Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Liturgia

No dia 4 de Dezembro de 1963, quase 40 anos atrás, o Papa Paulo VI promulgava a Constituição “Sacrosanctum Concilium”. O primeiro documento do Concílio Vaticano II estabelecia os princípios e as diretrizes para a reforma e o incremento da vida litúrgica na Igreja.

Havia tempo que sentia-se a necessidade de rever a liturgia, pois, ao longo dos séculos, havia perdido sua centralidade e seu significado na vida da Igreja. Com este documento, a Igreja devolveu a liturgia ao povo, pois, até então, sobretudo a partir do segundo milênio, o sacerdote celebrante tornara-se o dono e monopolizador da liturgia, enquanto que o povo havia-se acostumado a assistir passivamente. A própria linguagem usada dificultava a compreensão daquilo que era celebrado. Não raramente, durante a Santa Missa o povo simples, que não entendia o latim, acabava por rezar o terço.

REFORMA LITÚRGICA

O desejo do Concílio, com relação à liturgia, pode ser traduzido pela frase mais conhecida da Constituição Sacrosanctum Concilium: “A liturgia é o cume para onde se dirige toda a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde brota a sua força” (SC 10). Ou seja, a liturgia é o coração de tudo! É na liturgia que a gente renova a fé e encontra a força para a missão, pois nela se encontra a presença mais forte de Deus.

Este documento ajudou muito na reforma conciliar, já que provocou uma revisão do modelo de Igreja que nós tínhamos, propondo uma igreja mais participativa, ministerial e preocupada em buscar e se adaptar às diferentes culturas, à índole dos povos (SC 37-40), às necessidades de cada região (SC 63 e 65), à riqueza e peculiaridade musical (SC 120).

No entanto, as reformas, por vezes não adequadamente interpretadas, suscitaram as mais diferentes reações. Os jovens ainda reclamam: “A missa é muito parada!”. Os adultos e idosos protestam: “Invadiram a Igreja com guitarras estridentes e ninguém pode mais se concentrar!”. O monge balança a cabeça: “Ah! Que saudades do meu latim!” Outros ainda lamentam a perda do “mistério” e do sagrado.

EDUCAÇÃO LITÚRGICA

Na igreja Católica, a liturgia é a grande pedagoga, a educadora que forma o povo para a vida cristã. O cristão não é apenas um carimbado com o selo de Cristo, mas aquele que segue Jesus Cristo! A preocupação do Concílio não consistia, portanto, apenas em introduzir mudanças nos ritos, normas e formas exteriores na liturgia, mas, e sobretudo, desencadear uma verdadeira educação litúrgica dos fiéis.

As comunidades deviam se preocupar para que a Liturgia se tornasse realmente mestra de vida cristã. Na liturgia, os elementos educativos são muitos: palavras, símbolos, músicas e silêncio, gestos... Nenhuma dessas linguagens é mais ou menos importante que as outras, mas todas precisam ser usadas na justa medida e igualmente valorizadas.

Alguns exemplos: Se uma celebração é marcada pela falação, ela tem tudo para se tornar chata. Ninguém quer participar de uma celebração para ouvir discursos o tempo todo. Também, se predominar a música, a ponto de abafar momentos de silêncios, a celebração torna-se maçante, sem tempo para ouvir a Deus que se manifesta no silêncio. O mesmo vale para os sinais e símbolos. Se a todo momento um novo símbolo ou gesto é introduzido, vira um festival de novidades, com o perigo de dispersar em vez de concentrar.

A liturgia ensina que o equilíbrio está em celebrar com todas as linguagens, sem valorizar demasiadamente uma delas. Por exemplo: o gesto de partir o pão, feito pelo padre antes da comunhão, é claramente um convite à partilha de vida entre nós. O gesto fala por si mesmo, não há necessidade de explicações.

Assim, quando ergo os braços, na oração do Pai nosso, a Liturgia está ensinando que chamar a Deus de Pai requer confiança total. E assim por diante.O importante, sobretudo, é que os fiéis não se comportem como simples espectadores que vão à Igreja quase que para assistir a um espetáculo. E como isso acontece em nossas comunidades!?

