Jornal - "MISSÃO JOVEM"
Pobres
Quando aconteceu à invasão ao Iraque, saí para protestar, mas alguém me aconselhou: - “você vá rezar Missa. Existem já outros movimentos pacifistas”. Comecei então a refletir com os jovens, não somente sobre a guerra do Iraque, mas sobre a violência que, a começar pelo nosso local: - o distrito de Cidade Ademar - SP, que registra uma das taxas mais altas de violência de toda a cidade. Precisávamos de um gesto forte para mexermos com as consciências. A PRIMEIRA ESCOLA Quando cheguei ao Brasil em 1969, no tempo da ditadura, encontrei-me imerso numa situação social muito problemática. Foi um período duríssimo, mas muito significativo para a Igreja do Brasil, que se tornou protagonista de escolhas significativas e corajosas. O intenso trabalho realizado nas comunidades de base, sempre partindo da Palavra de Deus e da Fé em Cristo, deu vida a diversos movimentos sociais. Tratava-se de protestar contra o custo de vida, pedir um centro de saúde nas áreas mais marginalizadas, etc. Neste período, o método que adotamos foi privilegiar a conscientização das massas populares, um trabalho inspirado na pedagogia de Paulo Freire. Foi destes movimentos de base que nasceram os sindicatos, a batalha pelo direito de greve e, sucessivamente, o Partido dos Trabalhadores. O que sempre procuramos foi a tomada de consciência, por parte dos pobres, das situações e das possibilidades de mudar. Uma vez, ao fim de uma manifestação, perguntaram a uma mulher como tinha sido. Ela respondeu: “Não vencemos, mas aprendemos a trabalhar”. MEXER COM AS CONSCIÊNCIAS Minha última aventura é o movimento pela Paz. Três anos atrás, às vésperas da reflexão sobre “guerra em casa”, decidimos que era tempo de agir. Depois de ter orado e escutado, organizamos uma marcha contra a violência, em favor da Paz, pedindo condições de vida mais justa e digna. Foi um grande sucesso: - mais de mil pessoas participaram da iniciativa. Passamos nas áreas mais violentas e, sem encontrar grandes problemas, chegamos a percorrer, durante 2 horas, os lugares mais pobres. Uma das palavras de ordem deixada em alta voz era: “A violência é uma droga”. Mas basta um gesto desse para mudar as coisas? Creio que não. Mas mesmo assim pode ser um sinal importante. Na manhã desta marcha contra a violência, perguntei à minha comunidade: “Valeu a pena?” Uma mulher me respondeu: “Sim, padre, agora vivemos em um clima diferente”. A PERSEVERANÇA LEVA À VITÓRIA
Semear valores requer tempo, constância e perseverança. Em 2004, um jovem me perguntou se repetiríamos a iniciativa da marcha. Por estarmos em um período pré-eleitoral, não sabíamos se seria oportuna uma mobilização do gênero. Contudo, acabamos propondo uma nova marcha pela paz. A adesão foi menos entusiasmada: - havia metade dos participantes da primeira vez, mas igualmente animada. Durante o caminho, oramos e paramos em alguns lugares, para refletirmos o tema dos menores assassinados, a desocupação, o êxodo das áreas rurais para as cidades, etc. A terceira edição da marcha aconteceu em fevereiro de 2005. Interessante foi a decisão de nos unirmos a um outro movimento pela paz do setor Grajaú que já havia realizado a marcha sete vezes. Junto a eles, lançamos um concurso de cantos, poesias, esculturas e desenhos com o tema “Construtores da Paz por uma cultura de paz”. A resposta foi interessante. A esta iniciativa tomou parte também Ota Masataka, um japonês protagonista de uma história dolorosa, mas tocante. UMA HISTÓRIA DE PERDÃO
Vale a pena conhecer a história de Ota Masataka e de sua família. Em 1998, o filho de oito anos foi raptado e assassinado por um grupo de policiais, os mesmos que deviam garantir a sua segurança. Ao invés de querer e pedir vingança, Masataka promoveu um abaixo assinado para que os culpados de crimes cruéis fossem encaminhados para cárceres especiais que, com o trabalho agrícola e o acompanhamento dos familiares e voluntários, pudessem recuperar o sentido da vida e da dignidade da pessoa. Em pouco tempo recolheu milhões de assinaturas. Nasceu assim o Movimento pela Paz e a Justiça “Ives Ota”, que transformou em força de Paz e Perdão o ódio e o desespero de tantos pais. Há várias outras iniciativas pela Paz. Entre elas lembro o movimento “Sou da Paz”, oriundo de uma favela violentíssima de minha Paróquia. O grupo pacifista está se tornando um ponto de referência na cidade de São Paulo. A novidade positiva destes últimos tempos é também a participação de pastores e Igrejas Evangélicas. A ESPERANÇA VÊ A PAZ Mesmo entre mil dificuldades, estamos trabalhando em alguns projetos de prevenção à violência: - trabalho, espaço para esportes, jogos, cultura... No governo passado foi realizada uma obra muito importante para nós, a Central Educacional Unificada, uma espécie de centro polifuncional com teatro, campos de jogos, piscina, escola, área de lazer... Infelizmente, o prefeito atual não acreditou muito nesta estratégia preventiva e, por isso, tal estrutura foi deixada de lado. Nesta obra de prevenção às drogas, à violência e à micro-criminalidade, temos uma iniciativa que surgiu há alguns anos, o CESPAT (Centro Social Padre Aldo da Tofori). Nos dirigimos aos jovens e adolescentes, aos quais propomos cursos de informática e de educação cívica. O objetivo é oferecer oportunidade de trabalho e recursos educativos que contribuam para criar uma cultura diferente. A esperança continua avistando a Paz, embora nos encontremos cansados e algumas vezes desiludidos. Inclusive a Igreja tem alguma responsabilidade, pois, no passado, assumia uma posição muito definida e corajosa. No entanto, o que importa não é construir barricadas pelo gosto de ser contra, mas sim alimentar uma sã inquietude evangélica que invada a comunidade, nos obrigando a olhar sempre os pobres no rosto. Para Refletir 2- O povo de seu bairro já possui esta consciência social, solidária? 3- Você esta empenhado na luta para melhorar a situação do povo marginalizado? Conheça
melhor as extraordinárias experiências do Pe. Maurílio
Maritano - PIME |
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