Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Missão

m passagem pelo Brasil, Dom Pedro Zilli, bispo brasileiro na diocese de Bafatá, na África, concedeu esta entrevista ao diretor do Jornal Missão Jovem. Numa conversa muito espontânea, o bispo falou de seus sonhos e conquistas destes quatro anos em terra africana.

Pe. Paulo: Quem é Dom Pedro Zilli?

Dom Pedro: Sou missionário do PIME, nasci no estado de São Paulo, mas minha família vive no Paraná desde 1971. Foi lá que conheci os missionários e, através deles, Deus me chamou às missões além-fronteiras. Em janeiro de 1985 fui ordenado padre e, logo depois, fui enviado para a Guiné-Bissau, país onde a língua oficial é o português, mas o povo fala o crioulo.

Fiquei lá de 1985 a 1998, quando voltei para o Brasil para trabalhar na formação dos futuros missionários do PIME em Brusque - SC. Em 2001, nomeado para ser bispo, voltei à Guiné-Bissau para assumir a recém criada diocese de Bafatá. Pe. Paulo: O continente africano está enfrentando sérios problemas sociais, econômicos e políticos. Quais os problemas que mais atingem o território de sua diocese?

Dom Pedro: Somos um país muito pequeno, no entanto, lá também há problemas muito sérios como a malária, a tuberculose, a AIDS... A última estatística mostra que no mundo existem 42 milhões de pessoas com HIV. Destes, 29 milhões se encontram na África subsaariana, onde está a Guiné-Bissau.

Pe. Paulo: E o tão falado problema da fome, é sério também em sua região?

Dom Pedro: As pessoas me dizem: “Ah, lá é muito pobre, é muito miserável”. Eu diria que a Guiné-Bissau é pobre, mas não tem aquela miséria do Sudão por causa da guerra. Às vezes exageramos falando da miséria, porque de fato há, mas não como a gente vê na televisão.

Pe. Paulo: Neste ano, aqui no Brasil, estamos falando muito de paz. Há conflitos na Guiné-Bissau?

Dom Pedro: Sim. Houve uma guerra em 1998 que eles chamaram de conflito. Foi uma guerra que durou mais de um ano e isso empobreceu ainda mais o país. Isso é devido também a um sério problema político: lá não existe um regime democrático como no Brasil. Isso é muito prejudicial! Lá os militares estão muito presentes e impedem o exercício de uma política com uma maior participação popular.

Pe. Paulo: Qual a opinião do senhor a respeito do relacionamento do Brasil com a Guiné-Bissau?

Dom Pedro: O Brasil tem uma boa presença na Guiné-Bissau, até porque é um país de língua portuguesa. Contudo, embora a embaixada brasileira seja uma presença boa, sem dúvida deveria incentivar maiores projetos de colaboração, até por causa destes laços históricos e lingüísticos que muito podem facilitar esse intercâmbio. O acordo assinado para a luta contra a AIDS é uma das coisas positivas. Numa conversa com o embaixador brasileiro, fiquei sabendo que está em andamento um projeto de formação da juventude tipo SENAC, SENAI, ou seja, um projeto de formação profissional.

Pe. Paulo: O senhor acha que a África é realmente um continente esquecido pelos países mais abastados do assim chamado primeiro mundo?

Dom Pedro: Quando cheguei lá em 1985, havia muito mais projetos de desenvolvimento. Os próprios guineenses observam isso e criticam o fato de muitos projetos não terem ido a frente. Lá também há corrupção e muita instabilidade política, devido aos freqüentes golpes de estado e troca de ministros. Diante disso, a comunidade internacional deixa de investir na Guiné-Bissau, país que depende 90% de recursos externos.

Pe. Paulo: No Brasil também está se refletindo muito sobre a realidade familiar que está visivelmente se deteriorando. A Guiné conserva suas tradições familiares ou passa por isso também?

Dom Pedro: Olha, a tradição na Guiné-Bissau e em alguns países da África é um pouco diferente. Como você bem sabe, lá existe ainda a poligamia. Em relação a isso e outros problemas que estão surgindo neste campo, nós estamos trabalhando muito a partir da Pastoral Familiar, pois os problemas familiares existentes no mundo ocidental estão aparecendo também naquela realidade.

Pe. Paulo: Que tipo de evolução houve desde a primeira vez que o senhor esteve na África, na maneira de os missionários apresentarem o cristianismo?

Dom Pedro: Para mim, o ponto principal desse desenvolvimento foi a compreensão que os africanos crêem em Deus. Então qual é a novidade do cristianismo? É que esse Deus que todos cremos e que é único, se fez homem em Jesus Cristo. Há também hoje um maior respeito pelas tradições, há uma preocupação em conhecê-las melhor, descobrindo seus valores e purificando-os também. Pe. Paulo: Vocês têm uma idéia de quando a Igreja de lá poderá caminhar sozinha?

Dom Pedro: Nós temos um numeroso grupo de catequistas que o Papa João Paulo II chamou de “As colunas da Igreja”. Temos também famílias sólidas, um bom grupo de sacerdotes locais. No dia 28 de maio tive a alegria de ordenar mais um: o Pe. Augusto. Dessa forma, pouco a pouco, a Igreja vai se tornando verdadeiramente guineense. Trata-se de um processo longo e nada fácil. Contudo, acredito que a presença dos missionários, mesmo quando não precisar mais deles, será sempre útil para lembrar que a Igreja é Universal.

Pe. Paulo: O senhor, como primeiro bispo brasileiro em missão, o que gostaria de dizer e pedir ao povo brasileiro?

Dom Pedro: Tenho visto algumas experiências muito boas de abertura missionária: pessoas querendo ir em missão, outras colaborando economicamente. Lá conosco há a Maria, de Ibiporã/PR. Há outros que estamos encaminhando. O convite que faço é que haja sempre mais e a nossa Igreja do Brasil se abra à dimensão missionária.

PRECISA-SE DE MISSIONÁRIOS

Há muitas conquistas, mas a messe ainda é grande! O mês de outubro é um período no qual são intensificadas as iniciativas de informação, formação, animação e cooperação em prol da Missão universal.

O objetivo é promover e despertar a consciência e a vida missionária em cada católico, a fim de que se possa promover aevangelização nos cinco continentes, sobretudo em países onde os cristãos são ainda uma minoria e as necessidades materiais são urgentes.

A partir dos dados divulgados pelo Departamento de Estatísticas da Igreja, dos últimos 25 anos de evangelização, podemos saber quais as conquistas e os desafios que a comunidade missionária tem pela frente.

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