APÓS 40 ANOS

Na comemoração da Sacrosanctum Concilium é justo e útil se perguntar: será que, após 40 anos, o grande objetivo do Concílio já foi suficientemente compreendido e assimilado pela teologia e pela pastoral, para dar à liturgia o seu lugar próprio na vida da Igreja? Será que se favoreceu a verdadeira participação dos cristãos nos mistérios celebrados? “Tenho a impressão de que ainda há muito para se fazer”, declara Dom Odílio Scherer.

Naturalmente, a educação litúrgica não se realiza em pouco tempo e de uma vez por todas, já que se trata de um processo constante. Contudo, após 40 anos, podemos sim constatar, e com satisfação, que a reforma litúrgica é, sem dúvida, um dos frutos mais preciosos e mais visíveis do Concílio. Contudo, é bom, aliás, é ótimo que cada comunidade se ponha seriamente esta pergunta: será que progrediu significativamente nossa maneira de conceber a Liturgia e de realizar nossas celebrações? Temos uma boa equipe litúrgica?

OS DESAFIOS CONTINUAM

Dom Geraldo Lyrio da Silva, responsável pela dimensão litúrgica da CNBB, afirma que há ainda sérios desafios a enfrentar no campo da liturgia. O primeiro deles é a própria aceitação e aplicação da reforma litúrgica. Em seguida, Dom Geraldo aponta a necessidade de uma melhor formação dos agentes da pastoral litúrgica: seminaristas, padres, leigos e religiosos. Urgente é também a inculturação da liturgia para que ela se liberte do ritualismo e crie nos fiéis a consciência da presença transformadora de Cristo, levando a um compromisso solidário com a transformação do mundo.

A Liturgia, sendo momento fundamental da vida cristã, sempre está em pauta nas conversas e reuniões de nossas paróquias. Preocupa o fato de muitos até deixarem de participar das celebrações por considerarem que, da forma como são realizadas, nada acrescentam em suas vidas. Essas dolorosas constatações ganharam espaço entre os liturgistas que, embora considerem necessário evitar e combater os desvios e abusos decorrentes de uma interpretação excessivamente livre das novas diretrizes, afirmam ser importante saber abrir-se, sem preconceitos, à “novidade do Espírito”.

COMUNIDADE E LITURGIA

O Papa Paulo VI, certa vez, referindo-se à celebração eucarística, assim se expressou: “É um fato muito grave que haja divisão naquilo em que o amor de Cristo nos congregou na unidade, isto é, na liturgia”. De fato, quando a vida comunitária não se realiza no dia-a-dia, também a comunicação na liturgia fica prejudicada.

Constata-se facilmente que quando numa comunidade predomina o autoritarismo, as pessoas encontram uma tremenda dificuldade para participar ativamente e serem protagonistas nas celebrações litúrgicas. Ao contrário, onde existe solidariedade, convivência, ajuda mútua e fraternidade, aí as celebrações são mais animadas e comunicativas, sinal evidente que as reformas conciliares já deixaram seu sinal. Sem dúvida, os fiéis hoje participam mais das celebrações e sentem-se mais cativados e envolvidos.

Com maior espontaneidade as pessoas se cumprimentam ao chegarem para as celebrações e param para conversarem e viverem momentos intensos de relacionamento pessoal. Com isso as comunidades ficaram mais animadas e alegres. Hoje o povo tem mais condições para falar, cantar, se aproximarem dos sacerdotes, dos ministros e de dar sua opinião. É claro que a Missa tem valor infinito, mas, como diz Nanci Alves, “O pacote” onde ela é apresentada tem que ser o mais bonito!

O CORPO E O ESPÍRITO

Quanto aos gestos, como agitar o corpo e os braços, bater palmas, etc., isso não é propriamente uma novidade, mas sim uma restauração. Para os primeiros cristãos, a Eucaristia (ação de graças) era efetivamente um ato de louvor, uma expressão comunitária de alegria e confraternização. Nela, eles festejavam a grande notícia e a realização da salvação. Louvar a Deus com o corpo era comum entre os judeus, como mostram os salmos 149-150, ou como se vê no episódio em que o rei Davi dança diante da Arca da Aliança (2Sm 6,5).

