Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Igreja no Mundo

rescem as igrejas pentecostais e diminuem os que se dizem católicos. Preocupa o aumento dos que se professam sem religião. Parlamentos e grupos de militantes querem legalizar o aborto, a eutanásia etc. Mas, nem por isso, as Igrejas latino-americanas renunciam ao seu dever profético e missionário.

Como vimos na edição passada, desde 1500, muitos missionários se encarregaram de cumprir, em nossas terras, o mandato de Jesus:

“Ide, e fazei que todas as nações se tornem discípulos” (Mt 28,19). A expressão Inculturação do Evangelho não constava no vocabulário daquela época. Mesmo assim, nos emociona o fervor que os motivou a se doarem para anunciar a Boa Nova em nossa terra. Os tempos mudaram e a Igreja amadureceu na compreensão do mandato do Senhor. Hoje, falamos de inculturação, novos métodos... Mas é bom ter cuidado para que a paixão e o ardor que motivam o anúncio não passem de um “marketing” religioso superficial.

A IGREJA E A TRANSFORMAÇÃO DA SOCIEDADE

O episcopado latino-americano que participou do Concílio Ecumênico Vaticano II (1962-1965) era considerado conservador e preocupado, sobretudo, com a defesa da doutrina. Este mesmo episcopado causou estranheza quando, em 1968, na Conferência Episcopal de Medellín, produziu documentos tão avançados e com forte preocupação social. Na década de 50, o Brasil passou pela euforia desenvolvimentista: achava-se que era pobre porque era subdesenvolvido, não havia progresso. Acreditava-se que com mais fábricas e escolas desapareceria a miséria. Mas, pelos anos 60, percebeu-se que a miséria aumentara. As lideranças, com visão social, concluíram de que não se supera a pobreza apenas evoluindo no plano econômico, era preciso um desenvolvimento integral, que libertasse o homem como um todo. Em 1959, a Revolução Cubana atraiu a atenção das lideranças de esquerda e alimentou a esperança dos pobres.

UMA IGREJA A SERVIÇO DO POVO

Golpes militares ocorreram na América Latina. No Brasil, em1968, instaurou-se a ditadura do terror. Os militares tudo faziam para impedir a ação da Igreja, inclusive financiando seitas que, pregando a salvação das almas, afirmavam que o resto era o diabólico comunismo. Movimentos organizados, religiosos e leigos que promoviam a justiça foram perseguidos e até eliminados. Uma grande página de martírio foi escrita neste período. Felizmente, naquele período tão difícil, o Brasil teve a graça de ter um episcopado profético, radicalmente comprometido com os pobres. A CNBB, que enfrentou a repressão militar e a exploração capitalista, tornou-se o órgão mais respeitado. Surgiram pastorais de fronteira como a Comissão da Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral Operária (PO), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Ao mesmo tempo, a integração com os movimentos populares deu origem às Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s).

Os pobres no coração da Igreja A ação profética desencadeada na Conferência de Medellín (1968) foi confirmada na Conferência de Puebla (1979), onde se fizeram presentes Paulo VI e João Paulo II. Já em 1971, o padre peruano Gustavo Gutiérrez publicou sua obra Teologia da Libertação, focalizando que o nosso Deus é o Deus da Aliança com os marginalizados e desclassificados. No livro, Gutierrez afirma que o cristianismo da misericórdia não devia ser apenas da assistência pela esmola, mas do compromisso com a superação das desigualdades sociais. Dessa forma, a Teologia da Libertação oferecia uma nova espiritualidade para o engajamento paroquial, comunitário e religioso. Isso se manifestou num “novo jeito de ser Igreja”, que se concretizou nas Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s). Estas novas irmandades, unidas na busca de trabalho, saúde, escola, catequese e eucaristia, sempre se preocupara em unir fé e ação política em vista da transformação da realidade. As CEB’s contribuíram muito para o surgimento de lideranças leigas animadas e corajosas.

UMA NOVA EVANGELIZAÇÃO

Em 12 de outubro de 1992, João Paulo II, na Conferência de Santo Domingo, convocou a Igreja para uma Nova Evangelização, com a finalidade de “levar os batizados a retomarem consciência de sua fé”. Houve quem entendesse a nova evangelização do ponto de vista conservador, isto é, uma volta à velha Igreja, deixando de lado a luta pela justiça social etc. Mas outros viram nela um reforço ao compromisso com os pobres. A Nova Evangelização queria também responder ao vazio espiritual e humano que estava sendo preenchido de qualquer jeito e com qualquer “receita”, como a leitura dos livros de auto-ajuda etc.

No “liquidificador religioso” passou-se a colocar todos os ingredientes possíveis:

- anjos, orientalismos, satanismo, astrologia etc.

O resultado de tudo isso foi uma fé sem compromisso com a vida. Diante disso, muitos católicos acharam que fosse necessário voltar atrás na história para não “perder” mais fiéis.

Cabe aqui um questionamento:

“Será que não deveríamos nos preocupar mais com os indiferentes, para os quais Deus e religião nada contam?”

OS LEIGOS EVANGELIZAM

Embora tenhamos atualmente um clero brasileiro jovem e diocesano, estamos bem abaixo do que foi durante os anos 50. Hoje, a proporção é de um padre para cada dez mil habitantes. Isso exigiu e exige um maior desenvolvimento das lideranças e ministérios leigos.

Para evangelizar a sociedade, a Igreja deve ser mais ministerial e presente em todos os campos:

- escolas, trabalho, famílias etc.

Os protagonistas, nestas áreas, são os fiéis leigos, chamados a desempenhar o papel de “sal da terra” e de “luz do mundo”. E nisso, a América Latina tem muito exemplo a dar para a Igreja no seu todo.

ALÉM-FRONTEIRAS

Apesar dos grandes problemas internos, os bispos brasileiros se mostram sempre mais sensíveis à ação missionária além-fronteiras, pois cada bispo, enquanto membro do Colégio Episcopal e sucessor legítimo dos Apóstolos, é responsável pela evangelização do mundo inteiro (cf. Ad Gentes). Cerca de dois mil missionários estão atualmente trabalhando fora do país. Em sua maioria são religiosas, mas há também presbíteros, alguns diocesanos, e uma presença significante, embora pequena, de leigos.

Afirma Dom Paulo Moretto, bispo da diocese de Caxias, RS:

“Está na hora de rompermos definitivamente com o egoísmo eclesiástico que só nos permite girar ao redor da igreja paroquial, do nosso convento ou casa provincial. Estruturas que, não raramente, amarram e impedem os apaixonados pelo Reino de Deus de alçar vôo”.

PARA REFLETIR

1. No Brasil descobriu-se “um novo jeito de ser Igreja”. Como foi isso?

2. Quais as mudanças mais significativas da sociedade brasileira nestes últimos 30 anos?

3. Puebla afirmou: “A América Latina deve dar de sua pobreza”.
O que significa concretamente esta afirmação?
O que ainda impede uma maior abertura missionária das Igrejas particulares do Brasil?

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