Jornal - "MISSÃO JOVEM"

Religiões afro-brasileiras

Dentro do contexto das religiões afro-brasileiras, continuamos nossa reflexão sobre o Candomblé.

Os orixás brasileiros representam uma vasta visão de mundo, em que personagens históricas e mitos contam a estrutura imaginária da religião nagô. Aqui apresentamos uma breve descrição.

Vários autores assinalam a coincidência extraordinária entre os caracteres típicos dos orixás e a personalidade de seus adeptos. Parece que os orixás representam os arquétipos do comportamento humano.

O orixá fogoso ou calmo está associado ao tipo humano com comportamento fogoso ou calmo, e assim por diante. Muitos orixás estão associados, também, a santos católicos.

A realidade desta combinação vem dos tempos da escravidão, quando a religião oficial católica impôs um verniz formal religiosa sobre as religiões africanas. Externamente os negros praticavam o catolicismo, mas internamente reviviam os mitos africanos.

A respeito disso existem diferentes interpretações. Prandi, por exemplo, sugere que a grande capacidade de adaptação da religião africana faz com que ela consiga se moldar ao novo contexto metropolitano, sendo protagonista de uma nova síntese.

Há pelo menos dois canais através dos quais se realiza a união entre os seres humanos e os deuses e antepassados.

O oráculo é o canal que preside todas as cerimônias do Candomblé. Popularmente conhecido como jogo dos búzios, trata-se de uma técnica em que o babalorixá desvenda os mistérios da vida.

Processos mais intuitivos ou formais podem ser usados, como o tempo de consulta pode variar, mas o objetivo é sempre o mesmo: clarear e desvendar os mistérios que envolvem a vida e a história humana.

Jogam-se os búzios, é feito o diagnóstico e os resultados são tratados com o ebô, uma espécie de sacrifício ritual. Os males que se encontram dentro do cliente são espantados e desviados em objetos e animais que são levados para lugares determinados ou enterrados, segundo a indicação da consulta. O ebô tem um caráter terapêutico e libertador.

A magia é sempre eficaz em si mesma sem recorrer a particulares referências ao transcendente.

O processo ritual de iniciação é o outro canal que une diretamente o indivíduo ao sagrado. É o caminho sem volta sobre o qual é centrada toda a organização do Candomblé. Representa o primeiro passo para subir na escala social, contribui para manter o grupo coeso e favorece a entrada na nova vida.

Os estágios da iniciação incluem os aspirantes (abiãs) que fazem os trabalhos humildes da casa e que devem revelar aptidão para o estado de santo.

Conhecidos os deuses tutelares e confirmados pelo jogo de búzio, a abiã se submete ao segundo estágio de iniciação. Este momento consiste no oferecimento da comida à sua cabeça, numa cerimônia chamada bori.

O ritual de dar comida à cabeça é um dos mais registrados pela etnografia brasileira. É necessário alimentar o bori como é necessário alimentar o orixá. Faz-se o bori para fortalecer a cabeça.

Os banhos do abô, contendo diferentes ervas e sangue de vários animais, acompanham este estágio e representam cerimônias preparatórias de purificação.

O tempo de confinamento da abiã no roncô (local separado preparado pela iaô) pode ser de vários dias ou de meses. É a iniciação propriamente dita, onde o iniciado apreende a lidar com seus deuses. O momento de passagem é a depilação, geralmente da cabeça. O iniciado torna-se familiar com as comidas, os sacrifícios e os animais típicos de seu orixá.

O momento ritual da saída de Iaô é o terceiro estágio de iniciação. É o dia do nome, o dia do Oruncó ou nome do santo. No barracão de danças a iaô aparece em público por três vezes, sendo a última vez com a roupa e os objetos rituais de seu orixá. Ela fala o nome de seu orixá e acompanha o ritual com danças e música especiais.

Em seguida a iaô continua a cumprir suas práticas rituais, mas já se encontra num estágio particular de ascensão na hierarquia do terreiro.

Todo o processo iniciatório representa uma fase de grande significação religiosa. Adquire, às vezes, uma característica de experiência extática de grande intensidade. O contato íntimo do indivíduo com a divindade atinge níveis de fusão mística e permanece envolvido por toda a vida.

Cada orixá tem um dia, ao longo do ano, que lhe é especialmente consagrado. Roupas rituais e cantos especiais que narram episódios míticos acompanham os dias de festa.

