Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Missão
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Sou Miriângela Paim, popular Leka, natural da Grande Florianópolis. Fiz o curso técnico de Edificações e trabalhei por algum tempo na área, mas sentia sempre qualquer coisa se movendo dentro de mim, sem, no entanto, conseguir identificá-la com clareza. Como muitos jovens, passei por um período de rebeldia, fiz das minhas, recebi broncas, mas também essa turbulência ajudou-me a crescer e amadurecer. Depois caí na real e fiz o caminho de volta. Este caminho foi me trazendo muitas surpresas, entre elas, a de me engajar na catequese de Primeira Eucaristia e de me apaixonar pela idéia de missão. Alguns encontros promovidos pelo P.I.M.E. (Pontifício Instituto das Missões Exteriores), fortaleceram esta nova paixão que foi crescendo e se definindo no período em que tive a sorte de trabalhar no Jornal Missão Jovem. Aquele ambiente, onde se respirava missão o dia inteiro, ajudou-me muito a discernir minha vocação para a vida missionária laical.
O que chamo de salto pode ter outros nomes, como por exemplo: chamado, vocação, ato de fé... Mas, para minha vida, já que gostava de atletismo, é como vejo meu caminho: um salto de fé, um salto do meu mundo, da minha realidade familiar, amizades, atividades pastorais... para a resposta ao chamado a viver e agir em outra realidade. O primeiro salto, em 1996, foi para a Itália, na região norte, em uma cidadezinha chamada Busto Arsizio, próxima à cidade de Milão.
Os primeiros meses não foram lá tão bons. O clima frio e sempre cinza, a nova cultura e a língua eram como se eu tivesse regredido e começado a aprender como se fala, como se escreve... Agüentei esta fase com a ajuda de muitas pessoas e, principalmente, de Deus. Na Itália, além de estudar a língua, fiz também alguns cursos de Teologia e artes manuais. Tudo isso em vista da missão, para a qual eu estava me preparando. Tive também a oportunidade de um contato muito mais próximo com a realidade missionária, conhecendo pessoas com longa experiência de missão em diversos países. Isso me ajudou muito em meu crescimento missionário. Interessante foi também o envolvimento que tive na animação missionária na arquidiocese de Milão, onde todas as paróquias já enviaram missionários para outros continentes.
Depois desse período de formação, em 1999 fui para a Inglaterra estudar inglês, a segunda língua do meu período de formação. Com o inglês poderia me comunicar com muitas pessoas e facilitar a aprendizagem do khmer, língua falada no Camboja, para onde estava destinada. Na terra da rainha Elisabeth reaprendi a escutar as pessoas, principalmente os colegas de sala, em sua maioria estrangeiros e sem prática nenhuma de sua religião. Alguns deles não acreditavam em nada e outros nunca tinham ouvido falar de Jesus Cristo. Suas perguntas eram deste tipo: - Como posso acreditar em algo que não conheço ou não vejo? Foi uma boa ocasião para testemunhar Jesus Cristo. E isto deu seus frutos. Durante a Semana Santa de 2000, Chen, uma garota chinesa, perguntou-me: Se esta Semana é tão importante para vocês, posso eu também ir até uma igreja e ver as celebrações? Foi o que aconteceu. Por fim, a conclusão dela foi que gostaria
de conhecer melhor esse Jesus. Naturalmente, eu fiquei super feliz e agradecida
a Deus por ter-me oferecido esta oportunidade.
Já estava destinada ao Camboja. Antes de ir para lá, tive tempo de ler muitas coisas sobre o país e de ouvir testemunhos de pessoas que passaram por lá. No ano 2000, ao chegar naquele país, logo na saída do aeroporto tive a sensação de estar no norte do Brasil. Assim, já comecei a me sentir em casa. Era a estação das chuvas e, ao voltar para casa da escola onde estudava a língua khmer, tomava aquele banho de chuva que lavava até a alma. O engraçado era que quando eu me equipava com capa de chuva e sombrinha, não chovia e ainda por cima o pessoal ria de mim. Era impressionante observar como se movia o tráfico na capital, Phnom Penh. A começar pelo carros, pelas pick-ups ou caminhões, que tinham a preferência por serem maiores, as motos que vinham de todas as direções: sobre as calçadas, no espaço entre uma barraquinha e outra... Uma verdadeira Babilônia! Constatei facilmente que a sociedade cambojana é marcada pela desigualdade social, pela discriminação das mulheres, pela corrupção, etc. Por outro lado, percebi a existência de uma força jovem que quer seu lugar na sociedade e luta para tentar mudar esta situação. Eles recebem um grande apoio das Organizações Não - Governamentais internacionais - ONGs, que cooperam para construir uma sociedade mais digna para aquele povo já muito provado pelas lutas internas.
Não sou professora, mas essa foi a forma que me ajudou a entrar em contato com os jovens. Comecei ensinando trabalhos manuais para um grupo de 30 garotas. O objetivo era recuperar a auto-estima, desenvolvendo a criatividade e oferecendo uma fonte de renda. Através de material reciclável (garrafas, papelão, jornais...) criamos objetos para as suas próprias famílias e para ser comercializado.
Passei também a dar aula de inglês, o que me serviu para criar amizades, favorecer o respeito e a compreensão entre nós. No mesmo período, com outras missionárias leigas
italianas, iniciei mais um trabalho: Acredito que plantei uma semente, procurando transmitir através do testemunho de vida alguns valores que ajudassem a entender a importância da doação e da ajuda recíproca.
Dificuldades? A gente encontra em qualquer lugar, o importante é a forma de enfrentá-las. Elas apareceram em todos os saltos da minha vida, mas também encontrei quem me desse uma mãozinha para superá-las. Determinante foi a ajuda Daquele que tudo pode. Algumas dificuldades ajudaram-me a crescer, outras a me fortalecer, outras ajudaram-me a ver que em alguma coisa eu deveria melhorar. Só me resta agradecer por ter tido estes momentos em minha vida.
Gostaria de dizer aos jovens que estão pensando em algo realmente bonito para a vida, que se preocupem primeiro em assumir seu Batismo: servindo em sua comunidade cristã e na sociedade. Aos que já o fazem, mas que se sentem um pouco desanimados, não esqueçam que somente no Senhor está a força de nossa caminhada. Foi Ele que prometeu: Eu estarei sempre com vocês. Miriângela Paim - Missionária
leiga Camboja O Camboja é o menor entre os países da península da Indochina. É também o único que conservou a cultura khmer.
O nome Camboja deriva da palavra Kambu-já, que quer dizer: Aqueles que nasceram de Kambu, um eremita da mitologia indiana. Colonizada pelos franceses, conseguiu a independência em 1953. Começou então a luta terrível pelo poder que trouxe muitos prejuízos para a nação e que culminou, entre 1975 e 1979, com o regime de Pol Pot que comandou o Khmer Vermelho. Foi o inicio do ANO ZERO! Em somente cinco anos foram mortas por fome, sede, doenças, trabalhos forçados e assas-sinatos, quase três milhões de pessoas.
O culto religioso foi proibido e muitos religiosos(as) e sacerdotes foram mortos ou, depois de terem sido torturados, expulsos do país. O pior é o fato de que esta tragédia não foi uma guerra com outro povo, com uma outra etnia, mas de khmer contra khmer. O país foi lateralmente entregue ao terror. Com um passado recente tão terrível, o Camboja está, aos poucos, tentando se erguer e fortalecer com a ajuda dos próprios khmers e de outros países. |
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