Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Vocação

ontinuando as reflexões sobre vocação, desta vez proponho uma provocação sobre o tema “decidir”. Naturalmente, um tema tão profundo não pode ser esgotado em poucas linhas. Continuaremos na próxima edição. Os personagens são fictícios, mas os conteúdos são fruto de conversas feitas no acompanhamento de jovens.

Você já encontrou jovens sentados na praça e discutindo sobre o que fazer na vida? Conhece outros(as) com trinta anos ou mais que ainda não decidiram onde, como e em que investir a sua vida?

Vamos entrar nesta rodinha para ver o que conversam a esse respeito:

Marcos (29). Casar? É uma loucura! Imaginem só: ter que viver a vida inteira só com uma mulher, que incomoda o tempo todo, e cuidar dos filhos que choram até de noite, sem lhe deixar dormir. Não bastasse isso, você tem que trabalhar que nem um burro para sustentar todos lá de casa. Não, é bem melhor “ficar” com algumas, a vida fica mais variada, sem ter uma incumbência de carregar uma responsabilidade tão pesada.

Alex (32). Concordo com o Marcos. Penso nos meus pais que se separaram quando ainda era criança. Foi triste demais! Não é bem melhor ficar com alguma menina até a gente cansar dela?

Paulo (30). Eu sou um freqüentador assíduo da Igreja, mas, embora me sinta atraído pela vida sacerdotal, ainda não decidi entrar no seminário. O fato de conhecer padres que não são coerentes com a vocação deles ajuda nessa indecisão. Se não der, paciência. Não precisa ser padre para fazer o bem.

Juliana (35). Para mim, decidir é muito difícil, embora tenha chegada a hora de fazê-lo. Já me formei e estou trabalhando..., mas, é bom demais ficar em casa com meus pais. Lá tem tudo!

ESCOLHAS HUMANAS

Ouvindo a conversa desses amigos, vem-me à mente aquele homem do evangelho que, atraído pela personalidade de Jesus, um dia lhe perguntou: “Bom mestre, o que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Mc 10,17).

Sem dúvida, dentro de cada um dos nossos amigos da praça há uma sede de algo de bom que todos eles estão procurando. Trata-se, porém, do bom para eles, já que todos estão escolhendo o caminho e a maneira melhor para não ter que lutar muito, arriscar: uma felicidade a baixo custo e sem objetivo.

As decisões que eles acreditam que precisam tomar poderiam ser chamadas, ou melhor, classificadas de “humanas”. Parecem-se muito com as decisões que deve tomar a dona de casa quando vai ao mercado para escolher o que comprar: “pega dois e paga um”, ou, “vou comprar esta pasta de dentes. A propaganda assegurou que os meus dentes ficarão esplêndidos”.

Esta ideologia de “mercado”, aos poucos, pode influenciar também as nossas escolhas, levando-nos a querer, enganosamente, um futuro seguro e com o mínimo de elementos de risco.

Alex, por exemplo, se justifica com a experiência fracassada dos pais, mas, na verdade, o motivo real é seu grande medo de arriscar. No fundo, também a atitude de Marcos esconde o medo de se comprometer somente com uma pessoa. Ele pensa que a vida é feita para se divertir: hoje com uma e amanhã com outra. Assim, o medo do risco é evitado ou, pelo menos, amenizado.

Outro tipo de decisão humana visa alcançar o máximo da eficiência com o mínimo custo. É o caso de Marcos, que pensa no casamento como algo muito “pesado” e prefere uma vida superficial e agradável.

Paulo, por sua vez, racionaliza a sua posição apegando-se aos erros dos outros. Ele chega à conclusão de que só o fato de fazer algo de bom pode dispensá-lo da decisão radical para o seu futuro.

Finalmente, as escolhas humanas são sempre precisas, calculadas. É o caso típico de Juliana. Ela constatou que morar com os pais apresenta muitas vantagens: um teto para morar, um afeto assegurado, uma comidinha pronta, o sossego do próprio quarto... Viver uma existência deste tipo aos trinta anos assemelha-se à vida dos oitenta anos, quando tudo já está definido.

O VALOR DA VIDA

Mas o que foi que Jesus respondeu àquele homem que queria herdar a felicidade? Ele manda que ele “venda tudo e dê aos pobres”. Isso comporta o risco máximo! Marcos acrescentaria: “haja tolice!!!”. Se esta é a marca de Cristo, ela não dá nenhuma garantia. Imaginem: livrar-se de tudo, abandonar, entregar tudo o que somos e o que temos!