Além das cerimônias anuais para cada orixá, são de grande importância os ritos de casamento, de nascimento, de iniciação e também os ritos fúnebres. É nestes momentos que se celebra a vida como triunfo da vida sobre a morte. Especial destaque merecem os ritos fúnebres e os sacrifícios.

O sacrifício, como oferenda, visa conservar o equilíbrio entre o plano visível e o invisível. Desta maneira continua garantindo o fluxo da vida. A ação de graça por algo bem sucedido e a retribuição por algo oferecido, fazem com que se estabeleça uma relação de troca entre os adeptos e as divindades.

Muitas vezes o sacrifício é o ato para placar as divindades ou para se proteger dos inimigos. São oferecidos animais domésticos cujos órgãos internos são imbuídos de forças especiais. O sangue, também, é oferecido como dádiva agradável à divindade.

O círculo que se estabelece entre o adepto, o sacrifício e o orixá, visa principalmente a transmissão e o reforço do axé. Oferecendo a vida ao orixá, é o próprio ser humano que permanece revigorado. A vida circula reforçando-se e garantindo, a quem oferece a realização do seu ciclo vital, até o alcance da harmonia eterna.

Os ritos fúnebres tem um lugar especial no Candomblé. Eles estão vinculados ao próprio equilíbrio da vida, sendo a morte um momento de transformação, não de extinção. O corpo se reintegra ao universo e o espírito continua a revigorar o grupo e o sistema.

Quando é uma iaô ou ebome que morre, os ritos fúnebres duram três dias. Quando porém é a própria ialorixá, os rituais se prolongam por alguns dias.

Os pertences rituais do defunto podem ser enterrados ou jogados num lugar retirado. O orixá do falecido pode tomar posse de outro indivíduo, continuando assim sua morada sobre esta terra.

Há rituais também regionalizados e específicos para determinados orixás.

Famosa é a cerimônia das ‘águas de Oxalá’ que deu origem à cerimônia da lavagem do santuário da Igreja do Bonfim (em Salvador-BA) ou de Iemanjá, a mãe d’água que recebe homenagens no dia 02 de fevereiro ou 08 de dezembro.

No Rio de Janeiro é famosa a comemoração da passagem do ano (de 31 de dezembro para o 1º de Janeiro), quando barquinhos cheios de flores, de perfumes, de espelhos e de comida são oferecidos à grande mãe Iemanjá.

A origem africana forneceu, como vimos, parâmetros de comportamento entre o bem e o mal. Os ideais da proteção à vida, a solidariedade clânica, a busca da força e da harmonia regeram a estrutura da sociedade africana. A vinda forçada dos negros para o Brasil interrompeu esta harmonia e a unidade. A ética e os princípios de comportamento se fragmentaram deixando para o momento ritual a reconstrução da unidade, mas produzindo dicotomias no comportamento da vida normal.

Se considerarmos também que o Candomblé esteja passando de uma religião étnica para uma religião universal, em que adeptos de origem branca, intelectuais, homens de negócio, profissionais e outros parecem encher os terreiros sobretudo nas grandes cidades, novas questões de adaptação emergem para esta cosmovisão religiosa. Sobretudo a questão ética é refletida e questionada.

Prandi, por exemplo, sugere que o princípio ético do “certo e errado”, sendo limitado ao momento do rito no Candomblé, deixa margem a diferentes interpretações morais no cotidiano. Em seu trabalho sobre Candomblés em São Paulo, após ter entrevistado pessoas do alto clero do Candomblé, chega à conclusão que o Candomblé não conta com um corpo ético próprio. Tratar-se-ia de uma religião a-ética, usando imagens pré-éticas, que estariam florescendo em contextos urbanos marcados por uma cultura pós-moderna e pós-ética.

Evidentemente, ao redor dos redutos tradicionais do Candomblé, como em Salvador-BA, se refuta esta perspectiva e continua se afirmando uma originalidade ética do Candomblé centrada nos grandes valores africanos da solidariedade, da religião, da harmonia e da vida.

Pe. Giorgio Paleari

PARA REFLETIR

  1. Qual a visão de mundo do Candomblé?
  2. Como o homem se comunica e se une a Deus no Candomblé?
  3. O Candomblé possui uma ética?

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