Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Missão

O fenômeno das migrações é universal e causa sofrimentos, temores e perda de segurança para milhões de pessoas. São forçadas a emigrar em busca de trabalho e, não raro, por razões políticas. O caso mais doloroso é o dos refugiados. São mais de 20 milhões nos diversos países do mundo.

É triste a situação dos que deixam sua pátria forçados pela perseguição de raça, religião, nacionalidade, enfim, excluídos. Podemos compreender facilmente a extrema dificuldade destes seres humanos que perdem as próprias raízes e são obrigados a fugir e buscar asilo em outras nações.

Para atender à necessidade dessas populações sofridas, criou-se em 1945, após a guerra mundial, o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR). A iniciativa que se destinava a proteger as vítimas da guerra, acabou por tornar-se um serviço permanente devido à dura realidade de conflitos e perseguições intermináveis.

APOIO LEGAL

Em 1951, foram estabelecidos os direitos e deveres dos refugiados. Para a América Latina firmou-se em 1984, na Colômbia, a “Declaração de Cartagena”, a fim de auxiliar na solução dos problemas legais e humanitários que afligiam milhares de refugiados centro americanos.

O Brasil foi um dos primeiros países a ratificar esta convenção, assumindo o compromisso de receber e proteger as vítimas das ditaduras latino-americanas que procuraram amparo em nossa pátria, como também muitos brasileiros, naquela época, buscaram asilo em outros países. Atualmente há cerca de 3000 refugiados no Brasil, provenientes de 52 países.

EXPATRIAÇÃO

Estamos diante de um fenômeno que manifesta a desordem de valores que caracteriza tristemente a trajetória da humanidade. Se por um lado crescem os esforços para a democracia e o respeito aos direitos humanos, ao mesmo tempo, perseguem-se pessoas e grupos por pertencerem a outra raça, religião ou partido político. O drama dos refugiados foi definido pelo Papa João Paulo II como a “chaga vergonhosa de nossa época”.

As análises do ACNUR revelam que 75% dos desenraizados são mulheres e crianças, vítimas indefesas dos conflitos e perseguições, condenadas à maior pobreza, atrocidades e sofrimentos. Há casos extremos como o do Afeganistão, que possui o maior número de refugiados do mundo, com dois milhões de pessoas em 74 países.

ACOLHIDA

Graças aos ingentes esforços do ACNUR, tem havido progressivos retornos à terra de origem e estabelecimento definitivo nos países de acolhida.

Na América Latina é dolorosa a situação da Colômbia, onde,além de três milhões de migrantes internos, obrigados a se despencar para outras regiões do país, trinta e seis mil e novecentas pessoas exilaram-se em vinte e quatro países, por causa da violência dos conflitos entre exército nacional, grupos paramilitares e organizações guerrilheiras.

A situação dos refugiados é um apelo e desafio à solidariedade. E se fôssemos nós os expulsos da própria pátria? Temos que nos reeducar para superar o individualismo e, diante de Deus, abrir o coração para acolher os mais necessitados, em busca de uma pátria amiga e de um lar.

A árdua realidade dos milhões de refugiados no mundo convida-nos, por analogia, a refletirmos melhor sobre o padecimento dos brasileiros sem terra. É hora de pedirmos a Deus, para nós e nossos governantes, luz, discernimento, amor e soluções fraternas adequadas.

 

QUEM SOU

Sou quem partiu de sua terra natal
Lugar cercado de adversidade,
Onde a miséria tão comum era fatal.
Nasceu em mim a ânsia de liberdade.
Sou quem ouviu da cidade grande,
O canto falando a mim sobre a
Terra da Promissão,
Terra de fartura, terra de encanto
E quebradora das forças de opressão.
Sou quem seguiu a estrela guia,
Quem atendia pelo nome de Esperança
E dava força para enfrentar o dia-a-dia
Áspero e duro da difícil andança.
Sou quem, chegando na grande cidade,
Vi que ela era bela, mas feia também,
Pois se pra uns havia felicidade
Sempre havia exclusão para alguém.
Sou quem, suplicando ao Divino
Por dias melhores de paz e de pão,
Trabalhou pra dar fim ao triste destino
E sentiu o quão árdua era tal missão.
E hoje sou, na vida, quem conseguiu vencer
Ou quem a razão de viver perdeu.
Sou quem não se cansa de agradecer
Ou amaldiçoar o dia em que nasceu.
Hoje sou quem faz o pão de cada dia
Ou quem a cada dia esmola o pão.
Sou quem constrói e ergue a moradia
Ou quem dorme na rua, no chão.
Hoje sou vários ao mesmo tempo
E minha sina é tão inconstante:
Tenho alegria, tenho contratempo,
Mas meu único nome é Migrante.

Antônio Ricardo de Oliveira
V Festival da Música e Poesia do Migrante

EU ERA ESTRANGEIRO E TU ME ACOLHESTE!

Trechos de cartas escritas por missionários que trabalham junto aos imigrantes.

... Todos estão lá devido à questão econômica, uma minoria de jovens foi estudar. Muitos perderam tudo, faliram. O processo de saída do Brasil até a entrada na América é uma verdadeira Via Sacra. Muitos tentam entrar pelo México, onde enfrentam prisões e têm que pagar muitos dólares para os atravessadores e a imigração. Chegando lá, mais dificuldades com relação à moradia, emprego, língua e a SAUDADE...

... Mesmo diante desta realidade, acontecem algumas fatos interessantes: devido à dificuldade de moradia, muitos residem juntos, dividindo o espaço, a comida e a vida. Muitos se preocupam com os que chegam, arrumando emprego, moradia, etc. E, sobretudo, encaminhando para a comunidade...

Pe. Eduardo Lustosa / Califórnia - EUA
Boletim Além Fronteiras, n.º 06

... Estou começando a visitar os presos da imigração, ou seja, aqueles que estão ilegais aqui, ou cometeram algum delito, cumpriram pena e agora são deportados...

... Uma coisa importante é alertar os nisseis a não virem sem visto. É arriscado demais e custa caro para todos. Talvez aproveitar estas reportagens para desmotivar a virem iludidos. A vida aqui é dura demais e não vale o preço para ganhar um pouco de dinheiro. A vida e a liberdade valem mais. Nós não temos o pique japonês para o trabalho de 12 ou mais horas por dia. Além do mais, o custo de vida é altíssimo...

Frei Valdir N. Ribeiro / Japão - Boletim Além Fronteiras, n.º 12

... O trabalho com os migrantes é enorme, já que são mais de 50% dos católicos no Japão, e os missionários e missionárias são poucos. Apesar de muitos sacerdotes e religiosos terem assumido a Missão, tenho a impressão de que a Igreja no Brasil deveria ser uma mãe mais generosa em enviar missionários para cá. A messe é grande e os operários escassos. Rezar? Certamente, sim! Mas é preciso também se decidir. Deixar a própria terra e partir.

... Aproveito para enviar uma saudação fraterna a todos os missionários brasileiros dos cinco continentes...

Pe. Olmes Milani, cs / Tokyo - Japão
Boletim Além Fronteiras, nº 29

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