Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Jovens

o fazer essa afirmação, Carlos Drumond de Andrade evidencia a principal característica do ser humano: sua singularidade. Muito se discute sobre “os adolescentes” ou “os aborrecentes”, como pejorativamente são chamados. Certamente a adolescência, enquanto fase do ciclo de vida, apresenta características, crises e desafios comuns a todas as pessoas, mas todos os adolescentes são iguais?

NA MODA, MAS DIFERENTES

À primeira vista, ou sob um exame pouco cuidadoso, é possível pensar que sim, todos os adolescentes são iguais. Na linguagem: com grande utilização de gírias. No vestuário que pode ser considerado uniforme: calça baixa e blusa curta para as meninas; boné, bermuda larga e camiseta para os meninos...

Sem falar nos acessórios de prata amplamente utilizados. Para a diversão: internet. Como meio de comunicação: Messenger. Principal queixa: sua aparência. Conflitos: com os pais. Sim. A partir dessas informações, é possível concluir que todos os adolescentes são iguais. Porém, tal conclusão é equivocada!

Nenhum adolescente é igual a outro, da mesma forma que nenhum adulto é igual a outro, que nenhum idoso é igual a outro, ainda que compartilhem os mesmos momentos evolutivos e os desafios inerentes a eles. Penso que, na adolescência, mais que em outras fases da vida, o ser humano acredita que a igualdade é tão imprescindível como o ar que respira. Isso explica o motivo pelo qual aparentemente todos os adolescentes são iguais. Sentir-se igual ao outro, que é objeto de admiração, provoca uma sensação de conforto e bemestar, na medida em que adotamos o seu padrão de normalidade.

Dessa maneira, em busca de si mesmo, o adolescente tenta parecer-se com o outro. Os hormônios contribuem para comportamentos de impulsividade, mas, ainda assim, podemos refletir sobre as razões que levam milhares de adolescentes para mesas cirúrgicas com o intuito de parecer-se com alguma pessoa eleita pela mídia como referencial de beleza. Ou ainda, os motivos que levam-nos a pensar que existe apenas um tipo de beleza.

PADRÕES

Uma diferença pode ser símbolo de orgulho ou de vergonha. O contexto cultural define o que é “normal, belo e bom”. Em terra de cegos, quem enxerga é deficiente. Além disso, o que é “normal, belo e bom”, em um tempo, poderá não o ser anos depois. Um bom exemplo disso são as mudanças no padrão de beleza feminina.

Somos capazes
de estabelecer
relações genuínas
de afeto somente
quando olhamos
para as pessoas e
nos esforçamos
para perceber o
que está além das
aparências

Uma mulher considerada bela sessenta anos atrás, hoje seria encaminhada para um cirurgião plástico. A mídia em geral, mas principalmente a televisão, promove ou mantém a noção de “normal, belo e bom”. Verifique, por exemplo, as características dos galãs das novelas e não se surpreenda ao deparar-se com pessoas muito parecidas.

A criança negra, japonesa, índia... que vê como apresentadoras de programas infantis apenas “tias” loiras com grandes olhos azuis, provavelmente terá dificuldades para perceber a beleza de uma pessoa que tem sua cor de pele, raça ou nacionalidade.

NO AMBIENTE ESCOLAR

O contexto escolar por vezes reforça o desejo pela igualdade, ou melhor, o desejo por ser algo que ninguém é, ou que poucos são. Exigir que em função da idade todas as pessoas apresentem o mesmo ritmo de aprendizagem e sejam capazes de obter os mesmos resultados, é exigir que a pessoa abandone algo que faz parte de si mesmo: sua diferença.

Romper com a “indiferença às diferenças” é uma tarefa difícil que exigirá profundas modificações na organização do sistema educacional vigente.

Os professores e outros profissionais que compõem a comunidade escolar precisam ser capacitados não apenas para reconhecer e aceitar as diferenças, mas sobretudo para valorizá-las.

Diferenças podem gerar desentendimentos e conflitos, mas também podem servir de ponto de partida para o ensino de valores tais como respeito e solidariedade.

DIFERENTES

Seu filho, seu aluno, seu parente é mais, muito mais que “um adolescente”. A partir da avaliação da história gestacional, do nascimento, da mãe, do pai, da família ampliada, do lugar onde vive, das experiências escolares, das interações sociais, é possível compreender a complexidade das experiências humanas e mais que isso: a impossibilidade de existirem pessoas iguais.

Somos capazes de estabelecer relações genuínas de afeto somente quando olhamos para as pessoas e nos esforçamos para perceber o que está além das aparências. Não se trata de negar as similaridades. Na adolescência, todos enfrentamos crises de identidade. Porém, a partir dessas crises, tornamo-nos ainda mais singulares.

A forte influência do meio no qual estamos inseridos e da condição genética, que é particular, determinará a forma como iremos nos comportar diante dos desafios que são próprios das diferentes fases da vida como o nascimento de um irmão, a mudança de cidade, a morte de uma pessoa querida, a escolha da profissão, do parceiro, entre tantas outras.

Um cientista, com apenas um fio de seus cabelos, é capaz de decifrar seu código genético, descobrir que doenças você possivelmente terá em alguns anos, a cor de seus cabelos, olhos, pele, altura e tantas outras características que combinadas o tornam uma pessoa única. Nem mesmo as impressões digitais são repetidas na humanidade. Por isso, lembre-se: os adolescentes não são iguais, somos todos igualmente diferentes.

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