Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Missão

adre Carlos Torriani - PIME, 69 anos, vive na Índia há 35 anos. No início dos anos setenta, o município de Bombaim confiou a ele e a outros dois missionários, a enfermeira Luigina Marchesi e o médico Antônio Salafia, duas regiões:

Chembur e Kurla. Com a finalidade de tratar dos doentes de Hanseníase, deram vida à Associação Lok Seva Sangam (Associação para ajudar o povo). Outros médicos e enfermeiras foram contratados e, nos anos oitenta, a associação chegou a tratar e curar mais de 4 mil leprosos.

Em 1984, Pe. Carlos decide abrir um outro centro, desta vez em Taloja, 40 km fora de Bombaim, com o nome de Swarga Dwar (porta do céu). E lá começou a viver com um grupo de ex-leprosos.

MINHA OPÇÃO

Na minha lembrancinha, do primeiro envio para as missões, eu havia estampado a frase de Jesus: “Fui enviado a anunciar a Boa Notícia aos pobres, a anunciar a libertação aos oprimidos” (cf. Lc 4,18). Quando cheguei em Bombaim, em 1969, em todas as paróquias da Índia já havia sacerdotes. Decidi então trabalhar pelos leprosos. O próprio governo me ajudou, pois estava preparando, com ajuda da Organização Mundial da Saúde, um plano para controlar e, possivel mente, eliminar a doença da hanseníase, antes chamada de “lepra”.

PEDRAS REJEITADAS

Vivendo com os leprosos, percebi que havia neles uma forte mensagem para mim: Eles eram as “pedras rejeitadas”, e me fizeram lembrar de Cristo a “pedra rejeitada” por excelência, mas que se tornou a “pedra angular”. Então disse a mim mesmo: é necessário que esta mensagem seja conhecida por eles e posta à disposição de todos.

Veio-me então a idéia da oportunidade de se ter um Ashram (lugar de oração), um centro que proporcionasse uma educação integral, onde os hansenianos não fossem mais vistos como mendigos ou doentes, mas como pessoas que até falassem e trabalhassem para construir o Reino de Deus.

DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

Já que o terreno que nos foi doado era muito grande, começamos por cultivar o arroz e as verduras que comíamos. Também nos auto-sustentar com a venda de mangas. Depois nasceu o desejo de orarmos juntos e, como na comunidade havia pessoas que professavam religiões diferentes: 5 católicos, 4 muçulmanos, 3 budistas e todos os outros hindus, me perguntei: “Se para rezar eu necessito do crucifixo, do Sagrado Coração ou da imagem de Nossa Senhora, também os outros têm a mesma necessidade de algo que lembre a fé deles e que os ajudem a entrar num clima mais religioso”.

A partir disso, senti a exigência de criar um espaço para que eles se sentissem em casa. Comecei então a me interessar pelos símbolos das diversas religiões que se professam na Índia. Para mim foi uma pesquisa não muito fácil, pois existem na Índia muitas religiões e muitas delas se confundem entre si. Fui também interpelando meus confrades de outros países para que me fornecessem orações de diversas tradições religiosas para uni-las num interessante repertório.

No Ashram, dedicamos um dos melhores locais para as orações, ao qual demos o nome de Shanti Sangan (Lugar de Paz), colocando nele os símbolos mais representativos das diversas religiões. Feito isso, todos os dias passamos a orar com os fiéis das diversas religiões. Na segunda-feira rezamos com os hindus e os animistas, utilizando um texto sagrado de tradição hinduísta e uma oração dos índios americanos. Na terça-feira rezamos com os budistas e os ateus. Estes últimos, por acreditarem em valores como a verdade, a justiça e a solidariedade entre as pessoas, que são valores evangélicos também, rezavam conosco.

EVANGELIZAÇÃO E DIÁLOGO

Taloja, a maior cidade da região, é muçulmana. As circunstâncias fizeram com que o primeiro leproso que atendemos em nosso pequeno hospital, de apenas oito leitos, fosse um Iqbal, um muçulmano. Ele nunca havia ido à escola e, mesmo assim, falava o inglês e usava o computador. Ali mesmo, iniciou um pequeno negócio que lhe devolveu a dignidade de se auto-sustentar. Isto suscitou a simpatia dos muçulmanos que viviam em Taloja, simpatia por nós e pelo nosso trabalho.

Se evangelizar quer dizer ter presente também os valores do Evangelho que já existem na sociedade, então o diálogo autêntico já é evangelização. Devemos acreditar que o Espírito sopra de várias maneiras e onde quer. Também na Índia, já havia soprado antes que nós chegássemos. Muitos valores evangélicos já estão presentes em outras religiões: é nossa tarefa descobri- los e desenvolvêlos juntos.

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