É fácil perceber como o mundo consumista, com suas armadilhas, faz tudo para tirar de suas vítimas a tensão e a capacidade de enfrentar os riscos.

Marcos, pelo medo de incorrer em sérios riscos, escolheu a “moda” do ficar com as meninas. Decisão entre as mais injustas, já que não leva em conta a pessoa que, aos poucos, torna-se um objeto “descartável”.

Mas, nas palavras de Jesus, há outro elemento: a decisão deve empenhar para algo a mais, nem sempre fácil ou de baixo custo. Trata-se de uma decisão que compromete a vida toda e que exige a canalização de todas as minhas energias.

Um dia escutei as crianças cantarem uma música que dizia: “Deus não quer preguiçosos em sua obra”... É isso mesmo!!! Nossa vida tem um valor imenso e merece ser bem vivida, abraçando os grandes ideais que o Evangelho nos propõe.

E PARA FINALIZAR...

E não espere que uma grande decisão esteja sempre acompanhada de clarezas e certezas.
Jesus, finalizando a sua proposta, dirá àquele homem: “Vem e segue-me”.

Mas como seguir Jesus? Onde segui-lo? O que Ele vai querer de mim? Será que tenho certeza que vou ser feliz? Quem me garante isso? Será que vou ter um teto, uma cama, uma comidinha, um salário seguro... (como Juliana)?

Diante dessas dúvidas, o homem do evangelho foi embora pesaroso e triste. Um tesouro no céu? Não, preferiu o seu tesouro, a sua maneira de impostar a vida, os seus apegos...

E SE JESUS...

Como ficariam os nossos amigos se Jesus, entrando na rodinha da praça, se apresentasse e falasse a cada um desse jeito:

Marcos, você está olhando para a sua futura família somente em termos negativos. Aliás, você está preocupando-se somente com sua realização e auto-gratificação. Você ainda não descobriu que “há mais alegria em doar do que em receber?”. Amar não significa “desfrutar” as pessoas, mas esquecer-se a si mesmo!

Alex, seus pais tiveram que sofrer muito antes de chegarem à separação. Isso também pode acontecer. Mas, veja bem Alex: existem muitos casais felizes por testemunharem que o amor e a fidelidade são valores preciosos.

Paulo, o bem é sempre concreto. Está na hora de você se empenhar a ser coerente com o chamado de Deus. Dê a sua vida com alegria!

Juliana, você não acha que sua maneira de viver é um tanto egoísta? Você poderia colocar suas qualidades bonitas, seu amor e afeto à disposição de sua família, partilhando sua vida com o marido e com os filhos. Não acha?

E VOCÊ?

  • E você que tem um nome, que por Jesus foi chamado talvez a tomar a decisão radical.
  • Sim, você mesmo, como se situa diante deste apelo?
  • Jesus prometeu um tesouro no céu!

José Negri
Sacerdote e Psicólogo

DICAS PARA OS 4 ENCONTROS DO MÊS

1.ª SEMANA

Acolhida e oração.
Estudo do tema.
Em grupos:
Quais as decisões fundamentais a serem tomadas na vida?
Partilha dos grupos e debate sobre as conclusões.
Para a próxima reunião: Trazer o testemunho de alguém a quem foi feita a pergunta:
Como e por que você decidiu encaminhar a sua vida dessa ou daquela maneira?

2.ª SEMANA

Apresentação das entrevistas e considerações sobre as mesmas.
Em Grupos: Comentar o lema do Ano Vocacional: “Avancem para águas mais profundas”. (Lc 5,4)
Partilha dos grupos.
Orações espontâneas.
Compromisso semanal: Conversa com um líder da comunidade:
Você está realizado naquilo que está fazendo, ou...?

3.ª SEMANA

Apresentação das entrevistas e considerações sobre as mesmas.
Hora da verdade. Cada um apresenta o que está cogitando e sonhando para a sua vida.
Poderão ser questionados pelos colegas.
Avaliação do grupo a partir daquilo que cada um apresentou:
Nossos sonhos combinam com os projetos de Jesus, ou...?
Empenho semanal: Cada um estuda, à escolha, um dos grandes vocacionados da Bíblia e apresentará suas características na próxima reunião (convidar os pais).

4.ª SEMANA

Celebração ou adoração baseada no tema: Senhor, ajuda-me a decidir.
Concluir os encontros do mês com uma confraternização.

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