Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Igreja no Mundo

O PRIMEIRO IDEAL

“Muitos empreenderam compor uma história dos acontecimentos que se realizaram entre nós, como no-los transmitiram aqueles que foram desde o princípio testemunhas oculares e que se tornaram ministros da Palavra. Também a mim me pareceu bem, depois de haver diligentemente investigado tudo desde o princípio, escrevê-los para ti segundo a ordem, excelentíssimo Teófilo, para que conheças a solidez daqueles ensinamentos que tens recebido” (Lc 1,1-4).

Assim tem início uma história de Jesus Cristo, o terceiro Evangelho. Uma história cuja finalidade o próprio Lucas estabelece: “conhecer a solidez do ensinamento que temos recebido”.

A história é o grande meio de purificarmos e reforçarmos a ação e, ao mesmo tempo, recuperarmos a força e o entusiasmo dos primeiros ideais. Em outras palavras, a função da história não é defender ou acusar a bondade ou maldade das ações humanas, e sim ver se estão no caminho do primeiro ideal.

Lucas não parou na Boa-nova-História de Jesus. Ele faz com que a história de Jesus se prolongue na história da Igreja e, com a missão do Espírito Santo em Pentecostes, inicia os Atos dos Apóstolos. Toda a história da Igreja está em continuidade com a história apostólica, pois ela é a atuação concreta dos cristãos movidos pelo Espírito.

A história dos cristãos tem origem na Bíblia e se consumará na vitória final de Cristo, quando tudo será entregue ao Pai.

HISTÓRIA DE HUMILDES

Houve um tempo em que se confundia história da Igreja com defesa da Igreja. Era uma descrição dos fatos cristãos seletiva: realçar a beleza dos acertos e tentar explicar os erros como se não fossem coisa da Igreja. Tudo o que era certo era da Igreja católica. Tudo o que não era bom era dos hereges, dos desviados, dos cismáticos protestantes, dos inimigos da fé católica.

O papa Leão XIII (1878-1903), ao abrir os Arquivos do Vaticano aos historiadores, deu um novo alento à pesquisa: nenhuma luz deve ser escondida, nenhum erro ocultado. A Verdade não faz mal a ninguém.

O mesmo espírito norteou a decisão de João Paulo II quando, na Tertio Millennio Adveniente (TMA), pedia uma revisão da história da Igreja, especialmente do segundo milênio. Assim como cada cristão é sujeito de penitência, a Igreja, como povo, também o é: ela deve continuamente louvar a Deus pela força que recebe de seu Senhor e continuamente pedir perdão pelas suas infidelidades.

O exemplo vem das Sagradas Escrituras: o Espírito Santo quis que fosse narrada toda a maravilha do amor de Deus pelo povo eleito. Mas também quis que se revelasse sua infidelidade, violência, idolatria, traição.

Os evangelhos não escondem a traição de Pedro e de Judas Iscariotes, as discórdias entre judeus e helenistas, a contribuição de Paulo no apedrejamento de Estevão.

Quanto mais se retrata a infidelidade humana, mais surge radiante a santidade e a misericórdia de Deus. Não é o nosso pecado que destruirá o plano divino de salvação.

BUSCAR A FIDELIDADE

Fundamentalmente, a história da Igreja se confunde com a fidelidade ao Lava-pés ou com a tentação do poder.Servir ao mundo ou ser servida. Conceber-se como um poder ou entender-se como um serviço humilde, desarmado, generoso para com a criação.

O modelo da Igreja é Jesus lavando os pés de seus discípulos; a antítese é os discípulos procurando quem lhes lave os pés.

Essas duas histórias não caminham separadas, pois se assim fosse, teríamos períodos de Igreja-pecado e períodos de Igreja-santidade. São realidades simultâneas: cristãos que fazem de sua vida um serviço, cristãos que caem na tentação do poder. Temos as grandes obras brotadas do amor cristão, como também temos as grandes obras nascidas do egoísmo cristão.

O Espírito nunca deixa que o mal triunfe e faz com que continuamente surjam jardins de amor e santidade no meio dos pântanos do orgulho, do pecado dos membros da Igreja.

A Igreja, sobretudo no segundo milênio, passou pela terrível tentação do poder: cristãos, bispos e papas brigavam e guerreavam pelo prestígio diante do mundo. Papas e bispos tinham seus exércitos particulares e matava-se em nome de uma suposta verdade de Igreja condutora dos destinos políticos do mundo.

O saldo foi doloroso: o cisma do Oriente em 1054, o cisma luterano do Ocidente em 1517, a Inquisição, as Cruzadas, o Colonialismo, as Guerras de religião. Através dessa dor infligida ao ser humano e do pecado diante de seu Senhor, a Igreja foi aprendendo a ter sempre mais clareza de sua missão de serviço, de respeito à consciência individual e à cultura dos povos.

IGREJA FERMENTO E LUZ

Parece muito claro que a grande vocação da Igreja neste novo milênio seja a do reencontro sempre mais claro com a simplicidade do Cristo.

Não ser uma Igreja de ministros resplandecentes em vestes e cerimônias, habitando palácios, mas ministros de um Cristo crucificado, nu em seu amor pela humanidade.

Não uma Igreja de cristãos de sacristia, mas de cristãos servidores do ser humano, do mundo e de toda a criação. Pequena, singela, fermento na massa, luz em meio às trevas, semente lançada na história.

PROJETO HISTÓRIA DA IGREJA

Nos dois últimos anos, MISSÃO JOVEM publicou mensalmente artigos sobre a História da Igreja no Brasil, agora disponíveis num livro. Era uma contribuição concreta à reflexão cristã por ocasião dos 500 anos do Evangelho no Brasil.

A partir do próximo número, passará a publicar artigos sobre a História da Igreja cristã, especialmente da católica. Uma história simples, partindo da vida e das iniciativas do povo cristão nestes dois milênios. Uma história que reforce nosso amor pela Igreja de Jesus, nos faça sentir a alegria de continuarmos a missão de tantos santos, mártires, missionários, leigos, religiosos que, nesses dois mil anos, anunciaram e viveram o Evangelho.

MISSÃO JOVEM espera, desse modo, oferecer uma nova contribuição eclesial a seus leitores, dela esperando frutos de compromisso, de revisão de vida, de ardor missionário.

Pe. José Artulino Besen

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