados estorvos para o progresso e o desenvolvimento. Por isso, foram mortos, explorados, obrigados a sair de suas terras...

A escravidão dos povos negros: a pirâmide social coloca homens brancos e mulheres brancas no topo e homens negros e mulheres negras na base, estando a mulher negra em situação ainda pior.
Em 1994, a renda média das mulheres negras no Brasil era de 1,9 salário mínimo, enquanto a renda das mulheres brancas era de 3,9 salários mínimos. Séculos de escravização deixaram feridas difíceis a serem curadas.

A discriminação da mulher: devido aos avanços que a mulher fez em vários setores, quase ninguém se atreve a afirmar, em teoria, que a mulher é inferior ao homem enquanto ser humano.

A prática, no entanto, é bem diferente; já que, freqüentemente, a mulher continua sendo discriminada sexual, profissional, política e até religiosamente.

3. A dignidade ferida nos bastidores

São as características internas da pessoa e da sociedade que ferem e destroem a dignidade humana:

Mentes e corações: as decisões e suas conseqüências dependem do que se passa nas mentes e nos corações das pessoas.

No Brasil, as idéias e sentimentos que levam ao desrespeito permanente da dignidade humana têm duas raízes principais:

1. a aceitação normal de uma sociedade dividida em classes: os que têm e que não têm.
2. a aceitação natural do inaceitável, como crimes e tragédias, que não despertam mais reação. Essas atitudes são reforçadas pelo consumismo, competição e enriquecimento como objetivo de vida. A própria educação que prevalece leva ao individualismo egoísta, ao hedonismo e a concorrência sem ética e sem limite.

Estruturas econômicas: um sistema econômico onde tudo funciona em vista da produção e do lucro. Nesta idolatria do mercado, a maioria fica excluída. Basta observar esta trágica realidade:

- as 200 pessoas mais ricas do planeta ganham 500 dólares por segundo;
- o Brasil é um dos campeões da concentração de renda: os 20% mais ricos controlam mais de 64% da renda, enquanto os 20% mais pobres sobrevivem com 2,5% da renda.

Sistema político: Há ainda muitos políticos que usam das instituições em benefício de seus próprios interesses, enquanto que as pessoas pouco participam das decisões que atingem a vida de todos.

Por sua vez, os grandes meios de comunicação controlam a opinião pública, etc. Todas essas características, entranhadas em nossa cultura, permitem a corrupção generalizada e a degradação da dignidade humana.

Educação para a paz

Para os cristãos, todos os que têm sua dignidade ameaçada, ferida e negada
são como o assaltado e abandonado na beira do caminho (cf. Lc 10,25-37).

Para amar a Deus e herdar a vida eterna só temos uma alternativa: tornar-nos o próximo de todas as vítimas de todas as formas de assaltos à vida e à dignidade humana.

Construir vida digna para cada uma e para todas as pessoas humanas: Eis a finalidade principal da CF/2000. Essa é uma das condições básicas para que haja paz entre as pessoas e no mundo.

Se houver um grande esforço solidário de todos, será possível construir uma sociedade fraterna e justa. É necessário, porém, colocarmos todas as dimensões da vida a serviço de todas as pessoas: a economia, a política, a ciência, a tecnologia, a arte, a cultura e a própria religião.

O valor da vida de cada um e de todos deve ser o ponto de referência das decisões. Trata-se certamente de um trabalho desafiante, difícil, mas não impossível, já que temos todas as condições para que exista esta sociedade em que as pessoas convivam fraterna e solidariamente.

Basta colocar a serviço de todos o saber acumulado, os conhecimentos, as tecnologias, os bens e os recursos já produzidos por toda a humanidade em sua longa história, com uma dose maior de solidariedade, justiça e amor.

As Igrejas cristãs, todas elas, têm uma grande responsabilidade nesta empreitada histórica!

Fonte: Texto-base da CF

Mauri Luiz Heerdt

PARA REFLETIR

1. Qual a grande novidade da CF 2000?

2. Qual o relacionamento existente entre a dignidade humana e a paz?

3. Quando a dignidade humana é ferida nos "porões" da vida? À luz do sol?
Nos bastidores? Cite exemplos.

4. Como educar para a paz? Qual deve ser a contribuição das Igrejas cristãs?

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