Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Paz

Hoje, após os atentados de 11 de setembro e os sucessivos desdobramentos, temos consciência de que numa guerra quem mais perde é o povo.

Manifestações pacifistas, crescimento do voluntariado... são sinais positivos. Mas será a paz apenas a ausência de guerra? Ou é algo mais? A intolerância, o racismo, a violência nas ruas, a indiferença perante os demais, o egoísmo e a prepotência de não ver mais nada que o próprio umbigo, a violação dos direitos humanos, enfim, a descarada exploração... não são sinais de uma sociedade imatura que, mesmo que fale e anseie pela paz, tem ainda muito caminho a percorrer?

A paz tornou-se, nos últimos meses, um dos temas mais candentes. Ela adquiriu uma importância jamais vista: basta abrir os jornais, ligar a televisão, ou ver as manifestações pelo mundo afora. Fala-se nas conversas de amigos, nas escolas, nas igrejas, na rua...

Mas, é bom nos perguntarmos: será que em nosso meio a paz é uma realidade já concreta? Será que não serpenteiam, entre nós, autênticos atentados à convivência pacífica, sinais graves de intolerância, sementes de racismo, violência cotidiana?

As gerações mais jovens parecem trazer dentro de si outros sinais de contradição. Se por um lado aumenta a tendência para o voluntariado, por outro diminui o interesse pelo político. Amor, solidariedade e justiça são slogans que os nossos estudantes gritam, mas, depois, descobre-se que, mesmo em suas escola, existem formas absurdas de violência.

Segundo análise feita em dezembro último por cem Prêmios Nobel, existe mais uma ameaça à paz no mundo. Ela virá, nos próximos anos, não dos comportamentos irracionais de Estados ou de indivíduos, mas das exigências legítimas dos deserdados do mundo. A raiva e a revolta dos pobres e dos excluídos vem crescendo e explodindo em muitos lugares do mundo e com todo direito: eles estão cansados por tamanha marginalização.

Contudo, facilmente constatamos que, apesar desses enormes problemas, o mundo evoluiu rapidamente e em diversos setores:

medicina, tecno-logia, informática, comunicação etc. Mas será que se trata de verdadeiro progresso quando os valores e os semelhantes são sacrificados? Investem-se bilhões de dólares para se proteger contra as ameaças externas, mas muito pouco contra as ameaças internas:

o individualismo, a falta de caráter, a falta de sensibilidade. Sobre isso as nossas TVs pouco falam!

Bilhões de dólares são gastos para mostrar e “arrumar” um corpo exterior perfeito, sem defeitos: uma multidão fica a tarde inteira do Domingo vendo desfiles de bundas na televisão. Infelizmente, é o Ibope que norteia a programação das nossas televisões.

O que garantirá a paz? O investimento visando a proteção externa, ou o cultivo dos valores e a formação do caráter e a diminuição da desigualdade?

O grupo dos cem Prêmios Nobel reafirma a necessidade de retomar o desarmamento, a eliminação das armas. Que seja instituída uma Corte Penal Internacional, a fim de que os direitos humanos sociais, políticos, econômicos e culturais tomem o lugar da guerra.

Chegou também a hora de abandonar a busca de segurança, ficando atrás dos muros, para insistirmos mais na busca da unidade de ação para contrastar tanto o superaquecimento do planeta, como a confiança num mundo armado. Esses dois objetivos serão fundamentais para a estabilidade da paz, na proporção em que caminharmos para uma maior justiça social.

Igualmente necessária é uma reflexão profunda sobre toda a conjuntura social que este capitalismo selvagem tem provocado. A concentração de renda e a conseqüente desigualdade social, muito têm contribuído para o incremento de atos de violência em nosso mundo.

A paz casa muito bem com a vida. O direito à vida em todas as suas fases de crescimento; o direito à identidade, independentemente da raça, do sexo, das convicções religiosas; o direito aos bens materiais, necessários à subsistência; o direito ao trabalho e à igual partilha dos seus frutos para uma convivência solidária..., são fatores indispensáveis para a paz..

Não basta gritar, protestar. É preciso agir, promover e construir. É momento de darmos uma parada nessa correria desenfreada e repensarmos nossa maneira de ser e de agir. É preciso que cada cidadão se pergunte seriamente: O que estou fazendo para que haja mais justiça e, conseqüente-mente, mais paz? A partir dessa reflexão, talvez possamos chegar a algumas conclusões que serão vitais para o nosso futuro.

Mauri L. Heerdt

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