Com o tempo, os conceitos filosóficos ocidentais foram mudando e a liturgia foi se intelectualizando. Acentuou-se dessa forma na Igreja uma dissociação entre o corpo e o espírito, supervalorizando o espírito em detrimento do corpo. Com isso, o relacionamento com Deus tornou-se desencantado e frio.

A participação corporal tem uma função decisiva na celebração, pois o verdadeiro louvor a Deus reside no coração, mas é preciso proclamá-lo com os lábios, gestos e atitudes que manifestem e comuniquem a fé e o sentimento de adoração.

Afirma um trecho da Sacrosanctum Concilium: “Para promover uma participação ativa, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, a salmodia, as antífonas e cânticos, bem como as ações e gestos do corpo” (n.º 30). Naturalmente, o documento não admitiria certas missas que têm muito de espetáculo ou até de show. Isso pode até impressionar e atrair multidões, mas dificilmente revelar o mistério que é parte íntima da liturgia, e que, sem dúvida, não se revela no barulho, mas sim num clima de fé e de reflexão profunda.

LITURGIA E ESPIRITUALIDADE

Na liturgia, acontece a vida da comunidade. Quando uma comunidade tem uma vida litúrgica fraca, sem fervor e criatividade, revela que a mesma é sem vida, desanimada, sem perspectiva, sem alegria. Muitos(as) aparecem nas celebrações, sobretudo da Santa Missa, apenas uma vez por semana. E se essa celebração não for alegre, viva, se não for acolhedora e não transmitir vida, as pessoas acabam desanimando e desistindo de participar.

A liturgia deve ajudar a estabelecer um profundo encontro com Deus, como aquele que só é capaz de abastecer a nossa vida para caminharmos na esperança. Para que o povo de Deus tenha a força necessária para navegar para “águas mais profundas”, e assumir sua missão no mundo, as celebrações litúrgicas devem proporcionar-lhe momentos de profunda espiritualidade, de vibração de contatos vivos com Deus e com os irmãos na fé. Quando bem vivida, a liturgia constrói a grande família dos filhos de Deus.

Pe. Paulo De Coppi

PARA REFLETIR

  1. O que entendemos por liturgia?
  2. Em que consistia a reforma litúrgica proposta pelo documento Sacrosanctum Concilium?
  3. Como são as celebrações de sua comunidade?
  4. Como explicar a pouca participação das crianças, dos adolescentes e dos jovens na Santa Missa?

bem conhecido Pe. Zezinho, que muito se dedica à Pastoral da Comunicação, falando dos músicos e de suas músicas, escreveu recentemente: “Compositores e cantores parecem ser inatingíveis pelo conteúdo da fé. Continuam cantando as mesmas coisas, domingo após domingo e no momento errado da missa, simplesmente porque gostam delas, porque são de seu movimento ou porque estão divulgando seu último CD.

Vale tudo! Qualquer mensagem vale! Insistem em cantar canções erradas, com texto errado, no momento errado da missa. Maria de Nazaré , no ofertório; Eu louvarei, no Glória; anjos subindo e descendo, na abertura da missa... As leitura e o sermão vão numa direção e as canções na direção oposta. Não há diálogo! Estão cantando qualquer coisa, qualquer letra, às vezes de qualquer jeito, em qualquer lugar da missa.

Está na hora de nós, compositores e cantores, ouvirmos quem sabe mais do que nós! Eis o que diz a Sacrosanctum Concilium a este respeito: “Os que fazem música... considerem uma verdadeira vocação cultivar e desenvolver o tesouro da música sacra. Componham melodias que expressem de fato as características da música sacra e que se adaptem à participação de todos os fiéis. As letras devem estar de acordo com a doutrina católica e ter como fonte de inspiração a Sagrada Escritura e a liturgia”.

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